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sábado, 15 de junho de 2013

Râja e Hatha Ioga (5ª parte)


Com esta 5ª parte, termina a tradução do texto "Râja and Hatha Yoga", da autoria de Barend Voorham, publicado na primeira edição em inglês da revista Lucífer, editada pela Theosophical Society Point Loma-Blavatsky House.

Os efeitos do Hatha Ioga

No início, o Hatha Ioga pode trazer ao praticante algum tipo de paz mental. Alguns pensamentos que torturam o Ego Pessoal não são mais percecionados porque a “corrente descendente” está fechada.

O Hatha Ioga não é isento de risco, especialmente quando se pratica os exercícios obsessivamente e quando a motivação é adquirir poderes psíquicos. Todo o “sistema energético” entre os egos inferiores e superiores pode ser perturbado, resultando em todo o tipo de problemas mentais e emocionais. Pode ocorrer instabilidade emocional. O Hatha-iogue tornar-se-á demasiado sensível a muitas e diversas influências e ficará incapaz de controlar os seus pensamentos.

Doenças físicas como a tuberculose pode também ser um resultado desta prática.

Finalmente – e estas são as piores consequências – todo o tipo de problemas psicológicos podem-se manifestar; em caso extremos, perturbações psiquiátricas graves.

Da perspetiva que o homem é um ser composto, isto pode ser facilmente explicado. Os exercícios de controlo respiratório perturbam os processos normais e naturais. As partes inferiores da entidade composta tornam-se mais sensíveis às influências astrais e instintivas, que são originadas a partir do Ego Animal e Pessoal. A “antena”, por assim dizer, está afinada para os reinos astrais inferiores, o que permite a todo o tipo de influências astrais entrarem sem controlo. Isto cria perturbações nos processos psíquicos e também pode causar perturbações astrais na mente inferior.

Isso explica porque estes exercícios são perigosos para a saúde física e mental.

Pode-se argumentar que os resultados do Hatha Ioga apenas diferem apenas um pouco do uso de álcool e drogas. Ambos bloqueiam alguns aspetos das correntes de consciência fluindo dos egos superiores para os inferiores, enquanto por outro lado as portas para os egos inferiores, especialmente do Ego Animal, ficam abertas de um modo incontrolado. Quando o Hatha Ioga conduz a um comportamento predominantemente passivo, é mais que provável que os fluxos vitais estejam bloqueados: eles não conseguem mais se manifestar. Quando todo o tipo de novos “sentimentos” surge, provavelmente uma restrição natural foi levantada. De facto, esses sentimentos e impressões não são novos. Eles já existiam no plano de consciência animal, mas estavam ocultos ou mantidos sob controlo pelo Ego Pessoal.

Em alguns casos as pessoas podem adquirir alguns poderes, que se designam agora por paranormais, pela prática do Hatha Ioga e de um estilo de vida físico estrito e ascético. Isto é provocado por uma sensibilidade crescente dos Egos Animal e Pessoal, que subsequentemente são abertos para receber certas influências.

Para garantir que estas influências são puras e espirituais, a mente deve ser impessoal e altruísta, com uma visão universal e uma motivação compassiva.

Se não for esse o caso, o Hatha-iogue irá desenvolver apenas um poder limitado de penetrar conscientemente no plano astral com uma eficácia limitada. Não obstante possam estes poderes parecer interessantes, eles são transitórios e desaparecem com a morte.

Considerando os perigos envolvidos, podemos reconsiderar se aspirar a estes poderes é uma atividade que valha a pena.

Hatha Ioga: um remédio em casos raros

Podemos nos perguntar porque o Hatha Ioga cresceu de forma tão popular apesar dos sérios perigos envolvidos. Quer no Ocidente, quer na Índia, o número de pessoas praticando Hatha Ioga ultrapassa de longe os que praticam Râja Ioga. Existem também escolas que afirmam ensinar Râja Ioga, mas na verdade elas apenas praticam uma variante de Hatha Ioga.

Uma explicação pode ser o facto das pessoas presentemente serem mais atraídas pelos fenómenos sensacionais e procurarem a excitação e alegria, em detrimento de seguirem de forma séria os preceitos éticos e senso comum que são parte do sistema Râja Ioga. As pessoas querem resultados rápidos, embora seja uma ilusão pensar que através de um truque de magia, a consciência pode ser expandida. Esta ideia vem dos anos 60 do último século, e embora se tenha provado errada muitas vezes, as pessoas ainda acreditam nisso.

