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sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

A Águia e a Cotovia


Era uma vez uma cotovia que era conhecida pelo seu lindo canto. A sua melodia era considerada por todos aqueles que a ouviam como o som mais doce à face da Terra. Desde a alvorada ao anoitecer ela cantava e à medida que o fazia, começava a crescer nela um desejo. Esse desejo era o de cantar para os deuses.
Ela apercebeu-se que se conseguisse voar alto o suficiente, os deuses a ouviriam. Então a cotovia lançou-se no ar e voou o mais alto que conseguiu, mas cantando já com as suas asas cansadas, ela sabia que os deuses não a conseguiriam ouvir. Mais determinada do que nunca, ela decidiu que subiria à montanha mais alta e voaria a partir do pico. Mas nem assim ela conseguiria chegar alto o suficiente para ser ouvida nos céus.

Um dia ela viu uma águia planando a grande altura no céu, bem mais alto do que ela alguma vez voara. A cotovia sabia com uma certeza ilimitada que se ela conseguisse voar tão alto quanto a águia, os deuses ouviriam a sua bela melodia. Então ela ficou observando a águia e quando esta poisou, aproximou-se da enorme ave. A pequena mas corajosa cotovia explicou o seu dilema à grande águia e perguntou-lhe se ela a levaria às costas, para que juntas pudessem divertir os deuses.
A águia tinha conhecimento dos deuses, pois conseguia voar nos seus domínios, mas envergonhada pela sua voz rouca, nunca tinha tido a coragem de contactá-los. Imediatamente ela concordou em transportar a pequena cotovia.

Timidamente ela subiu para as costas da águia que com um esticar e bater das suas poderosas asas se pôs no ar. Cada vez mais alto elas subiam. A cotovia quase tinha medo de olhar para baixo  e contudo continuavam a subir. A cotovia nunca havia estado tão alto. Ela conseguia ver tudo e mais alguma coisa. E então, de repente, elas haviam chegado lá. A pequena cotovia sabia que agora era a vez dela, a águia já havia feito a sua parte. Com firmeza pôs-se de pé nas costas da águia e, enchendo os seus pulmões de ar, começou a cantar. Os céus encheram-se da sua gloriosa melodia. Os deuses ficaram espantados com a força da águia e encantados com a beleza da melodia da cotovia. A águia perdeu a vergonha e a cotovia encheu-se de felicidade. Juntas, em equipa, tinham levado música aos deuses.

Esta fábula consta do início de um livro de 1999 da astróloga australiana Bernadette Brady, intitulado “Predictive Astrology – The Eagle and the Lark” (que poderia ser traduzida para português como “Astrologia Preditiva – A Águia e a Cotovia”). A obra aborda um conjunto de técnicas conhecidas de previsão astrológica, principalmente os trânsitos e as progressões.
Esta fábula é muito ilustrativa da prática da astrologia (e não só, pois a mesma poderá ser transposta para outros domínios), pois até o estudioso da Velha Arte atingir a sua zona de conforto no domínio da mesma, a dúvida sobre o papel da intuição (representada nesta fábula pela cotovia) na leitura dos mapas é uma dúvida persistente.  O que é na verdade essa intuição e se ela é estimulada por algum factor externo são outras questões.

Brady defende que a águia (que poderá ser vista como a razão, ou no caso da astrologia, o conjunto de técnicas astrológicas que são dominadas) tem de ser bem trabalhada, para que a grande ave possa mesmo voar à altitude necessária. Isso obriga a muita paciência e persistência, pois o número de técnicas é enorme e a sua validação e verificação leva imenso tempo. O número de variáveis numa carta é assinalável e é humanamente impossível levar em conta todos os factores, apesar de todo o auxílio que os computadores hoje em dia fornecem. Brady diz que é importante perceber que as origens da astrologia estão no mundo da ciência, e releva a importância da matemática e da astronomia na Arte. Para Brady, sem esforço, as portas da astrologia nunca se abrirão verdadeiramente, e fiar-se apenas numa intuição apurada é insuficiente.
Dominada a parte técnica, o uso e desenvolvimento da intuição permitirá ao astrólogo ser perspicaz e certeiro. Desprovido de intuição, o astrólogo pouco mais será que um qualquer software de astrologia que produz análises “cegas”.

Por intuição não se deve entender a intercessão de anjos, vozes interiores e espíritos familiares. Robert Zoller, que deu origem a um dos primeiros cursos de astrologia medieval pela internet, classifica este tipo de coisas como auto-ilusão.

