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sábado, 14 de setembro de 2013

Mitos e verdades sobre o Conde de Saint-Germain (10ª e última parte)

Termina hoje a tradução (adaptada) do texto “O Conde de St. Germain” de David Pratt.

Em maio de 1789 Cagliostro e a sua esposa chegaram a Roma. Os seus inimigos mandaram-lhe dois jesuítas que fingiam pretender a conversão à Maçonaria Egípcia. A 27 de dezembro, Cagliostro foi preso por praticar Maçonaria, uma ofensa nos Estados papais. Ele ficou detido no Castelo Sant’Angelo em Roma, onde foi algemado e acorrentado pelo pescoço. A sua mulher também foi detida, intimada a dar informações sobre Cagliostro e “confessar” tudo. Morreria num convento alguns anos mais tarde. O julgamento de Cagliostro perante a Santa Inquisição durou 15 meses. A 7 de Abril de 1791 ele foi condenado à morte. Os seus “crimes” incluíam ser um maçon e um “herege”. Todos os seus documentos, bens e parafernália relacionada com as suas atividades maçónicas foram queimados perante uma enorme quantidade de gente, incluindo os seus manuscrito sobre a Maçonaria Egípcia. Nesse momento algo de misterioso ocorreu:

“Um estranho, nunca antes visto por ninguém no Vaticano, apareceu e exigiu uma audiência privada com o Papa, mandando através do Cardeal Secretário uma palavra em vez de um nome. Ele foi recebido de imediato, mas apenas esteve com o Papa alguns minutos. Mal ele saiu, o Papa deu ordens para comutar a pena de morte para prisão perpétua na fortaleza chamada de Castelo de San Leo, acrescentando que esta mudança deveria ser conduzida no maior dos sigilos.

Na Fortaleza de San Leo, os captores de Cagliostro, com medo que ele escapasse, por vezes punham-no numa espécie de poço, em vez da sua cela de pedra. Ele foi fisicamente torturado, e terá morrido de apoplexia a 26 de agosto de 1795. Blavatsky reconta mais tarde as histórias que negam que ele tenha morrido nas celas da Inquisição, sugerindo uma fuga espetacular.

A fortaleza de San Leo nos Montes
Apeninos. No tempo de Cagliostro, o
único modo de lá chegar era sendo içado
numa espécie de cesto com o
auxílio de cordas e roldanas.


Comentando a vida de Cagliostro, Blavatsky diz:

“A causa raiz de todos os seus problemas foi o casamento com Lorenza [ou Seraphina] Feliciani, uma ferramenta dos Jesuítas, e duas causas menores, a sua extrema boa natureza e a confiança cega que colocava nos seus amigos, alguns dos quais tornaram-se traidores e nos seus mais encarniçados inimigos. 

(…) Foi a sua ligação com a Ciência Oculta Oriental, o seu conhecimento de muitos segredos – mortais para a Igreja de Roma – que trouxeram a Cagliostro, primeiro a perseguição dos Jesuítas e finalmente a severidade da Igreja.”

Os Jesuítas mais tarde espalharam o falso rumor que ele havia sido seu espião, mas não existem provas de que Cagliostro alguma vez tivesse envolvido em intriga política.

“Ele era simplesmente um ocultista e um maçon, e como tal era permitido sofrer às mãos daqueles, que aliando o insulto à injúria, primeiro o tentaram matar por prisão perpétua e depois espalharam o rumor de que teria sido um dos seus ignóbeis agentes.

Existem muitas passagens nas biografias de Cagliostro que mostram que ele ensinou a doutrina oriental dos princípios no homem, de “Deus” vivendo no homem, como uma potencialidade in actu (o “Eu Superior”), e em todo o ser vivo e até átomo, como uma potencialidade in posse. Essas passagens também serviram para mostrar que ele serviu os Mestres de uma Fraternidade que ele não podia nomear, devido ao seu juramento de que não o podia fazer.

G. de Purucker escreve:

“Que curioso é que Giuseppe Balsamo sugira uma influência de cura e que “Balsamo” correta ou erradamente possa ser atribuída a uma palavra semítica composta que significa “Senhor do Sol”-“Filho do Sol”, enquanto o nome hebreu José significa aumento ou multiplicação. Que curioso é que o primeiro professor de Cagliostro se tenha chamado Althotas, uma curiosa palavra contendo o artigo definido árabe “o”, com o sufixo grego “as” e contendo a palavra egípcia “Thoth”, que era o Hermes grego – o Iniciador! Que curioso é que Cagliostro tenha sido chamado de órfão, a criança infeliz da Natureza! Cada iniciado num certo sentido é mesmo isso, cada iniciado é um órfão sem pai, sem mãe, porque misticamente falando cada iniciado nasce a partir de si próprio. Que curioso é que os outros nomes pelo qual Cagliostro foi conhecido  em diferentes alturas tenham em cada instância um significado esotérico particular.
Para cada Cagliostro que aparece, existe sempre um Balsamo. Acompanhando de perto e na verdade inseparável de cada mensageiro está a sua sombra. Junto de cada Cristo aparece um Judas.”
Blavatsky dizia que o fim dele “não foi totalmente imerecido, pois Cagliostro foi infiel aos seus votos em alguns conceitos: saiu do estado de castidade e cedeu à ambição e ao egoísmo.”

G. de Purucker comenta:

“O falhanço de Cagliostro não foi resultado da vulgar paixão humana, nem da vulgar ambição humana, conforme entendem as pessoas estes termos….Existem às vezes mais tragédias na vida de um Mensageiro do que seria esperado, pois um Mensageiro jura obediência em ambas as direções – obediência à lei geral do seu karma, de que ele não se pode afastar um só passo, e obediência igualmente estrita à Lei daqueles que o mandaram… Sejam, portanto, caridosos no vosso julgamento desse grande e infeliz homem, Cagliostro!”

FIM


Um agradecimento final a David Pratt, pela autorização dada para a tradução dos seus excelentes textos para português.

sábado, 7 de setembro de 2013

Mitos e verdades sobre o Conde de Saint-Germain (9ª parte)

Continuamos com a tradução (adaptada) do texto “O Conde deSt. Germain” de David Pratt.

12. Cagliostro e Mesmer 

Saint-Germain, Cagliostro e Mesmer foram todos mensageiros da Fraternidade Himalaia durante o séc. XVIII, assim como H.P.Blavatsky foi sua mensageira no séc. XIX. KH diz que Saint-Germain e Cagliostro foram ambos “cavalheiros da mais alta educação e das mais elevadas realizações, e presumivelmente europeus” mas que eram olhados na altura e posteriormente como “impostores, cúmplices, trapaceiros” [Cartas dos Mahatmas para A.P. Sinnett, vol.II, carta nº92, p.85]. Ele condena a “presunção e obscurecimento mental” dos académicos que “perseguiram Mesmer e que classificaram Saint-Germain como um impostor”. [op.cit, vol.I, Carta XX, p.132].

Nascido na Alemanha em 1734, Franz Anton Mesmer estudou na Universidade de Viena e tornou-se doutor em medicina em 1766. Em 1773 ele começou a tratar pacientes com ímanes, mas passados alguns anos deixou de usar ímanes, acreditando que as curas envolviam a transferência de um fluido subtil ou força vital, que ele chamava de magnetismo animal. Em 1777 ele deixou Viena e no ano seguinte montou o seu consultório em Paris. A sua fama cresceu rapidamente e passados alguns anos Mesmer estava tratando vários milhares de pacientes ao ano e com grande sucesso.

O seu sucesso enfureceu a comunidade médica, e como a sua clientela provinha da classe média-alta ele foi acusado de lhes extrair dinheiro por explorar a sua ingenuidade. Em 1784 uma comissão composta por membros da Faculdade Francesa de Medicina e da Academia Real das Ciências declarou que as suas curas eram inteiramente atribuídas à imaginação dos seus pacientes, isto apesar de se terem dado ao trabalho de entrevistar Mesmer durante a sua investigação. Ele faleceu em 1815, ressentido do facto da sua descoberta não ter sido oficialmente reconhecida e por alguns dos seus discípulos terem distorcido os seus ensinamentos. A prática comum de fazer equivaler o mesmerismo ao hipnotismo é um grande erro.