Isto conduz à questão de como um sistema perigoso como o Hatha Ioga apareceu. A resposta a esta pergunta leva-nos ao passado longínquo quando os Râja-iogues ainda ensinavam as pessoas de modo mais ou menos aberto. Cada guru tinha os seus próprios chelas que praticavam os ensinamentos. Muito ocasionalmente, um chela podia sofrer de problemas físicos ou psíquicos, o que prejudicava o seu crescimento espiritual. Nessas situações, o Instrutor prescrevia algumas práticas de Hatha Ioga, tal como um médico prescreveria a um paciente um determinado remédio. Estes eram exercícios específicos prescritos por um Mestre, dirigidos a um aluno específico e praticados sob a sua supervisão. E a motivação do chela, era obviamente altruísta, caso contrário um Mestre nunca o teria aceitado como seu aluno. Apenas naquelas circunstâncias as práticas mencionadas poderiam ser benéficas e remover alguns obstáculos no processo de crescimento.

Infelizmente, quando a autoridade dos Râja-iogues diminuiu, as ideias do Hatha Ioga acabaram nas mãos de pessoas menos sábias que pensavam que os exercícios seriam benéficos para toda a gente. Mas quem iria a uma farmácia e pedir um grama de um remédio? Isto é o que acontece exatamente quando um estudante ignorante pergunta a um instrutor ignorante para lhe ensinar alguns exercícios de Hatha Ioga.

O caminho seguro

Como mencionado anteriormente, existe uma relação entre a popularidade do Hatha Ioga e os pensamentos e sentimentos turbulentos de que sofre muita gente hoje em dia. É um sinal encorajador que estas pessoas não desistam por desespero, mas que tentem ativamente fazer alguma coisa em relação aos seus problemas.

Na nossa opinião seria melhor se eles olhassem primeiro para as causas da sua inquietação e stress. Elas irão descobrir que estes sentimentos e pensamentos são sempre o resultado de uma visão pessoal limitada delas próprias e do mundo do qual fazem parte. Quando uma pessoa se identifica completamente com o Ego Pessoal, e vive na ilusão que está separada de uma grande corrente de vida, haverá sempre turbulência, porque a separação não existe. Portanto, se vivermos em desolação, pensando que não somos responsáveis pelos outros, podemos esperar uma reação natural. A causa principal da nossa inquietação reside na visão pessoal do mundo em que vivemos e de nós próprios. Todo o desejo egoísta – incluindo um desejo pela calma interior – carrega em si próprio a semente da inquietação.

Por essa razão seria muito melhor dedicar a personalidade ao serviço de todos. Este é o princípio do Râja Ioga. O estudante no caminho pode às vezes cair e ter sentimentos de deceção, mas saber que ele é parte de onda de consciência sublime, fá-lo esquecer do desapontamento e de cada movimento em falso, sempre o inspirando a seguir em frente. Este Caminho Real é portanto o caminho seguro para a união com o Eu, um caminho que todos podem percorrer.

sábado, 8 de junho de 2013

Râja e Hatha Ioga (4ª parte)


Segue-se a 4ª parte do texto de Barend Voorham, intitulado no original "Râja and Hatha Ioga"

Praticantes de Hatha Ioga

O Hatha Ioga não é apenas um tipo de exercício físico para manter o corpo são e em forma. A tradução literal da palavra sânscrita hatha mostra-nos que Hatha Ioga é muito mais que isso. Hatha deriva da palavra sânscrita hath, que significa supressão. Isto implica “violência” ou “força”. Portanto ao praticar este sistema de ioga, o objetivo é atingir a união pela força.

A maioria das pessoas que pratica Hatha Yoga nos dias de hoje está à procura de paz mental e alguma tranquilidade nas suas vidas frenéticas. Elas sofrem de stress diário e estão à procura de um bom remédio. Encorajadas pela indústria New Age, pensam que o Hatha Ioga irá ajudá-las a melhorar a sua condição mental, emocional e física e assim a desenvolver a espiritualidade e um sentido mais forte de equilíbrio nas suas vidas. São portanto em geral pessoas com uma atitude positiva.

Técnicas de Hatha Ioga

O Hatha Ioga é um sistema que exerce uma determinada influência nas energias física e psíquica através de certas posturas (Âsanas) e exercícios respiratórios (Prânâyâma).

Existe muita literatura descrevendo o impacto das posturas na consciência. A questão contudo, é se o Ego Físico (corpo físico), considerando a sua posição no cômputo da natureza composta do homem, pode influenciar de algum modo o Ego Humano Superior ou o Ego Espiritual. Claro que existe através da ressonância uma troca de energias de “baixo a cima”, mas em ordem a induzir as energias daqueles egos superiores a fluírem para o corpo físico, é necessário mais do que apenas certas posturas físicas.