Há quem diga (se calhar a própria HPB, mas como não encontro a referência, prefiro ser mais cauteloso) que a leitura da Doutrina Secreta obriga ao funcionamento dos dois hemisférios, o esquerdo mais ligado à razão e o direito que é associado à intuição. Portanto como vemos,  a fábula da águia e da cotovia tem uma aplicação bem mais generalizada.

sábado, 11 de fevereiro de 2012

Chico Xavier e o Nosso Lar


Francisco Cândido Xavier, mais conhecido por Chico Xavier, foi o mais famoso médium brasileiro, tendo nascido numa cidade do Estado de Minas Gerais em 1910 e falecido em 2002, num dia em que os brasileiros festejavam a conquista do campeonato mundial de futebol. Estavam pois felizes e em festa, e assim se cumpria o desejo de Chico Xavier que tinha pedido a Deus para que o levasse deste plano num dia de alegria para o seu país Natal.

Como se sabe, as relações entre a Teosofia e Espiritismo nem sempre foram as melhores. Embora, ambos na 2ª metade do século XIX tenham enfrentando a oposição do “establishment”, nomeadamente das instituições religiosas, as explicações para os fenómenos mediúnicos são divergentes. Blavatsky no início da sua fase de propagação pública da Teosofia tentou inicialmente atrair alguma atenção, criando uma Sociedade Espírita no Cairo, em 1871, aparentemente com o objectivo de depois de conseguir alguma visibilidade, dar a sua explicação para os fenómenos. O falhanço rotundo dessa Sociedade não a impediu de mais tarde, explicar que muitos dos espíritos não eram mais que invólucros vazios, ou seja, o mero corpo astral desassociado dos princípios superiores, já em processo de decomposição e que muitas vezes era animado por elementais ou então pelo princípio vital dos médiums. Num outro post, poderemos abordar com mais detalhe e precisão este assunto, enquadrando também o tipo de mediunidade que era praticado naquele tempo e o que existe agora. Alguns dos mais ferozes inimigos (que foram inúmeros, como se sabe) de Blavatsky eram indivíduos ligados à corrente espírita. Para quem quiser saber mais sobre as diferenças entre a Teosofia e o Espiritismo relativamente à interpretação dos fenómenos mediúnicos, pode clicar aqui

O motivo deste post é o de fazer uma menção a um filme lançado no Brasil durante 2010, baseado numa das obras psicografadas por Chico Xavier,  chamada “Nosso Lar”. Este livro foi escrito em 1944, tendo sido supostamente ditado por um “espírito” chamado André Luiz. O filme que terá custado cerca de 9 milhões de euros, foi uma das produções mais caras de sempre do cinema brasileiro, contando com uma banda sonora da responsabilidade de Phillip Glass e ainda com efeitos especiais criados em estúdios norte-americanos. Alguns dos actores são nossos conhecidos, tendo já participado em novelas brasileiras transmitidas nos canais portugueses. A crítica especializada não foi meiga com o filme, mas quem se interessa por estes temas tem sempre alguma curiosidade em visionar a película. Fi-lo recentemente  e efectivamente tem algumas ideias interessantes, como seja a representação das dimensões mais baixas (e desagradáveis)  do plano astral. Quem conhece alguns dos ensinamentos teosóficos sobre os estados post-mortem, poderá associar o pano de fundo do filme ao kâma-loka, descrito no Glossário Teosófico (Editora Ground), como “o plano semimaterial, subjectivo e invisível para nós onde as personalidades desencarnadas, as formas astrais (...), permanecem até se desvanecerem totalmente, graças ao completo esgotamento dos efeitos dos impulsos mentais, que criaram estes eidolons [fantasma humano, a forma astral] das paixões e desejos humanos e animais.(...) É o limbo ou purgatório dos católicos romanos e o Summerland dos espíritas americanos. Kâma-loka é a região ou mansão do desejo (...) onde os restos astrais dos defuntos corrompem-se e se decompõem. Nesta região, as almas dos mortos que não são puras vivem até que os seus kâma-rûpas (formas de desejo) são abandonados por uma segunda morte e, ao se desintegrarem, verifica-se a separação dos princípios superiores (...). O kâma-loka é a primeira condição pela qual passa a entidade humana, depois da morte (...).
O Summerland acima referido popularizou-se na 2ª metade do século XIX, pelas mãos de Andrew Jackson Davis, clarividente norte-americano que descrevia a “Terra de Verão” como tendo cidades, formosos edifícios, museus, bibliotecas e onde os espíritos tinham uma vida aparentemente semelhante à da Terra, embora incomparavelmente mais feliz. É fácil estabelecer aqui um paralelo com as descrições de Chico Xavier.