Helena Blavatsky descreve Mesmer da seguinte forma: 

“Famoso médico que redescobriu e aplicou praticamente ao homem aquele fluido magnético, que foi designado pelo nome de “magnetismo animal” e, desde então, “mesmerismo”.(…) Era membro iniciado da Fraternidade dos Fratres Lucis [Irmãos da Luz] e de Lukshoor (ou Luxor) ou o ramo egípcio desta última. O Conselho de Luxor elegeu-o – segundo as ordens da “Grande Fraternidade”- para atuar, no séc. XVIII, como explorador comum, enviado no último quarto de cada século para instruir na ciência oculta uma pequena parte das nações ocidentais. O Conde de Saint-Germain, neste  caso, inspecionou o desenrolar dos acontecimentos e, mais tarde, Cagliostro foi comissionado para prestar seu concurso. Porém, tendo cometido uma série de erros mais ou menos fatais, foi destituído do seu cargo. Mesmer fundou a “Ordem da Harmonia Universal” em 1783, na qual, como era de se supor, ensinava-se apenas o magnetismo animal, porém, na realidade, expunham-se as doutrinas de Hipócrates, os métodos dos antigos Asclepieia, os Templos de cura e, muitas outras ciências ocultas. [Glossário Teosófico, p.372].

Franz Anton Mesmer (retirado de
marilynkaydennis.files.wordpress.com)


Não há provas seguras que Mesmer tivesse conhecido Saint-Germain.

Cagliostro (pronuncia-se Calli-ostro) foi um ocultista, maçon, filantropo e curador. HPB chama-o de “famoso adepto” cuja “verdadeira história ninguém nunca contou”.

“Sua sorte foi aquela de todo ser humano que dá provas de saber mais do que os seus semelhantes. Foi apedrejado até à morte através de perseguições, calúnias e acusações infames e, apesar disso, era amigo e conselheiro de personagens poderosas de todos os países que visitava. Finalmente, foi processado e sentenciado, em Roma, como herege, e diz-se que morreu durante a sua permanência num calabouço [em 1795]”
Conde Alessandro di Cagliostro (retirado de sil.si.edu)


A inquisição ligou o seu passado a um famoso ladrão nascido na Sicília de nome Giuseppe Balsamo, algo que parece ter sido feito com a intenção de denegrir Cagliostro.

Nos seus relatos pessoais, Cagliostro diz não saber o local do seu nascimento e a identidade dos seus pais. Ele diz que sob o nome de Acharat, passou a sua infância em Medina na Arábia, no palácio do Mufti Salahayn, o líder dos muçulmanos. O seu tutor, Althotas ensinou-lhe botânica, química e outras ciências. 

Althotas disse a Cagliostro que ele tinha sido deixado órfão com três meses de idade e que os seus pais eram Cristãos da classe nobre. Com doze anos, ele acompanhou Althotas a Meca, onde ficou três anos. Ele então viajou para o Egito onde, por volta dos seus dezoito anos, visitou os principais reinos de África e da Ásia.

Em 1766, Cagliostro acompanhou o seu tutor à ilha de Malta onde haveria de assumir o nome de Conde Cagliostro. Quatro anos depois desposaria Seraphina Feliciani, uma devota católica, analfabeta. Viajou por grande parte da Europa, incluindo Portugal, tendo por vezes usado outros nomes. Passava o seu tempo ajudando os pobres, curando os doentes e tendo encontros com pessoas importantes da sociedade, além de desenvolver trabalho maçónico. Parecia ter uma fonte inesgotável de dinheiro.

Ainda no campo da maçonaria, estabeleceu o seu próprio Rito Egípcio e fundou várias lojas de Maçonaria Egípcia, com sucesso variável. Contrariamente aos costumes maçónicos, estas lojas admitiam mulheres. A sua missão era purificar e elevar a Maçonaria e “enxertá-la” com a filosofia Oriental. Sem essa união, dizia Blavatsky “a Maçonaria Ocidental seria um cadáver sem alma”. Por vezes produzia fenómenos ocultos, mas ele percebeu que isto só conduzia a cada vez mais pedidos para mais maravilhas. Há testemunhas que Cagliostro terá produzido ouro mais do que uma vez, graças aos seus conhecimentos de alquimia.

Entre 1780 e 1783 e durante os três anos que passou em Estrasburgo, na Alsácia, a sua casa estava constantemente cercada pelos enfermos e por gente em sofrimento. Ele tratou 15 mil pacientes, dos quais apenas três morreram. Nunca cobrou um tostão e muitas vezes dava dinheiro aos pacientes pobres para que estes pudessem comprar comida e pagar as suas dívidas. Muitos desses casos tinham sido declarados incuráveis pelos médicos da ortodoxia. Cagliostro terá curado casos de gangrena, contudo foi catalogado de charlatão e todos os esforços foram feitos para minar o seu trabalho. Cagliostro preparava os seus próprios medicamentos e elixires e também conhecia o magnetismo animal. Um elemento crucial no seu sucesso era a sua capacidade para instilar esperança e confiança naqueles que tratava.

O seu trabalho inevitavelmente levantava oposição de pessoas, invejosas, gananciosas e sem escrúpulos.

Diz-se que terá sido um discípulo de Saint-Germain, mas não há provas efetivas disso. Entretanto, viu-se envolvido numa intriga palaciana e acabou preso na Bastilha. Mais tarde escreveria uma carta ao povo francês sobre a injustiça de ser detido numa prisão sem grandes provas e apenas por ordem do Rei, o que se diz terá ajudado a espoletar a Revolução Francesa. Deste modo, Cagliostro terá tido um papel mais relevante naquele desfecho do que o próprio Saint-Germain.


Continua na próxima semana…

sábado, 31 de agosto de 2013

Mitos e verdades sobre o Conde de Saint-Germain (8ª parte)

Continuamos com a tradução (adaptada) do texto “O Conde deSt. Germain” de David Pratt.

10. Os escritos de Saint-Germain

Sobre os escritos de Saint-Germain, HPB escreve:

“O Conde de Saint-Germain deixou nas mãos deste Maçon [um homem que vivia em Londres e que tinha  falecido nos primeiros meses de 1889] alguns documentos com a história da Maçonaria, contendo a chave para vários mistérios mal entendidos. Ele fê-lo com a condição que estes documentos se tornassem a herança secreta de todos os descendentes dos cabalistas que se tornassem maçons. Estes documentos contudo eram valiosos apenas para dois maçons, o pai e o filho que havia morrido e não terão qualquer utilidade para mais alguém na Europa. Antes da sua morte, estes preciosos documentos foram deixados a um oriental (hindu) que foi encarregue de transmiti-los a uma certa pessoa que viria a Amritsar, Cidade da imortalidade, para reclamá-los.”

De acordo com Blavatsky, uma cópia única dos manuscritos do Vaticano sobre a Cabala diz-se ter estado na posse de Saint-Germain. Diz ela que o pergaminho contém a mais completa exposição de como as inteligências superiores – que foram mais tarde coletivamente transformadas num Deus criador – formaram um universo orgânico e inclui ainda os pontos de vista dos Luciferianos e outros Gnósticos. Ela acrescenta que os “sete sóis da vida” (logoi solares, dhyani-chohans)  - apenas quatro dos quais são mencionados nas edições públicas da Cabala - são referidos na ordem em que se encontram na doutrina Hindu do sapta-surya (“sete sóis”), indicando que os ensinamentos tiveram origem na “Doutrina Secreta dos Arianos”.

A autoria do notável trabalho “A santíssima Trinosofia” é algo controverso. Foi alegadamente escrito pelo Conde de Saint-Germain ou pelo Conde Alessandro di Cagliostro. O manuscrito de 96 páginas está na posse da biblioteca francesa em Troyes. É um manuscrito, a maior parte do qual em francês e também contém letras, palavras e frases em várias outras línguas, além de imagens semelhantes a hieróglifos egípcios, algumas palavras em carateres que se assemelham à escrita cuneiforme e várias páginas que terminam em códigos. A sua prosa poética está cheia de símbolos maçónicos e cabalísticos, assim como os desenhos com que está ricamente ilustrado. A obra trata de forma velada e alegórica os mistérios da iniciação.