O corpo físico é um instrumento que envia sinais para os egos superiores. Quanto mais um ego é desenvolvido, menos esses sinais são capazes de perturbar o equilíbrio. Uma certa dor física pode por exemplo irritar o Ego Pessoal, mas os Egos espiritual e Humano Superior não são afetados por isso, embora por ressonância eles reconheçam o sinal.

As posturas podem mudar as energias no corpo, que podem atingir os egos superiores nalguma medida, mas para uma efetiva influência dos egos superiores no Ego Pessoal, mais é necessário. Como iremos ver mais adiante, o motivo para exercitar estes Âsanas desempenha um papel importante.

O verdadeiro significado de Âsana – sentar-se calmamente – é eliminar tanto quanto possível quaisquer influências perturbadoras que o corpo físico possa ter no Ego Pessoal, de forma a que o Ego Pessoal se possa concentrar completamente nos egos superiores. Encontrar um sítio calmo onde se possa relaxar o corpo é habitualmente suficiente; uma postura específica não é importante.

Exercícios de controlo da respiração têm um efeito muito mais poderoso que posturas corporais. O Hatha-iogue pretende, para além de paz mental, desenvolvimento espiritual. O sistema de Hatha Ioga que ele pratica porém, estimula predominantemente os atributos físicos inferiores. Estes atributos estão localizados ao nível do Ego Animal e da mente inferior. O Ego Animal vive no mundo astral, um mundo invisível para os nossos sentidos físicos, mas que não é certamente um mundo espiritual. Ao praticar exercícios respiratórios como o Kumbhaka e o Rechaka, algumas partes psíquicas, pertencentes ao campo do Ego Animal, são paralisadas. Alguns dos processos vitais no corpo são temporariamente paralisados, bloqueando o fluxo de certas energias prânicas do Ego Animal para o corpo físico e vice-versa.

A motivação para o Hatha Ioga

A maior parte das pessoas não se apercebe que o motivo para a prática de qualquer sistema de ioga, determina os resultados que serão atingidos. Isto também se aplica obviamente ao Hatha Ioga. Ao praticar este sistema de ioga fazemos com que a nossa consciência fique mais sensível a todo o tipo de influências. Sem um motivo impessoal e altruísta, nós ficamos particularmente mais sensíveis a todo o tipo de influências astrais ativas no plano do Ego Animal. Alguém que pratica Hatha Ioga com uma motivação pessoal pode atrair todo o género de forças perigosas. Se ele soubesse mais sobre este assunto, pensaria duas vezes antes de praticar Hatha Ioga.

Quando o objetivo de praticar Hatha Ioga é manter o corpo em forma e saudável, podem existir diferentes motivações em questão. É o objetivo um corpo são de forma a ter uma vida fácil e confortável, ou quer-se um corpo são de modo a cumprir melhor os deveres na vida para benefício de toda a humanidade? A última hipótese produz um resultado diferente da primeira.

Praticar Hatha Ioga para o cultivo de capacidades psíquicas inclui sempre uma motivação pessoal e egoísta. Especialmente em (aparentes) assuntos espirituais, um motivo egoísta funciona contraprodutivamente, porque uma característica egoísta atrai influências no mundo astral com características similares, o que pode eventualmente conduzir a resultados desastrosos.

Termina na próxima semana.

sábado, 1 de junho de 2013

Râja e Hatha Ioga (3ª parte)


Segue-se a 3ª parte da tradução do texto de Barend Voorham "Raja and Hatha Ioga". Para mais detalhes, sobre a revista e a organização que publicou este texto consulte os posts anteriores.

"Comunicação através da ressonância

As trocas na corrente de consciência acontecem por intermédio da ressonância.

Cada ponto de transformação funciona como um emissor-recetor, que se sintoniza com a frequência do grau de consciência ao qual pertence. Na mesma frequência de ressonância no qual transmite informação (ou energia ou consciência) – use a palavra que entender – também recebe informação. Se sintonizada, por exemplo, no plano do “desejo”, também receberá nessa frequência.

Compare-o com a música. Se tocar numa corda de guitarra, que se encontra afinada num certo tom, outra corda, afinada no mesmo tom, irá também vibrar ou ressoar.

Cada ego pode ser dividido em sete tons, que correspondem aos sete planos de consciência.

Em princípio, cada ser na corrente de consciência tem as mesmas qualidades disponíveis que todas as outras entidades têm. A única diferença está no número destas qualidades que já foram desenvolvidas. Suponham que no Ego Pessoal a nota Lá é executada, os Lás nos outros pontos de transformação irão ressoar e vibrar também, mesmo quando afinados numa oitava superior ou inferior. Portanto, tudo está interligado, conectado e cada pensamento, palavra ou ação vibra através de todo o nosso ser.