Entretanto, o filme já chegou aos EUA, com o nome de "Astral City - A Spiritual Journey".  A Portugal, que eu saiba não, mas no mínimo parece-me um boa oportunidade de negócio, pois é natural que muito público português sinta curiosidade em visionar esta película.
Se bem que a percepção dos teosofistas sobre este processo tenha diferenças substanciais comparativamente aos espíritas, filmes que façam questionar sobre o sentido da vida (e da morte) são sempre bem-vindos. Quanto a Chico Xavier, apesar de eu não ser um leitor da sua extensa obra, há que referir que foi uma pessoa extremamente solidária e humilde, pronta a ajudar o próximo e a reduzir o sofrimento da espécie humana, não poupando em palavras de esperança e conforto. Sem dúvida, neste aspecto Chico é um exemplo a ser seguido. Divulgou extensamente os princípios do espiritismo, apoiado segundo dizia ele, pelos seus guias espirituais.
Aliás Chico Xavier teve direito também a ver a sua vida retratada em filme, por sinal cinematograficamente mais bem conseguido que “Nosso Lar”. Esta película foi também lançada em 2010.
Abaixo ficam os trailers de ambas as obras.


NOSSO LAR



CHICO XAVIER


Para o futuro, fica a promessa de outros posts sobre filmes que abordam temáticas ligadas aos pontos de foco do Lua em Escorpião.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Paralisia do Sono ou Catalepsia Projectiva?

Pessoalmente, e desde muito jovem, aconteceram-me diversas experiências de paralisia do sono. Houve tempos em que acontecia quase todas as noites. Chegava a ter medo de dormir. Havia períodos em que isso sucedia com enorme frequência, e outros em que se tornava mais raro o fenómeno.
Na verdade cresci com isso, o que me incomodava muito.
Com o tempo fui procurando respostas e hipóteses explicativas para o problema. O que antes denominava de pesadelos assustadores começou a ser entendido a partir de outra perspectiva.
Quem nunca vivenciou uma experiência do género, não tem ideia do quanto pode ser assustadora.
Como se não bastasse a incapacidade de se mover, acrescenta-se um verdadeiro guião de um filme de terror. A sensação de que se encontram presenças estranhas no quarto, vozes, gritos ou gargalhadas sarcásticas, a visão de diabos e seres desconhecidos, peso sobre o peito e a certeza de que estamos realmente perdidos e de que não se pode pedir socorro, porque a voz não sai. Algumas situações são mais assustadoras do que outras, mas, em todas elas, a aflição é real e o medo está bem presente.
A paralisia do sono pode acontecer a qualquer individuo, e é uma experiência frequentemente relatada por pessoas comuns, e que não sofrem de distúrbios patológicos do sono. Pode ocorrer ao adormecer, e ao acordar, num período intermediário entre o sono e a vigília. Dura o tempo suficiente para que seja aterrador, uma vez que poucos minutos, ou simples segundos, podem durar uma eternidade de tormento.
De acordo com os especialistas, a verdadeira causa é a denominada atonia REM, que acontece quando o cérebro paralisa os músculos, a fim de evitar movimentos durante os sonhos. É uma forma de proteger o sonhador enquanto dorme.
O distúrbio acontece quando o cérebro paralisa os músculos antes no início do sono, mesmo que ainda não estejamos completamente adormecidos. Por outro lado, também surge ao acordar de um estado REM, visto que o cérebro se comporta como se ainda estivéssemos a dormir.
Então, nestas situações, vivenciamos alucinações derivadas dos próprios sonhos, que agora se confundem com a realidade, enquanto a pessoa sofre a paralisia.
A melhor forma de sair da situação é ficar calmo (o que é de facto extremamente difícil) e tentar mexer apenas um dedo, ou respirar profundamente.
Para a ciência, todas as visões, ruídos e estranhas vivências do desgraçado sofredor, são pura e simplesmente ilusões criadas pelo cérebro.