Capa (retirado de bibliodyssey.blogpot.com)

A primeira folha do manuscrito contém uma nota dizendo que pertenceu ao famoso Cagliostro e que foi encontrado por Massena em Roma.  Uma nota assinada por um filósofo que se auto-designa por “Philotaume I .A.C” diz que é uma cópia única de uma obra de Saint-Germain. Manly Hall acredita que foi de facto escrita por Saint-Germain e que foi apreendida pela Inquisição quando Cagliostro foi preso em Roma em 1789. Jean Overton Fuller, por outro lado, sugere que foi escrita por Cagliostro quando ele esteve encarcerado no Castelo de Sant’Angelo.

Ilustração da 12ª e última parte


11. Neoteosofia

A tradição neoteosófica de Annie Besant e Charles Leadbeater mostra várias e fundamentais diferenças quando comparada com os ensinamentos teosóficos apresentados por H.P. Blavatsky e os mahatmas, e outros instrutores teosóficos como William Quan Judge e Gottfried de Purucker. Existem poucas pessoas hoje que pensam que não existiu auto-ilusão envolvida na clarividência de Besant e Leadbeater, por exemplo nas descrições de vidas passadas deles próprios e dos seus colaboradores, dos seus encontros com os mahatmas, das suas experiências iniciáticas no plano astral, e das suas descrições de habitantes de outros planetas no nosso sistema solar.

Este quadro, de autor desconhecido, supostamente
mostra Blavatsky e os seus três "mestres" (Kuthumi,
Morya e Saint-Germain. Contudo Blavatsky nunca se referiu
nos seus escritos ao "Mestre Saint-Germain" ou "Mestre
Rákóczy" e nunca chamou a Saint-Germain seu mestre.

Ambos identificam o Conde de Saint-Germain como o Mestre Ráckózy, ou O Conde, que hoje vive num castelo na Europa Oriental. Baseando-se nas suas faculdades de clarividência/fantasias, Leadbeater lista a lista de encarnações do Conde: ele foi Francis Bacon no séc. XVII, Roberto, o Monge no séc. XVI (existe alguém com o mesmo nome, conhecido por ter sido um cronista na Primeira Cruzada, mas viveu no séc. XII), Hunyadi Janos (um general e Governador-Regente do Reino da Hungria) no séc. XV, Christian Rosenkreuz no séc. XIV (as vidas de Hunyadi Janos e Rosencreuz provavelmente sobrepõem-se no tempo) e Roger Bacon no séc. XIII. Antes disso, ele terá supostamente sido o neoplatónico Proclo e antes ainda Santo Albano. Leadbeater alegou ter conhecido O Conde em carne e osso em Roma, descrevendo os seus modos e aspeto.

Diz-se na neoteosofia que o Mestre Ráckózy é um dos mestres responsável pelos “sete raios”, sendo os outros Kuthumi, Morya, Jesus, Hilarion, Serapis e o Veneziano. Ele é supostamente o responsável pelo sétimo raio (associado à magia cerimonial e à ordem).

"Mestre Ascenso Saint-Germain"


A paranóia dos “Mestres Ascensos” merece apenas uma breve referência. Em 1930, Guy Ballard (1878-1939), afirmava ter conhecido “o mestre ascenso” Saint-Germain no Monte Shasta. Ele supostamente levou Ballard e a sua esposa a uma convenção de Venusianos no Grand Teton [NT:parque nacional norte-americano]. Ballard fundou o grupo “I AM” e ele, sua mulher e seu filho tornaram-se nos “únicos mensageiros acreditados” e publicaram muitas mensagens canalizadas dele. Hoje em dia, numerosos canais e cultos afirmam receber mensagens de Saint-Germain e de outros mestres ascensos, que normalmente vivem nos reinos superiores. Muitos produtos relacionados estão disponíveis para venda, como um marcador de livros de seda infundido com a energia de Saint-Germain e vários sprays e essências para facilitar a ascensão para dimensões superiores e comunicar com Saint-Germain. Agradecem-se donativos…

"Mestre Ascenso Saint-Germain"
com um penteado diferente



Continua na próxima semana…

sábado, 24 de agosto de 2013

Mitos e verdades sobre o Conde de Saint-Germain (7ª parte)

Continuamos com a tradução (adaptada) do texto “O Conde deSt. Germain” de David Pratt.

8. As origens do Príncipe Rákóczy

Saint-Germain

Saint-Germain deu indicações a várias pessoas de que era o filho de Francisco (Ferenc) Ráckózy II da Transilvânia.  Ráckózy (pronuncia-se rakotsi) era o nome de uma família nobre do Reino da Hungria entre os séculos XIII e XVIII. Francisco II foi o membro mais famoso da família por ter estado na linha da frente da rebelião da Hungria contra os Habsburgos da Áustria. Derrotados, os Ráckózy  viram a sua fortuna confiscada. Saint-Germain deverá ter sido um filho ilegítimo de Francisco II, especulando  Jean Overton Fuller que a mãe do grande ocultista terá sido a Princesa Violante da Bavaria, esposa do Princípe Ferdinando dos Medici, negligenciada e triste em Florença, onde Ráckózy chegou em Maio de 1693. Não há contudo provas que Francisco e Violante se tenham encontrado. As fotos abaixo sugerem algumas parecenças entre Saint-Germain e Violante. Esta data de 1693 como a de conceção de Saint-Germain é congruente com outras informações disponíveis de que teria 88 anos quando se instalou em Eckernförde (1779).

Francis Rákóczy (por Ádám Mányoki, 1724)

Fuller sugere então que Saint-Germain era o filho do príncipe Ráckózy da Transilvânia e da Princesa Violante.

Princesa Violante

“Esta seria uma razão para que os Medici o tivessem criado, pois porque razão cuidariam dele a menos que a sua mãe fosse alguém da sua própria família?“. Ela acrescenta ainda que Ráckózy poderia desconhecer este seu filho, pois os Medici eram de tal forma ricos que não necessitavam do dinheiro de Ráckózy para criar o conde.

Gian Gastone sempre foi compreensivo para a sua negligenciada cunhada Violante e poderá ter persuadido o seu pai, Cosimo, a cuidar da criança no seu lar, como já tinha acontecido muitas outra vezes com crianças de outras boas famílias. Isto está de acordo com os comentários de Saint-Germain de que ele havia sido “tremendamente protegido” e educado por Gian Gastone. A Casa dos Medici possuía grande conhecimento, mas Saint-Germain disse a Carl que ele havia aprendido os segredos da Natureza pelos seus próprios esforços e pesquisas.  A ligação de Saint-Germain com os duques de Medici ajuda a explicar a razão de ele possuir um Raphael e outras pinturas valiosas e de como ele se tornou num músico e compositor.

9. Mensageiro e Adepto

Como foi referido na introdução, Helena P. Blavatsky referiu-se a Saint-Germain como “o maior Adepto oriental que a Europa já conheceu durante os últimos séculos”. Ela usava a palavra “Adepto” para se referir a ocultistas e místicos de diferentes graus, não apenas a Mahatmas.

Sobre como os Mahatmas selecionam os seus discípulos ou chelas, Blavatsky escreve:

“Durante séculos, a seleção de chelas – fora do grupo hereditário dentro dos gon-pa [mosteiro Budista] – tem sido feito pelos próprios Mahatmas dos Himalaias dentro da classe (no Tibete, considerável, atendendo ao número) dos místicos naturais. As únicas exceções têm sido em casos de homens do Ocidente como Fludd, Thomas Vaughan, Pico della Mirandola, Conde de Saint-Germain, etc… cuja afinidade de temperamento com esta ciência celestial de certa forma forçou os Adeptos distantes a estabelecerem relações pessoais com eles, e possibilitaram que eles obtivessem aquela pequena (ou grande) porção da Verdade dentro das possibilidades dos condicionamentos sociais da altura.”

Ela menciona Saint-Germain como um exemplo de alguém que com “treino precoce e métodos especiais” atingiu o estádio de um homem da 5ª ronda e desenvolveu os seus sentidos superiores. Ela também escreveu:

“O tratamento que foi dado à memória deste grande homem - aluno dos hierofantes da Índia e do Tibete e proficiente na sabedoria oculta do Oriente – é um estigma sobre a natureza humana. E assim tem sido a forma como este estúpido mundo tem tratado todas as outras pessoas que, tal como Sant-Germain, o revisita após longo tempo de isolamento dedicado ao estudo, com as suas reservas de sabedoria esotérica acumulada, na esperança de melhorá-lo e de fazê-lo mais sábio e feliz.”