É evidente que as nossas crenças e experiências vividas, bem como o estado emocional de uma pessoa, influenciam os nossos sonhos e as ilusões que acontecem neste distúrbio.
No entanto, não gostaria de colocar de parte a possibilidade de estarmos perante outra realidade, a catalepsia projectiva, tal como defendem os projeciologistas. Ou seja, a possibilidade de estar perante um dos sintomas da saída da consciência do corpo físico.
Se bem que não se possa negar as influências das ilusões oníricas, parece-me viável que se olhe mais além.
Poderia contentar-me apenas com a explicação científica. Mas alguns indícios fizeram com que me inclinasse a analisar esta última possibilidade.
Parece-me importante considerar os factos, com algum discernimento, sem se deixar enredar em aparentes fantasias. Mas também não se deve colocar de lado hipóteses alternativas e, para isso, é oportuno manter o espírito aberto.
Um dos episódios que vivenciei, em Setembro de 1998, fez com olhasse para a catalepsia projectiva de forma bem mais atenta.
Tinha estado no curso de fim-de-semana, em que se debateram vários temas sobre espiritualidade.
Na altura travei conhecimento muito superficial com uma senhora, ainda jovem, que ali se encontrava. Praticamente mal falei com ela.
Nessa noite porém tive uma paralisia do sono muito aterrorizante. Fiquei em pânico e pedi ajuda mentalmente. Quem tem fé, acredite quem está a ler este artigo, começa logo a rezar…
Daí a um mês houve outro encontro de fim se semana, e fiquei a saber que a senhora em questão tinha algo a dizer-me.
Sem saber absolutamente nada do que se passara, contou-me que, precisamente durante a noite dessa minha paralisia, viu-me a flutuar e a pedir ajuda porque estava muito aflita.
Bom, talvez fosse apenas uma coincidência muito estranha. Ou seria telepatia? Mas o facto impressionou-me muito e iniciei as minhas pesquisas sobre a catalepsia projectiva.
Tinha praticamente todos os sintomas que eu nem sequer sabia serem de uma possível projecção. Na verdade, foi com uma enorme surpresa que descobri o quanto me encaixava nas explicações que ia descobrindo.
A paralisia do sono praticamente desapareceu, nos últimos anos. Agora, a sensação imediata é de estar a sair do corpo e de começar a flutuar. Outras vezes, tomo consciência que estou a deslocar-me a alta velocidade, atravessando o vento, e basta pensar em voltar para que seja, naturalmente, aspirada, para dentro do corpo físico. São mesmo estas as sensações que tenho, de “descolar” e “aterrar” no corpo, sem passar pela catalepsia propriamente dita. É bem mais rápido, quando acontece
Cuidadosamente, tento separar as vivências subjectivas de algum facto mais pontual, que possa ser indício de alguma objectividade, onde possa apoiar-me. É evidente que isso não implica que as experiências, ainda que impossíveis de provar, não sejam valiosas e transformadoras.
Nunca procurei projectar-me, nem pratico qualquer tipo de treinos. Acontece de forma espontânea, e nunca forço nada. Não me considero uma pessoa experiente no assunto, porque na verdade, não me dediquei a esse objectivo. Apenas quero compreender-me melhor. Continuo a deixar que tudo se passe no ritmo que tiver de acontecer.
Apresentei aqui diversas formas de considerar o fenómeno, como sendo real ou alucinatório (ou até uma mistura de ambas as possibilidades, dependendo da lucidez do interveniente). Parece-me importante que as pessoas tenham acesso a diferentes hipóteses de explicação, para decidirem em conformidade com as suas próprias experiências. Uma investigação constante é necessária e, actualmente, existem pesquisadores dedicados que estudam a projecção de consciência, pois o conhecimento amplia a nossa visão, e reflecte-se nas nossas opções de entendimento da Vida.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Projecção de Consciência

Projecção de consciência, viagem astral, desdobramento, experiência fora do corpo são algumas das designações utilizadas para definir a experiência pessoal de se sentir, conscientemente, fora do corpo físico.
O veículo imaterial através do qual a pessoa se manifesta numa outra dimensão é denominado de psicossoma, corpo emocional, ou corpo astral. Este, por sua vez, encontra-se ligado, energeticamente, ao corpo físico (soma) através do chamado cordão de prata, uma espécie de feixe luminoso que só se rompe no momento da morte.
Relatos e descrições deste tipo de experiências sempre existiram em diversas épocas, e culturas, ao longo dos séculos.
Entre os sintomas mais comuns, de uma projecção, encontramos:

Catalepsia projectiva – Sensação de não conseguir mexer-se. A pessoa fica paralisada, não consegue abrir os olhos, nem gritar.

Deslocamento energético – sensação de cair, ou de escorregar.

Ballonnement – Sensação de flutuar, de se dilatar como um balão.
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Ruídos Intracranianos – Zumbidos, barulhos intensos dentro da cabeça

Estado Vibracional – sensação de vibrar. A pessoa sente que que o corpo é sacudido intensamente.

O estado de lucidez de um projector é variável. A pessoa pode projectar-se, sem que disso tenha consciência, durante o sono, o que é mais frequente. Segundo a Projeciologia, todos nós somos projectores inconscientes enquanto dormimos.
O sonho lúcido é um estado intermediário, uma projecção em que o individuo não tem uma consciência plena. É como se a pessoa sonhasse acordada fora do corpo, sendo difícil libertar-se das alucinações oníricas.
A projecção lúcida é menos comum, e ocorre quando o indivíduo permanece totalmente consciente durante a experiência.
O campo da consciência não é simples de ser estudado. É mais fácil entender o que se passa no cérebro, como objecto de análise. A Projeciologia representa um desafio ao velho paradigma materialista e abre uma porta para um vasto campo de possibilidades. Mesmo que se possam reunir indícios e evidências, torna-se complicado submeter estes dados a provas e medidas objectivas, que rebatam a explicação apenas neurofisiológica do processo. Não obstante as dificuldades, as vivências pessoais não deixam de ser importantes pelo seu carácter transformador e exploratório da consciência humana.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Além do cérebro

Na noite de 3 de Janeiro do presente ano, tive oportunidade de ver um programa no canal Odisseia sobre a morte. Inicialmente debateu-se a questão do momento em que se considerava que o ser humano, em coma, estaria realmente morto, o que actualmente tem como parâmetro a morte cerebral de um paciente.
O programa avançou, posteriormente, para questões mais complexas, tendo como pano de fundo os relatos de doentes que, em cirurgias, ou em contextos de extrema gravidade, alegavam ter visionado o seu próprio corpo físico, de uma perspectiva externa, bem como haviam experienciado realidades de outra dimensão dita espiritual.
De acordo com a ciência actual, trata-se de uma reacção cerebral que produziria exactamente as tais vivências extra corpóreas. Segundo esta mesma visão, tudo se passa apenas no cérebro.
Experiências de estimulação do giro angular direito do cérebro demonstraram a capacidade de desencadear a percepção de se encontrar fora do corpo.
A privação de oxigénio, quando o individuo se encontra próximo da morte, é uma outra explicação para as ilusões do túnel com uma luz brilhante ao fundo, nos momentos que precedem o fim. Isso acontece devido ao facto de a visão central depender das células do córtex visual, que são em maior número do que as células responsáveis pela visão periférica. Daí o brilho intenso na região central, que se traduz na imagem do túnel.
Já os espiritualistas estão convencidos de que se trata de uma vivência espiritual real, o que demonstra que a consciência sobrevive além do corpo físico.
Se bem que não exista um consenso entre a ciência (para a qual a alucinação é a explicação mais evidente) e todos aqueles que acreditam na veracidade da experiência, em ambos os campos reconhece-se a existência do fenómeno.
Os cientistas, actualmente, podem perceber como o cérebro reage a este tipo de experiências mas daí não se poderá concluir que serão apenas meras alucinações cerebrais. Para os espiritualistas, o envolvimento do cérebro no processo não se traduz numa negação da possibilidade da experiência ser considerada real.
Num dos casos apresentados, ao longo do programa, um senhor já idoso descreveu a sua própria cirurgia, e certos procedimentos precisos do cirurgião que não seriam possíveis de visionar a partir da perspectiva em que se encontrava fisicamente. Além de ter uma protecção sobre ambos os olhos, que lhe vendava a vista, a zona da cabeça estava isolada do campo cirúrgico por uma espécie de cortina, o que impossibilitava, de todo, que pudesse ter visto o que quer que fosse a partir de uma visão meramente física. Como os pormenores eram muito exactos, não havia possibilidade de explicar o que acontecera a partir de uma alucinação cerebral. Um dos médicos entrevistados, questionado sobre uma explicação para o fenómeno, respondeu simplesmente “não sei”, pois só assim, segundo afirmou, poderíamos realmente aprender mais e, talvez um dia, encontrar novas respostas.
Para o individuo que passou pela experiência a vivência foi de tal modo intensa que o convenceu, totalmente, da sua veracidade.
Muitos relatos do género são encontrados nas chamadas experiências de quase morte (EQM) em que os indivíduos sofreram algum tipo de acidente grave, ou passaram por um trauma físico muito intenso. Nestas circunstâncias, é comum a pessoa visualizar o seu próprio corpo físico, tendo a consciência de estar fora dele, numa outra dimensão extra-física. Além disso, é usual o encontro com uma luz de amor difícil de ser explicada, bem como o contacto com seres de outra dimensão, e com a presença de familiares já falecidos.
Considerar a possibilidade de sobrevivência após a morte é, regra geral, uma conclusão real para quem voltou à vida, após uma EQM.
No entanto, os fenómenos das viagens fora do corpo não estão apenas relacionados com casos de pessoas que passam por tais extremas circunstâncias.
A projeciologia é um campo de estudos da Conscienciologia que se debruça sobre a possibilidade de projectarmos a nossa consciência para fora do corpo físico. Mas disso falaremos num próximo post muito em breve.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Uma profecia falhada?