Blavatsky sugere que Saint-Germain poderá ter sido capaz de se recordar de algumas das suas vidas passadas:

“Se ele dissesse que tinha nascido na Caldeia e professado possuir os segredos dos sábios e magos egípcios”, ele poderia ter falado a verdade sem fazer nenhuma afirmação miraculosa. Existem iniciados, não necessariamente os mais elevados, que estão em condições de se recordar de mais do que uma das suas vidas passadas.”

Quando é que ele morreu?

Numa carta escrita a A.P. Sinnett em agosto de 1881, o Mahatma KH disse que o ocultista francês Eliphas Levi (1810-1875) tinha estudado a partir de manuscritos rosacrucianos (dos quais só sobravam três cópias na Europa).

“Estes expõem as nossas doutrinas orientais com base nos ensinamentos de Rosencreuz, que, após o seu regresso da Ásia, as revestiu com uma roupagem semicristã, com a intenção de proteger os seus discípulos da vingança clerical. Rosencreuz ensinou verbalmente. Saint Germain registou as boas doutrinas em linguagem cifrada, e o seu único manuscrito cifrado permaneceu em poder do seu fiel amigo e protetor, o benévolo príncipe alemão de cuja casa e em cuja presença ele fez a sua última saída – para o LAR. Fracasso, total fracasso!” [Cartas dos Mahatmas para A.P. Sinnett, vol. I, Carta XX, p.132]”

(…) Os mestres presumivelmente viam a missão de Saint-Germain como um falhanço pois esperavam que tivesse evitado muita da violência e derramamento de sangue que tinha acompanhado a transição de uma sociedade aristocrática e feudal, dominada pelo absolutismo monárquico e pela igreja dogmática para a nova sociedade industrializada, caracterizada por uma maior liberdade individual e política.

Na opinião de Blavatsky, se Saint-Germain realmente morreu em 1784, o seu enterro não seria discreto, mas com grande pompa e circunstância, condizente com o seu estatuto. Por outro lado, poder-se-ia argumentar que o seu discreto funeral estaria de acordo com estilo de vida em retiro e o low-profile que caracterizou os seus últimos anos de vida. N’ "O Teosofista" de 1881, Blavatsky menciona “alegadas evidências no sentido positivo” de que Saint-Germain ainda era vivo vários anos depois de 1784:

“Diz-se que ele teve uma importante conversa privada com a Imperatriz da Rússia em 1785 ou 1786, e apareceu à Princesa de Lamballe enquanto ela estava diante do tribunal, poucos momentos antes dela ser abatida por uma bala e um carniceiro lhe ter cortado a sua cabeça. Também apareceu à Jeanne du Barry, a amante de Luís XVI, enquanto ela esperava no seu cadafalso em Paris, o golpe da guilhotina nos dias do Terror, em 1793."

Várias outras referências existem aludindo à sobrevivência de Saint-Germain para lá de 1784, embora não sejam de testemunhas credíveis.

Se ele realmente morreu nesse ano, seria muito bem possível para um Mahatma projetar o seu mayavi-rupa , fazendo-o assumir a aparência e características de Saint-Germain e aparecer a quem ele quisesse.


Continua na próxima semana…

sábado, 17 de agosto de 2013

Mitos e verdades sobre o Conde de Saint-Germain (6ª parte)

Continuamos com a tradução (adaptada) do texto “O Conde deSt. Germain” de David Pratt.

7.  O príncipe Carl e os anos finais

O príncipe Carl era neto do Rei Jorge II de Inglaterra e em 1769 começaria a governar os ducados de Schleswig e Holstein (hoje parte da Dinamarca) em nome do governo do seu cunhado, o rei Cristiano VII da Dinamarca e Noruega. Tornou-se maçon a partir de 1774. Sobre St. Germain disse:

Carl de Hesse-Cassel

“Ele falou-me das grandes coisas que queria para a humanidade, etc…Eu não estava particularmente desejoso disso, mas no fim tive os meus escrúpulos sobre rejeitar conhecimento que era muito importante e tornei-me seu discípulo. Ele falava muito da melhoria das cores, que custaria praticamente nada, da melhoria dos metais, acrescentando  que era absolutamente necessário aderir fielmente a este princípio…Não existe praticamente nada na Natureza que ele não saiba como melhorar e usar. Ele confidenciou-me algo sobre a sabedoria da Natureza, mas apenas a parte introdutória, fazendo com que eu, por experiência própria,  tentasse alcançar sucesso, regozijando-se ele extremamente com os meus progressos. Assim aconteceu com os metais e pedras preciosas, mas quanto às cores ele acabou por me dá-las, assim como importante informação.”

A documentação deixada pelo príncipe Carl incluía a receita para o famoso chá de Saint-Germain: continha vagens de sene, flores envelhecidas e erva-doce embebido em vinho. Tinha um efeito laxativo e propriedades gerais saudáveis. Carl conta que a sua esposa estava uma vez muito doente com um ataque de catarro, com muitas dores e com febre. Ela tomou um dos remédios de Saint-Germain e uma hora depois estava perfeitamente saudável. Saint-Germain aparentemente seguia a tradição dos antigos herbalistas, acrescentando alguns refinamentos próprios. Carl escreve:

“Ele sabia perfeitamente tudo sobre ervas e plantas e tinha descoberto remédios que usava continuamente e que lhe prolongavam a vida e a saúde. Eu ainda possuo algumas das suas receitas, mas os médicos denunciaram veementemente a sua ciência após a sua morte. Havia um médico de nome Lossau, que havia sido um boticário e a quem eu dei doze mil coroas por ano para trabalhar com os remédios que o Conde Saint-Germain lhe havia dado, principalmente com o seu chá, que os ricos compravam e os pobres recebiam gratuitamente.
Este médico curou muitas pessoas, das quais, segundo sei, nenhuma morreu. Mas depois da morte do médico, desgostoso com as propostas que recebi de todos os lados, eu retirei todas as receitas e não substitui Lossau.”

Há quem diga que Saint-Germain teve um papel importante no desenvolvimento de sociedades secretas, como os Rosacruzes ou a Maçonaria. Mas não há provas disso, e até existiam muitos maçons que tinham inveja da fama e conhecimentos de Saint-Germain, e que por isso lhe eram hostis.

Contudo existe uma carta (embora haja dúvidas da sua autenticidade) do príncipe Carl onde consta o seguinte:

“Ele sempre agiu como se não soubesse nada de Maçonaria ou de alto conhecimento, embora durante o último ano uma série de coisas convenceu-me do contrário…Apesar de nunca se ter declarado Maçon, ele disse algo estranho, que ele era o “o mais antigo dos Maçons”.

Noutra carta Carl descreveria Saint-Germain da seguinte forma:

“Ele foi provavelmente um dos maiores filósofos que já existiu. Um amigo da humanidade, só querendo dinheiro para dar aos pobres e também um amigo dos animais. O seu coração nunca estava ocupado exceto com o bom dos outros. Ele pensava que fazia o mundo mais feliz ao lhe dar novos prazeres, os tecidos mais belos, as cores mais belas, muito mais baratas do que antes, pois os seus corantes soberbos não custavam praticamente nada. Nunca vi um homem com uma inteligência mais clara do que a dele, junto com uma erudição (especialmente em história antiga) como eu raramente encontrei.”

Carl diz que os princípios filosóficos de Saint-Germain na religião eram “puro materialismo”. Portanto vemos aqui Carl a cometer o mesmo erro de outros maçons. Não sabemos os detalhes das suas conversas e os ensinamentos de Saint-Germain. Mas o que sabemos é que, segundo Carl, Saint-Germain “não era de modo algum um adorador de Jesus Cristo”. Carl uma vez disse a Saint-Germain que achava as suas observações sobre Jesus ofensivas e que Saint-Germain prometeu não abordar o assunto novamente. Muito provavelmente ele teria dito que Jesus era um sábio com uma vida sagrada mas não “o filho unigénito de Deus”. Saint-Germain não era claramente um teísta, um crente na teologia ortodoxa do Cristianismo, mas também não era um materialista que acreditasse na existência de nada mais do que a matéria física. Ele poderá ter aderido a uma visão panteísta da natureza que soasse aos Maçons convencionais mais como materialismo ateísta.