Segundo o teosofista Walter Carrithers, Jr (1924-1994), fervoroso defensor da Velha Senhora, que escrevia sob o pseudónimo Adlai E. Waterman, Helena Blavatsky fez três profecias de regressos, duas delas claramente para o século XX. Uma delas é bem conhecida, as outras nem tanto. Comecemos por estas últimas, mas assinale-se desde já, que,  segundo Carrithers, elas estão todas relacionadas.

Profecia nº1 – o regresso de HPB no século XX para retomar o trabalho interrompido pela sua morte a 8 de Maio de 1891. O registo desta profecia encontra-se numa carta privada dirigida por HPB ao teosofista norte-americano e co-fundador da Sociedade Teosófica (ST), William Quan Judge. Essa carta consta da publicação “The Irish Theosophist” (Junho 1895) e encontra-se também  numa versão de 1946 de “Letters that Have Helped Me”, de WQ Judge. As palavras de HPB levaram Judge a concluir que ela regressaria em breve, pois Helena expressava na carta preocupação caso Judge não aceitasse dedicar-se de corpo e alma à Causa- tal como ela e Olcott tinham feito – ou seja, continuar o trabalho depois de eles morrerem (lembre-se que Judge era 20 anos mais novo que Helena). Acrescentava ela na carta que, se Judge assim não fizesse, a Teosofia poderia soçobrar, até porque Helena renascendo num novo corpo, ficaria impossibilitada de ajudar e de dirigir o curso da Sociedade. 

Profecia nº2 – o regresso de Damodar Mavalankar. Damodar foi o único chela com sucesso completo no período em que os mestres comunicavam activamente não só com Sinnett e Hume, mas também com outros teosofistas. Nesse período muitos pediram para serem chelas, ou seja, discípulos dos Mestres. Para isso experimentavam uma série de provas, normalmente de carácter e quase todos falharam. Com alguma renitência, até alguns ocidentais foram aceites pelos Mahatmas como chelas leigos, mas acabaram também por não ter sucesso. Ora, Damodar a certa altura é instigado a ir aos Himalaias para se encontrar pessoalmente com os Mestres. Isto aconteceu em 1885. Foi e nunca mais voltou.  Em 1889, também numa carta privada, HPB escrevia sobre Damodar, considerando-o o único verdadeiro e devotado amigo que tinha tido na Índia. Mais à frente acrescentou que um dia ele haveria de voltar para dizer umas verdades a alguns desmancha-prazeres intrometidos. Mas não especificou quando, nem como. E Damodar poderá até ter voltado, mas sem ser identificado ou sobre forma sigilosa. Quem sabe?

Profecia nº3 – A mais conhecida.  Em “A Chave para a Teosofia” HPB escreve: “Durante o último quarto de cada século [os Mestres], fazem uma tentativa de ajudar o progresso espiritual da humanidade de uma forma específica e definida. Perto do final de cada século você perceberá que ocorreu, uma efusão e revolução espirituais – podendo chamá-la misticismo se preferir. “ (p.261, da edição em português). A última questão do livro fala no papel da ST neste contexto e aí residirá a resposta ao título deste post. Responde HPB: ”Se a presente tentativa [a ST] for melhor sucedida que as suas predecessoras, então ela estará existindo como um corpo organizado, vivo e saudável quando chegar o momento do esforço para o século XX. A condição geral das mentes e corações dos homens terá sido aperfeiçoada e purificada pela difusão dos seus ensinamentos e (...) os seus preconceitos e as suas ilusões dogmáticas terão sido removidas, pelo menos até certo ponto. (..) além  de uma literatura extensa e acessível (...) o próximo impulso encontrará um grupo numeroso e unido (NB: itálico no original) de pessoas prontas para receber o novo portador da tocha da Verdade”.

Com uma agitada vida desde a sua fundação, a Sociedade Teosófica, depois da partida de HPB, continuou em mares revoltosos que levaram a embarcação a se partir. Besant e Judge desentendem-se num claro caso de luta pelo poder (ainda hoje não completamente esclarecido), criando o norte-americano uma organização independente que mais tarde iria também perder membros para a Loja Unida dos Teosofistas, surgida em 1909 pelas mãos de Robert Crosbie. Entretanto Besant e Leadbeater levariam a ST original por maus caminhos, até ao desastre de 1929, com a rejeição de Krishnamurti em continuar a desempenhar o seu papel de Avatar. A ST nunca se recompôs e não restabeleceu devidamente o papel dos seus fundadores, preferindo relevar a figura de Krishnamurti (que se haveria de tornar um pensador independente), mesmo quando os seus ensinamentos pouco têm a ver com a Teosofia original. O século XX trouxe ainda vários ataques mútuos entre teosofistas e acusações de manipulação em eleições, com cartas forjadas dos Mestres. Nada do que HPB com certeza esperaria. Logo as condições não estariam satisfeitas para que o último quartel do século XX tivesse um guião semelhante ao século anterior. Tal como se diz que se Jesus Cristo voltasse à Terra provavelmente seria rejeitado pela Igreja, também tenho dúvidas de que a ST aceitasse a nova HPB.