Por volta de 1783, a saúde de Saint-Germain estava claramente a falhar. Ele sempre tinha sido muito vulnerável ao frio e sofria de reumatismo.  Terá morrido a 27 de fevereiro de 1784, mas devido a um grande temporal em 1872, não se sabe exatamente onde estará agora o corpo de Saint-Germain.

Ele era tão pobre na altura da sua morte, que os seus bens não cobriam o custo do seu funeral e portanto foi-lhe dado um funeral gratuito por consideração ao seu patrono, o príncipe Carl. Tudo o que ele deixou foi um maço de contas pagas, uma pequena quantia de dinheiro, alguma roupa e algumas outras coisas como lâminas e escovas de dentes. O valor dos seus bens valeria hoje cerca de 690 libras esterlinas. Não havia diamantes, pinturas, partituras musicais, livros ou violino.”


Continua na próxima semana…

sábado, 10 de agosto de 2013

Mitos e verdades sobre o Conde de Saint-Germain (5ª parte)

Continuamos com a tradução (adaptada) do texto “O Conde deSt. Germain” de David Pratt.

6. Viajando na Alemanha

Em 1774 Saint-Germain estava em Ansbach, localidade que hoje pertence à Bavaria, a sudoeste de Nuremberga. Vivia sob o nome de Conde Tsarogy e mais tarde foi descrito assim:

“Este homem singular, que no seu tempo causou tanta sensação imerecida, viveu durante vários anos no Principado de Ansbach, sem ninguém ter a mínima ideia de que ele era o misterioso aventureiro sobre quem as pessoas atribuíam histórias tão extraordinárias.”

Saint-Germain é descrito como alguém que vivia muito retirado e em reclusão, mas que não deixava de fazer atos benevolentes.

“O estrangeiro parecia ter 60 a 70 anos, sendo de média estatura, mais magro que corpulento, o seu cabelo grisalho escondido por baixo de uma cabeleira, parecendo um homem vulgar, um italiano idoso. As suas roupas eram muito simples, a sua aparência não mostrava nada de extraordinário.”

“Ele não tinha criados, comia sozinho e da forma mais simples possível, no seu próprio quarto, que ele poucas vezes abandonava. As suas necessidades eram reduzidas ao mínimo. Não tinha círculo social, mas passava as noites com o Markgraf e a Senhorita Clairon e amigos trazidos pelo Markgraf. Ele não podia ser persuadido a comer na mesa real.

A sua conversa era sempre interessante e mostrava muito conhecimento do mundo e das pessoas, mas às vezes surgia  uma referência misteriosa e ele interrompia a conversa ou mudava de assunto quando alguém tentava saber mais dele. Ele gostava de falar sobre a sua infância e da sua mãe, de quem ele nunca falava sem emoção.  Acreditando nele, a sua educação deverá ter sido a de um príncipe.
O que este homem singular fazia durante cada dia seria difícil de dizer. Ele não tinha livros com ele, exceto uma cópia suja de Pastor Fido. Ele muito raramente deixava alguém entrar no seu quarto, mas quando alguém o fazia, usualmente encontravam-no com a sua cabeça envolta num pano preto. A sua ocupação preferida era a preparação de todo o tipo de corantes. A janela do seu quarto, que dava para o jardim, estava tão salpicado de corantes que não se conseguia ver através dela. (…)”

[Tsarogy] confessou ao Markgraf que o nome Tsarogy  era falso, ou uma espécie de anagrama, e que ele era na verdade um Rákóczy, o último descendente do príncipe Rákóczy da Transilvânia, do tempo do Imperador Leopoldo.

Mas, mais tarde chegam relatos contrários sobre as origens de Tsarogy aos ouvidos de Markgraf, que fica a saber de vários nomes que ele tinha usado nos seus diversos pontos de paragem. Quando Saint-Germain é confrontado com isso e com o desagrado do Markgraf com o abuso da sua boa vontade…

“…ouviu todas as acusações num modo completamente relaxado e disse que ele havia, numa altura ou noutra, usado todos os nomes referidos (…) mas, disse que sob todos esses nomes foi conhecido com um homem de honra…Não tinha receio de nada, pois nada havia para alimentar o seu descrédito. Ele afirmou com uma certeza inabalável que nada tinha dito de falso ao Markgraf em relação ao seu nome e revelou-lhe a sua verdadeira família. Ele julgava que como nada tinha pedido ao Markgraf, não tinha magoado ninguém e não havia causado problemas, seria simplesmente julgado pela sua conduta.”

No que diz respeito aos conhecimentos médicos de Saint-Germain, Gemmigen-Guttenberg diz:

“A prescrição dele consistia basicamente numa estrita dieta e num chá, a que ele chamava de Chá da Rússia ou Acqua Benedetta (…) Seria uma ingratidão chamá-lo de trapaceiro. Enquanto ele ficou com o Markgraf, nunca pediu nada, não recebeu nada de valor nem nunca se envolveu em algo impróprio. Devido ao estilo de vida muito simples, as suas necessidades eram quase nenhumas. Se ele tivesse dinheiro, ele partilhava-o com os pobres. Não deixou quaisquer dívidas.”

Em 1776, Saint-Germain chega a Leipzig usando outro nome e essas notícias chegam aos ouvidos de Frederico, o Grande que tenta descobrir os propósitos do Conde.  Von Bosch, também ele conde, banqueiro, maçon e com um alto cargo de Estado informará Frederico que Saint-Germain não era um Adepto, apenas um teosofista (na linha de Boehme). Von Bosch deixa de falar com Saint-Germain quando este lhe pede dinheiro emprestado. Jean Overton Fuller interroga-se se o facto de Saint-Germain ter revelado a sua identidade, teria a ver com a queda dos Orlovs na Rússia, pois assim a Prússia poderia ajudá-lo a libertar a Transilvânia, mudando a balança do poder na Europa, no sentido de se generalizar a liberdade de pensamento. Outro conhecido de Frederico dir-lhe-á que Saint-Germain “não é um um maçon, um mago, nem sequer um teosofista.”

Frederico Augusto de Brunswick
(foto wikipedia)


Em 1777, o Conde Lehndorff, camareiro da Rainha da Prússia, escreveu no seu diário que havia passado três dias com Saint-Germain, o “homem mais notável na Europa”:

“Ele segue uma dieta rigorosa, observa grande frugalidade, bebe apenas água nunca vinho e apenas toma uma refeição por dia…Ele prega a virtude, a abstinência e as boas ações e constitui um exemplo a este respeito. Ninguém pode censurá-lo pelo mínimo de impropriedade em qualquer assunto. Ele não parece ser tão rico quanto era antes…

A sua expressão dá uma impressão de extraordinária espiritualidade. O seu discurso é espirituoso e prende a atenção, mas ele não gosta de contraditório.

As pessoas inventam mitos sobre ele e sobre aquilo que ele não diz. Alguns pensam que ele é um judeu português, outros de que tem duzentos anos de idade e que é um príncipe destronado. Alguns acusam-no de fazerem as pessoas acreditar que ele deve ser o terceiro filho do príncipe Rákóczy.

Ele fala como um grande médico. Acima de tudo, ele é um doutor e fala do seu pó precioso, que deve ser bebido como chá. Deixei que ele me enchesse uma xícara. Tinha gosto de anis, e os efeitos foram idênticos aos do anis. Ele discursa constantemente sobre o equilíbrio entre o corpo e a alma. Quando isso é observado, diz ele, a nossa máquina [NT:life-machine no original] não se avaria.”

Outro maçon comentou também em 1777:

“Sabendo que ele havia rejeitado certas pessoas que o consideravam um fazedor de milagres, eu procedi de modo inverso tratando-o como um homem comum, cujo conhecimento de química e física despertou a minha curiosidade.

Ele pareceu-me um homem entre 60 e 70, jovem para a sua idade, rindo com desdém daqueles que lhe creditam uma idade extraordinária. Espera contudo viver por muito tempo, graças ao seu regime alimentar e remédios. Contudo, a sua aparência não parecia prometer uma vida muito mais longa. (…)

Tendo ganho a sua confiança, levei-o a falar de Maçonaria. Sem evidenciar muito zelo ou mesmo particular atenção, ele confessou ser do 4º grau, embora não fosse capaz de se lembrar dos sinais. Ele parecia não saber nada do sistema de Estrita Observância, e por isso, não consegui ir mais além na conversa.
Por tudo isto, posso concluir que ou ele dissimula ou então não é dos nossos. Inclino-me mais para esta hipótese, principalmente porque no que diz respeito a religião e filosofia ele é um puro materialista”.

Outros maçons também catalogaram St. Germain de “puro materialista”, mas inclusive alguns dos seus poemas mostravam que reconhecia um lado espiritual no cosmos.

O embaixador prussiano na Saxónia em 1777 escreveu o seguinte sobre Saint-Germain:

“Ele diz que é o príncipe Ragotzi e para fornecer-me provas de particular confiança acrescenta que tinha dois irmãos, que se rebaixaram para se submeterem ao seu destino infeliz e que a certa altura ele tomou o nome Conde de Saint-Germain, que significa o sagrado entre os irmãos [sanctus germanus=irmão sagrado]. 

(…)
Voltando à questão francesa, existe uma lenda bem conhecida de que Saint-Germain visitou Maria Antonieta quando esta era rainha para lhe avisar da Revolução e da carnificina que aconteceria. Contudo o livro que conta esta história não é da pessoa a quem foi atribuído (uma confidente de Maria Antonieta).

Maria Antonieta (foto wikipedia)

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sábado, 3 de agosto de 2013

Mitos e verdades sobre o Conde de Saint-Germain (4ª parte)

Continuamos com a tradução (adaptada) do texto “O Conde de St. Germain” de David Pratt.

5. Pelo norte da Europa, Itália e Turquia

Em março de 1762 o Barão van Hardenbroek escrevia no seu diário que tinha ouvido que Saint-Germain estava a viver perto de Nijmegen. Era um “grande filósofo”, de “carácter virtuoso” e inclinado a “ajudar a República com as suas manufaturas” e ajudava também com a preparação de cores para uma fábrica de porcelanas em Weesp. Tinha ainda “uma enorme correspondência com países estrangeiros”.

No mesmo ano (1762), Saint-Germain visitará a Rússia para adquirir alguns dos ingredientes para seus os processos de manufaturação.

Em 1763 passa pela Bélgica onde conhece um ministro, o Conde Cobenzl que numa carta ao chanceler austríaco diz o seguinte:

“Há cerca de três meses a pessoa conhecida por Conde de St. Germain passou por aqui e contactou-me. Considero-o o homem mais singular que já conheci na minha vida. Não conheço exatamente o seu berço, mas acredito que seja o filho de união clandestina feita por um membro de uma casa ilustre e poderosa. Dono de grande riqueza, ele vive na maior simplicidade. Ele sabe tudo e é de uma retidão e bondade dignas de admiração. Entre outras provas de sabedoria, ele fez várias experiências à frente dos meus olhos e em breve mandarei a Vossa Excelência algumas amostras. A mais essencial é a transformação de ferro num metal tão belo como o ouro e que é no mínimo tão bom como o produto do trabalho de um ourives.
O tingimento e a preparação de couros que ultrapassavam toda a marroquinaria existente e o mais perfeito curtimento. O tingimento de sedas atingia uma perfeição nunca vista até agora. O tingimento de lãs era semelhante, feito nas cores mais vívidas (…) com os ingredientes mais comuns e a um preço modesto. A produção de cores como as cores de um artista, o ultramarino tão perfeito como se fosse o de lápis e finalmente a remoção dos cheiros dos óleos usados na pintura e a preparação do melhor óleo da Provença a partir de sementes de colza ou de outros óleos de qualidade inferior.”

O Conde Cobenzl ,noutra carta, acrescentará sobre Saint-Germain:

“(…) ele tem uma propriedade na Holanda que está dois terços paga e tem valores, que foram avaliados por quem lhe emprestou dinheiro, em mais de um milhão.(…) É certo que ele é de berço ilustre, mas sendo isso segredo deve guardá-lo pois o contrário não serve os meus interesses. Ele fala da sua riqueza e na verdade deve possuir muito, pois onde quer que ele vá, tem dado maravilhosas ofertas, gasto bastante, nunca pediu nada e nunca deixa dívidas. “

Saint-Germain tinha vindo a refinar os seus processos secretos durante décadas. As informações dadas por Cobenzl indicam que ele pegava em ferro em bruto e fazia algo que causava a sua mudança de escuro para dourado, imergia-o em água (possivelmente com aditivos) e depois de fornecer as suas propriedades à água, ele removia-o e metia lá dentro os materiais a serem tingidos. A água onde a tingimento havia sido feito seria mais tarde usado para fazer tintas. De acordo com um especialista moderno na área do tingimento, a permutação do ferro para dourado poderia ser cloreto férrico ou mais provavelmente ferrocianeto. Usando ingredientes bastante comuns e baratos, Saint-Germain estava a fazer tingimento químico antes da era do tingimento químico.

Jean Overton Fuller [teosofista britânica que também foi autora de uma interessante biografia de H.P. Blavatsky, chamada “Blavatsky and her teachers”] diz que a produção de tecidos baratos com um leque de cores alegres feita por Saint-Germain pode ter antecipado a Revolução Industrial em mais de um século.

“Saint-Germain estava a oferecer o primeiro mercado em massa, e podemos ver através destes detalhes o tipo de revolução que ele poderia ter forjado em França, onde para além de dar um emprego pago aos trabalhadores - deixados à fome graças à ruína dos proprietários das terras – ele teria produzido roupa e outros bens a um preço acessível para as pessoas, reduzindo a distinção de classes e criando novas exportações, ou seja, nova riqueza interna, assim talvez evitando a sangrenta Revolução que se seguiu."

Muito pouco se sabe sobre se as fábricas que Saint-Germain ajudou a montar em vários lugares foram um sucesso duradouro e o alcance do seu impacto económico.

Em 1765 St. Germain estava na Rússia, tendo em 1770 participado numa batalha que opunha os russos aos otomanos. Lutou ao lado dos russos, muito provavelmente ao lado do comandante russo, seu amigo, Alexei Orlov.

Alexei Orlov (foto wikipedia)

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sábado, 20 de julho de 2013

Mitos e verdades sobre o Conde de Saint-Germain (3ª parte)

Continuamos com a tradução (adaptada) do texto “O Conde de St. Germain” de David Pratt.


Gleichen, um proeminente maçon, descreve Saint-Germain como “um homem de altura mediana, muito robusto, que se vestia com uma simplicidade magnífica e que era muito elegante”(…) Acrescenta:
Ele possuía segredos químicos, para a produção de cores, tintas e um metal semelhante ao ouro de rara beleza…Ele mantinha um regime rigoroso, nunca bebendo enquanto comia, purgando-se com laxantes naturais (sene), que preparava ele próprio, e era tudo o que recomendava àqueles que lhe perguntavam o que deveriam fazer para prolongar as suas vidas.”

Várias pessoas relatavam que Saint-Germain parecia ter 40 a 60 anos em 1759. Uma das razões porque as pessoas pensavam que ele era mais velho mas não parecia, era porque, segundo dizia Gleichen em segunda mão, o compositor Jean-Phiilipe Rameau e um parente idoso de um embaixador francês em Veneza, ambos conheceram Saint-Germain em França. Mas também disseram que o tinham conhecido em Veneza em 1710, aparentando 50 anos, enquanto que em 1759 parecia um homem de 60. As pessoas assumiam que a dieta vegetariana de Saint-Germain e a ingestão regular de um chá contendo vagens de sene tinha-lhe permitido viver até uma idade invulgar. Era devido à sua dieta especial que ele nunca era visto a comer em público.

Mme. Du Hausset, uma dama de companhia de Mme. De Pompadour, disse que Saint-Germain “não era forte nem magro”, “vestia-se de forma simples, mas com bom gosto” e “tinha diamantes muito belos nos seus dedos bem como na sua caixa de rapé e no seu relógio”. Saint-Germain alegadamente disse-lhe: “Às vezes divirto-me, não fazendo as pessoas acreditar, mas em deixá-las acreditar que eu vivi nos tempos mais antigos”.