Mas então nada aconteceu desde 1975 até ao final do século? Aqui entramos no domínio da especulação e como já vi várias hipóteses, adianto também a minha. Alguns falam que o enviado terá sido Fritjof Capra, cujos livros de Física partilham conceitos presentes na "Doutrina Secreta". Capra contudo, não é assim tão conhecido pelo público em geral, que teria dificuldades em ler os seus livros. Os mais conhecidos são “O Tao da Física”, “O Ponto de Mutação” e “A Teia da Vida”. Há até quem considere Elizabeth Claire Prophet como a “mensageira do século XX”,afirmação que nem me merece comentários. Bastará ler a opinião dos filhos sobre a própria mãe, que mesmo depois de falecida (morreu em 2009) foi uma das vencedoras do prémio Ig Nobel de 2011, por prever que o Mundo acabaria em 1990. 
Tal como o final do séc. XVIII  (com a elevação da Humanidade a se fazer com os ideais da Revolução Francesa de 1789 – liberdade, igualdade e fraternidade - que já haviam inspirado a Revolução Americana de 1776 e que se espalhariam no mundo ocidental)  é um “filme” diferente do que sucederia 100 anos depois, da mesma forma é de admitir que a fórmula encontrada para o século XX seria distinta e mais adequada aos tempos hodiernos.
Em primeiro lugar repare-se que o nível de instrução em 1975 era bem maior do que o de 1875. Em 1870, 20% dos americanos eram analfabetos e embora não tenha procurado dados sobre isso, estou em crer que quer nos EUA, quer na Inglaterra e França a percentagem de população com estudos mais elevados era diminuta e normalmente só os mais abastados entravam nas Universidades. Não é novidade para ninguém que a literatura teósofica é exigente. Um bom intelecto não é condição suficiente, mas é sem dúvida condição necessária.  Não espanta pois que muitos dos personagens que interagiram com HPB fossem das classes privilegiadas. O alcance da Teosofia estaria pois limitado a um grupo restrito. Naquele tempo, a Igreja continuava a ter um peso muito grande e a lutar tenazmente contras as heresias do espiritismo e da Teosofia.

E então o que houve em 1975? Nesse ano é lançado um pequeno livro que se tornaria muito famoso, traduzido para várias línguas e vendendo milhões. Trata-se de “Vida depois da Vida” de Raymond Moody, Jr. (traduzido para português pela Editora Pergaminho). Moody é um médico doutorado em Filosofia e tornou-se investigador das experiências de quase-morte. Este livro foi uma pedrada no charco, pois um médico ter a coragem de publicar um livro desta natureza era algo francamente inusitado. Gerou-se muita controvérsia, surgiram críticas duras, mas também reconhecimento de alguns pares que ocultavam o seu conhecimento de experiências semelhantes. Moody Jr. , juntamente com Paul Perry publicou recentemente um livro verdadeiramente extraordinário chamado “Instantes de Eternidade”, que não deverá levar muito tempo até ter direito a um post neste blog.
Num circuito mais restrito, o académico Ian Stevenson, psiquiatra americano da Universidade de Vírginia, lança em 1977 o seu  primeiro artigo sobre o tema da reencarnação denominado “O valor explicativo da ideia de reencarnação”.
Anos depois, o médico Brian Weiss, começa a lançar os seus populares livros com regressões hipnóticas que sugerem a existência de vidas passadas.”Muitas vidas, muitos mestres”, foi o primeiro, publicado em 1988.
Note-se que nestes três casos há uma forte ligação com a Ciência, neste caso a medicina. Ciência que, de acordo, com o Mestre KH seria o “melhor aliado da Teosofia” (Carta 11 das ML).
No campo da astrologia, o último quartel do século XX assinala também uma revolução com a recuperação de antigas obras de astrólogos  medievais, helénicos e árabes. Um grande impulso foi dado por Olivia Barclay que adquiriu em 1980 um dos raros exemplares de “Astrologia Cristã” de William Lilly (1602-1681) e contribuiu para a sua re-edição.  Já em 1976 Robert Zoller estudava e traduzia Guido Bonatti e mais tarde, juntamente com Robert Hand e Robert Schmidt, fundou o projecto Hindsight para a recuperação e tradução de obras antigas e importantes da astrologia medieval e helénica, a partir dos originais em grego, latim e árabe.
O reavivar das técnicas entretanto perdidas, fruto do quase desaparecimento da astrologia no século XVIII, altura em que foi banida das universidades europeias, é algo de grande significado. Hoje cada vez mais astrólogos estudam estas antigas técnicas e apercebem-se de que a velha Arte tinha muitos segredos escondidos. Uma vez mais, os conhecimentos académicos e linguísticos foram ferramenta imprescindível.