(…) Como muita gente testemunhou, Saint-Germain tinha um processo secreto para remover falhas dos diamantes e melhorar a sua cor e brilho. Numa ocasião o Rei mostrou-lhe um dos seus diamantes que tinha uma falha. Valia 6 mil livres, mas sem a falha valeria mais de 10 mil (cerca de 92 mil euros). Saint-Germain disse que conseguia eliminar a falha, e trouxe o diamante um mês mais tarde, embrulhado em amianto, sem a falha. Tinha o mesmo peso que antes. O joalheiro ofereceu 9600 livres por ele, mas o Rei preferiu guardá-lo como uma curiosidade.

Hoje em dia, a cor e brilho dos diamantes pode ser melhorado através da irradiação de elétrons ou neutrões e diamantes defeituosos podem ser melhorados se mergulhados em poderosos ácidos, isto se as falhas forem acessíveis através de uma rachadura. Não possuímos os detalhes das técnicas usadas por Saint-Germain, ele poderá ter usado ácidos (que eram amplamente usados no tingimento) e /ou outros processos elétricos, químicos ou alquímicos.

4. Missão de Paz

Por volta de 1760 Saint Germain participa num conjunto de manobras diplomáticas que tinham como objetivo fazer a paz com a Inglaterra, anulando a aliança com a Áustria, país governado pelos Habsburgos e cujo domínio sobre a Europa Saint-Germain não apreciava.

Numa carta a Frederico, o Grande, um diplomata da Prússia falava sobre Saint-Germain da seguinte forma:

“Ele é uma espécie de aventureiro, que tem vivido na Alemanha e Inglaterra como Conde de Saint-Germain, que toca violino excelentemente, mas que também trabalha por trás das cortinas, e por isso fica com uma boa imagem…
O Conde deve presentemente desempenhar um grande papel na Corte de Versalhes, participando nas reuniões íntimas do Rei e da Marquesa [de Pompadour]…[E]le parece ter comunicado ao Rei de França algumas descobertas curiosas que ele fez através da química, entre outros segredos de tingimento rápido de cores.”

Willem Bentinck, um membro do parlamento holandês comentava sobre St. Germain:

“A sua conversa agradou-me bastante, por ser extremamente brilhante, variada e cheia de detalhes com respeito a diferentes países onde havia estado, muitas historietas interessantes e eu estava extremamente agradado com o seu julgamento sobre pessoas e lugares do meu conhecimento. Os seus modos eram extremamente polidos e falava com um homem instruído da classe mais alta.
Eu pressionei-o com questões, a que ele respondeu rápida e claramente”.

Willem Bentinck (foto wikipedia)


Na verdade, muitas pessoas comentavam sobre a loquacidade e competência de Saint-Germain como um contador de histórias.

Sobre a imensa idade de Saint-Germain, o Conde Kauderback, um representante do Rei da Polónia em Haia comentou em 1760:

“A verdade é que um membro do Conselho Geral que tem cerca de 70 anos disse-me que viu este extraordinário homem na casa do seu pai quando ele era apenas uma criança, e no entanto, ele mantém os movimentos soltos e ágeis de um homem trintão. As suas pernas estão sempre prontas a dar uma volta, ele tem o seu próprio cabelo negro e que cresce em toda a sua cabeça e mal tem uma ruga na sua cara. Ele nunca come carne, exceto um pouco de carne branca de galinha e limita a sua nutrição a cereais, vegetais e peixe. Ele toma grandes cuidados com o frio.”

O conde Kauderback acrescenta que Saint-Germain alegava ter aprendido “os mais belos segredos da Natureza”, era extremamente rico e tinha-lhe mostrado pedras de valor inestimável.

Um dos grandes opositores de Saint-Germain foi o duque de Choiseul, que chegou a ser ministro dos Negócios estrangeiros francês.

Também em 1760 Choiseul escrevia ao embaixador francês em Haia, D’ Affry que uma carta que Saint-Germain havia escrito a Mme. De Pompadour “era suficiente por si só para demonstrar quão absurda é esta personagem; um aventureiro de primeira ordem e ainda por cima muito estúpido”.

“Você tem ordens minhas para avisá-lo que se me chegar aos ouvidos que ele se intrometeu em política, muito ou pouco, eu obterei uma ordem do Rei que, caso regresse a França fará com ele passe o resto dos seus dias numa masmorra…”

Mais tarde Saint-Germain comentaria:

“Ele (d’Affry] não percebe que eu tenho passado pelo meio de elogio e culpa, medo e esperança e não tenho outro objetivo que não seja o bem da humanidade, fazer o melhor possível pela humanidade. O Rei sabe bem isso, e eu não tenho medo dos senhores D’Affry ou Choiseul.

Mas Saint-Germain acabaria por ser traído e o seu papel como mediador de paz foi abortado. Luís XV recuou perante Choiseul e Saint-Germain foi sacrificado, fugindo para Inglaterra. É lá que recebe uma carta de um amigo holandês, o Conde de la Watu.

“(…) Eu ponho seja o que for em jogo e farei todos os esforços imaginários para prestar a minha homenagem a você pessoalmente, pois não me passa despercebido o facto, Senhor,  de seres o maior da Terra, e fico mortificado por gente malvada se ter atrevido a vos causar problemas. Ouvi que dinheiro e intrigas foram empregues contras as vossos esforços de paz.”

Mas as autoridades inglesas também não querem Saint-Germain no seu país e ele acaba por voltar a terras holandesas.


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sábado, 13 de julho de 2013

Mitos e verdades sobre o Conde de Saint-Germain (2ª parte)

Continuamos com a tradução (adaptada) do texto “O Conde de St. Germain” de David Pratt.

2. Em Inglaterra

“O primeiro traço histórico do Conde de Saint-Germain parece ser uma carta escrita a 22 de Novembro de 1735 em Haia por alguém que assina ‘P.M. de Saint-Germain’.(…) Um francês com o nome de Morin, então embaixador em Haia, disse que tinha lá conhecido Saint-Germain em 1735, e que tornou a encontrá-lo em França antes de 1760, tendo ficando surpreso pelo facto de Saint-Germain não parecer ter envelhecido mais do que ano.

Saint-Germain aparece depois em 1745, em Inglaterra, onde foi preso por suspeita de ser um espião. “ Foi neste ano que um jovem político Whig, chamado Horace Walpole escreveu uma carta a um compatriota:
“Há dias prenderam um estranho homem, que dá pelo nome de Conde de St. Germain. Ele está cá há dois anos, e não nos diz quem é nem de onde vem, mas professa duas coisas maravilhosas, que o nome pelo qual é conhecido não é o verdadeiro e que nunca teve um relacionamento com qualquer mulher – e nem com um sucedâneo [substituta]. Ele canta, compõe, toca maravilhosamente violino, é louco e não muito sensato. 
Dizem que é italiano, espanhol, polaco, alguém que casou com uma grande fortuna no México e fugiu com as suas jóias para Constantinopla. Dizem ainda que é um padre, um violinista, um grande nobre. O Príncipe de Gales tem manifestado uma curiosidade insaciável sobre ele, mas em vão.”

Num relatório datado de 21 de dezembro de 1745, um diplomata francês em Londres declarava que Saint-Germain “conhece todas as pessoas em altas posições, incluindo o Príncipe de Gales. Fala diversas línguas, francês, inglês, alemão, italiano, etc… é muito bom músico e toca vários instrumentos. Diz-se ser siciliano e de grande riqueza. O que tem levantado suspeitas sobre ele é o facto de deixar boa imagem aqui, recebendo grandes somas de dinheiro e liquidando todas as contas com tal rapidez que nunca precisa de ser recordado do facto. Ninguém imagina que um homem que era simplesmente um senhor, possa dispor de tão vastos recursos, a menos que ele trabalhe como espião. Ele foi deixado no seu apartamento sob guarda de um “State Messenger”, mas não se encontraram documentos na sua residência ou nele próprio que forneçam o mínimo de provas contra. Foi interrogado pelo Secretário de Estado [o duque de Newcastle], a quem ele não fornece uma explicação sobre si próprio que seja satisfatória, persistindo na recusa em declarar o seu verdadeiro nome, título ou ocupação, a não ser ao próprio Rei, pois como ele diz, o seu comportamento não tem sido de nenhum modo contrário às leis deste país, e é contra o direito comum privar a um estrangeiro honesto da sua liberdade sem formular uma acusação.
Pouco tempo depois foi libertado livre de acusações.”
(…)

O Duque de Newcastle (foto wikipedia)


Após 1745, nos doze anos seguintes o paradeiro preciso de Saint-Germain e as suas atividades são de natureza incerta. As suas próprias declarações indicam que ele estava provavelmente a desenvolver técnicas manufatureiras na Alemanha, principalmente na área do tingimento. Em 1755 ele esteve envolvido na promoção de uma máquina inventada por um francês para assoreamento e aumento da profundidade de portos, estuários e canais aquáticos, tendo feito uma viagem a Haia no fim de 1755 ou inícios de 1756.

3. Em França

(Imagem de hyperstory.com)


(…)
Saint-Germain entra em França durante o verão ou nos inícios do outono de 1757. Nessa altura França era governada por Luís XV.(…) Saint-Germain tinha ligações a pessoas próximas da Coroa francesa. Ao irmão da Mme de Pompadour (grande amiga do rei e sua antiga amante) ofereceu as suas técnicas de tinturaria e outras mais que providenciassem emprego, aumentassem a riqueza nacional e aliviassem a cobrança de impostos aos pobres.

Em Maio de 1758 tinha sido concedido a Saint-Germain o uso do Castelo de Chambord , a residência mais magnífica do Rei depois de Versalhes. Também foi-lhe concedido o uso de três cozinhas no rés-do-chão (para o processo de tingimento) e alguns dos seus anexos (para alojar a mão-de-obra). O trabalho não se havia iniciado pois tudo teria de vir da Alemanha. Ele conheceu o Rei e Mme. De Pompadour em Versalhes, tornou-se um convidado frequente nas ceias de Mme. De Pompadour e passou muitas noites com o Rei e a família real.

Luís XV (foto wikipedia)

(…) Naquela altura, Luís XV parecia ser uma das poucas pessoas – a outra pode ter sido o Duque de Newcastle – a quem Saint-Germain tinha revelado o seu segredo. Luís não recebia homens abaixo de uma determinada posição na nobreza, e não se teria permitido a sofrer a imposição de um charlatão. Vale a pena referir que o predecessor de Luís XV e bisavô Luís XIV (o “rei Sol”) tinha sido um bom amigo do pai de Saint-Germain, o príncipe Francisco II Rákóczy.

Mme. de Pompadour cerca de 1750 (foto wikipedia)

A hostilidade do Duque de Choisel para com Saint-Germain foi revelada durante uma refeição na sua casa. O duque perguntou à sua esposa porque ela não estava bebendo, e ela respondeu que estava seguindo o regime recomendado por Saint-Germain, e com grande sucesso. O duque proibiu-a imediatamente de “seguir as loucuras de um homem tão equivocado” e continuou alegando que sabia a verdade sobre Saint-Germain: “Ele é filho de um judeu português, que se impõe pela credulidade da cidade e da Corte.” Choiseul estava simplesmente a repetir boatos, embora seja provavelmente verdade que Saint-Germain  tenha passado algum tempo em Portugal, pois falava  a língua fluentemente.

O Duque de Choiseul (foto wikipedia)

Nas suas memórias, Mme. De Genlis (então conhecida como Stéphanie-Felicité du Crest) relata que durante o verão de 1759, quando tinha 13 anos, ela via Saint-Germain virtualmente todos os dias e às vezes, enquanto cantava, ele acompanhava-a de ouvido com o cravo. Ela descreve Saint-Germain como um bom médico e um grande químico. Ela também diz que ele pintava com óleos, e alegava que pintava quadros em que as pessoas usavam joalharia, que devido a um pigmento especial que ele havia descoberto, brilhava e refletia luz como se fosse feito de pedras verdadeiras. Saint-Germain era certamente um conhecedor de pinturas, mas se ele próprio fosse pintor, teríamos com certeza ouvido isso de outros escritores. Ela também escreve:

“A conversa de Saint-Germain era instrutiva e divertida, ele tinha viajado bastante e conhecia história moderna com extraordinário detalhe, que o fazia falar de povos antigos como se ele tivesse vivido com eles… Os seus princípios eram dos mais elevados, ele cumpria com os deveres externos da religião com precisão, era muito caridoso e toda a gente concordava que a sua moralidade era a mais pura.”
Contudo ela persistia em chamá-lo de charlatão. (…)

Não sabemos se Saint-Germain possuía poderes paranormais ou não, e não parecem haver relatos de testemunhas confiáveis de demonstrações disso, havendo no entanto relatos confiáveis de outros ocultistas importantes (como por exemplo Cagliostro e H.P. Blavatsky).


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sábado, 6 de julho de 2013

Mitos e verdades sobre o Conde de Saint-Germain (1ª parte)

O Conde de Saint-Germain (por Nicholas
Thomas, 1783)

O post desta semana é o primeiro de uma série de dez que terão como base o trabalho de David Pratt sobre o Conde de St. Germain publicado no “Exploring Theosophy”. Não será feita uma tradução na íntegra, pois o texto é demasiado extenso e contém detalhes que não são relevantes, para o que se quer transmitir - por um lado confirmar que o Conde de St. Germain foi um Adepto que tinha uma missão importante, num período conturbado da história europeia, e por outro lado desmistificar todo o folclore alimentado pelo lado mais deprimente da indústria new-age, que apresenta o Conde de St. Germain como mais um “santinho” para pôr no altar, o clássico mimetismo do catolicismo, onde os santos são substituídos por Mestres Ascensos cada um com o seu pelouro.

Sugere-se a consulta do texto original para as devidas referências bibliográficas (que são inúmeras) e para outros detalhes históricos que foram omitidos como acima se referiu. Depois da publicação da última parte, o texto no seu conjunto será colocado no Scribd.

Segue-se pois a tradução do texto (adaptado).

1. Introdução

O Conde de St.Germain foi uma figura enigmática que atingiu grande proeminência na alta sociedade da Europa durante meados do século XVIII. Era próximo de muitos reis, príncipes e figuras de estado e beneficiava da sua confiança e admiração. Ele era estupendamente rico, possuindo uma coleção de jóias de raro tamanho e beleza, que frequentemente dava como prendas. Os conhecidos louvavam os seus modos charmosos e gentis e enorme erudição. Ele foi músico, compositor e um virtuoso no violino. Também foi um químico brilhante, com um conhecimento ímpar de corantes e diamantes. Frederico, o Grande chamava-o de homem cujo enigma nunca fora desvendado. O seu nascimento e antecedentes são obscuros, mas no fim da sua vida ele revelou que era filho do Príncipe Rákóczy da Transilvânia.

As histórias sobre Saint-Germain embelezam muitas memórias do período, mas a sua fiabilidade varia. Muitas vezes contêm adornos, exageros e evidentes invenções, e várias dessas histórias não foram escritas pelos seus alegados autores. Existiam lendas de que ele poderia fundir diamantes pequenos em maiores, fazer ouro, de que possuía o segredo da eterna juventude e de que teria centenas ou mesmo milhares de anos de idade. Os seus contemporâneos às vezes referiam-se a ele (frequentemente de modo irónico) como o “Homem Maravilha”. Voltaire zombava, chamando-o “um homem que nunca morre e que sabe tudo”. Embora Saint-Germain tenha muitas vezes sido rotulado de charlatão, aventureiro, vigarista e espião, não existe nenhuma evidência convincente que suporte estas alegações.

O nome de Saint-Germain é frequentemente ligado à alquimia, ocultismo e sociedades secretas. Helena P. Blavatsky escreve: “O Conde de Saint Germain foi indubitavelmente o maior Adepto oriental que a Europa já conheceu durante os últimos séculos. Porém, a Europa não o reconheceu.” [Glossário Teosófico, Ed. Ground, p.590]. De acordo com Cooper-Oakley “ele trouxe o seu enorme conhecimento para ajudar o Ocidente, para afastar um pouco as nuvens tormentosas que se adensavam rapidamente à volta de algumas nações. Mas infelizmente as suas palavras de aviso caíram em orelhas moucas e os seus conselhos foram todos ignorados.”


Continua na próxima semana…