Como se vê, os últimos 25 anos do século XX não foram estéreis no campo da espiritualidade. Mas não surgiu um “portador da tocha da Verdade”, nem a Sociedade Teosófica teve papel importante. Ao invés, tivemos homens da ciência falando e escrevendo do que vulgarmente se chama de “paranormal”. Livros simples e que se venderam aos milhões em todo o mundo, popularizaram a teoria da reencarnação e o conceito de karma. Nem as novelas brasileiras esqueceram o tema. Hoje não há praticamente ninguém que não conheça estas palavras, mesmo que não concorde com as ideias que lhes estão subjacentes. Ao mesmo tempo que elas se espalham, as igrejas dogmáticas perdem influência.  Cada vez mais pessoas procuram uma explicação lógica para o sentido da vida e por isso aceitam os conceitos de reencarnação e karma.  
O início do século XX trouxe a desvirtuação dos ensinamentos de HPB e dos Mestres, deturpação essa que já se tinha iniciado após o falecimento de HPB.
Cem anos depois  e após alguns livros interessantes publicados entre 1975 e 2000, as estantes das livrarias, na área dedicada ao esoterismo, são um verdadeiro deserto, mas não por falta de livros.  As grandes obras, mesmo da Teosofia estão ausentes (comprei  dois volumes Isis sem Véu, numa grande superfície há 8 anos atrás, agora não se encontra nada sobre Teosofia), de astrologia só se vendem obras superficiais e abundam sucedâneos do best-seller “O Segredo” que incentivam apenas ao materialismo disfarçado de espiritualidade.
Ninguém saberá ao certo se foi realmente o desastre da ST que levou ao não cumprimento do que HPB escreveu em “A Chave para a Teosofia”. Nas próprias Cartas dos Mahatmas, temos o exemplo do karma a funcionar, como no caso do “Phoenix”, o tal jornal que o KH queria incentivar e que nunca viu a luz do dia.
Noutro artigo escrito por Carrithers encontramos uma referência a uma comunicação de outro teosofista, T. H. Redfern, datada de 1961, que considerava já naquela altura pouco plausível que a ST acolhesse um novo "mensageiro" dos Mahatmas em 1975.


Parece-me a mim que o último quartel do século XX trouxe um reavivar da espiritualidade e a popularização de conceitos como o karma e a reencarnação. Agora, num século XXI , para o qual muitos esperam grande iluminação espiritual da humanidade (se calhar as expectativas são demasiado altas...), resta-nos pacientemente carregar a tocha, não aguardando por um Salvador, mas fazendo cada um de nós o melhor possível para propagar as Verdades Eternas.


PS-Um texto que também aborda de forma bastante interessante a profecia mais famosa de Blavatsky pertence a Carlos Cardoso Aveline, tendo sido publicado originalmente na extinta revista canadiana Fohat.

domingo, 15 de janeiro de 2012

Nota breve

Pequenas coisas podem ter grande significado, assim como poucas palavras de sabedoria podem despertar pensamentos profundos.
O episódio que pretendo partilhar é bem simples mas, contudo, deixou leveza no meu dia.
Recordo-me de que num telejornal, por ocasião da passada quadra natalícia, foi para o ar uma pequena reportagem sobre as crenças (ou inexistência delas) referentes ao Natal, de diversas religiões presentes na região.
As celebrações podiam diferir entre os cristãos, mas o que mais me interessou foram as respostas veiculadas por todos aqueles que até nem celebravam o Natal. Se bem que notasse respeito em todas as opiniões sinceras de quem não festeja este período, surpreendeu-me a brilhante resposta de um hindu entrevistado.
Segundo ele, os hindus celebravam a alegria. E, sendo o Natal uma celebração de alegria, partilhavam connosco essa mesma alegria. Por isso, ele sentia-se honrado por celebrar as nossas festas e as dele.
As crenças não precisam de dividir se o amor reunir. Um exemplo assim inspira-nos, mas é preciso muita maturidade espiritual para lá chegar.