Especialmente no caso da prática do ioga é importante entender que isto irá causar alterações na corrente de consciência. Sintonizar-mo-nos num ego irá criar uma situação onde uma determinada energia poderá ou não fluir para o corpo. Se nos focarmos num dos egos superiores, o Ego Pessoal tornar-se-á mais acessível para os impulsos e pensamentos universais, enquanto que, se nós nos concentrarmos no Ego Animal, será mais díficil captar ideias universais (ver aqui uma conferência do autor sobre alterações na mente e no corpo).



Râja Ioga

Que energias estão em jogo no Hatha e Râja Ioga?

Râja Ioga – ou Ioga Real – é um sistema dirigido a purificar o pensamento (manas) através da concentração no Ego Humano Superior ou Ego Espiritual. É o Ego Pessoal que pratica a disciplina. Ao dominar a sua mente ele fica mais perto de uma união com Âtman, o Deus interior. A disciplina é desenvolvida pela concentração no ideal mais elevado e no controlo da natureza humano-pessoal. É importante entender que é o Ego pessoal – a nossa consciência diária – que deve ser disciplinado, não os egos mais elevados. Deve-se referir que ser disciplinado não significa que os elementos inferiores devam ser suprimidos ou negligenciados. De facto, os aspetos superiores da constituição hierárquica do homem guiam estes elementos no sentido de crescerem e evoluirem.

O Bhagavad-Gitâ dá-nos a seguinte ideia. Arjuna vai para a guerra numa quadriga, que é puxada por cavalos. Arjuna pôs as rédeas da quadriga nas mãos de Krishna. O simbolismo é claro. Arjuna é o Ego Pessoal que luta com a sua mente, por outras palavras, que quer desenvolver a parte espiritual da sua consciência. Os cavalos são as forças que emergem do Ego Animal, especialmente desejos e sentimentos egoístas. A quadriga é o símbolo do corpo físico e Krishna representa o Deus interior. Como interpretar isto?

Porque o Ego Pessoal (Arjuna) se vira para os seus aspetos superiores (Krishna), ele é capaz de controlar os seus aspetos inferiores, o seu Ego Animal e o seu corpo. É importante perceber que é o Ego Pessoal que pratica a disciplina. Afinal de contas é Arjuna quem está lutando e Krishna quem dirige os cavalos. A consciência expande-se apenas através da nossa atividade e auto-disciplina permitindo que alguma coisa dos mundos divinos e espirituais seja experienciada. Submeter o corpo a uma disciplina severa, seguindo uma dieta estrita ou regras ascéticas não irá conduzir a um vislumbre dos mundos divino-espirituais.

A mente pode apenas experienciar as esferas divinas da consciência se focada nas partes mais elevadas da sua natureza. Por outras palavras, o Ego Pessoal deve ativar em si próprio os ideais mais nobres que possa imaginar, para que possa ecoar com os Egos Humano Superior, Espiritual e Divino.

Dado que os egos superiores na corrente de consciência compreendem que há interligação com os outros seres, o despertar dessas forças deve ser acompanhado por amor por todos os seres vivos. O praticante de Râja Ioga precisa de impregnar a sua mente com amor por todos os seres.

No primeiro diagrama deste texto é mencionado que o Râja Ioga é destinado para Kshatriyas, que se pode traduzir por funcionários públicos ou guerreiros. Num sentido mais lato e ético, este tipo de função refere-se a líderes e orientadores de pessoas. A luta que estes travam é contra a sua própria natureza inferior.

As qualidades que precisam de ganhar nesta batalha são delineadas no Bhagavad-Gitâ. Devem ser estudadas a esta luz. A coragem dos Kshatryias é necessária para conquistar os seus interesses pessoais. A sua glória vem de uma atitude impessoal. Sabedoria é a recompensa. Além disso, devem estar determinados em olhar o mundo com uma ampla visão universal. E moderação, para resolverem problemas de um modo amigável. Uma motivação altruísta é sempre essencial para o Râja Ioga. Isto significa dedicar a própria vida a ajudar e inspirar outros. Uma vida tal conduz à purificação da própria consciência, pois quando nós, de forma ativa e sem interesse próprio, tentamos ajudar a resolver os problemas dos outros, isto estimula o nosso próprio desenvolvimento também.

Os efeitos do Râja Ioga no corpo físico

Praticar Râja Ioga ativa os poderes ao nível do Ego Humano Superior e do Ego Espiritual. O Ego Espiritual acorda quando contemplamos e vivemos os nossos ideais espirituais. Tal atividade manásica – sob a forma de visões, inspirações ou pensamentos impessoais – estabelece o contacto com o Ego Humano Superior (ver o diagrama em forma de piano).

Tal como mencionado anteriormente, todos os egos estão interligados, portanto a prática do Râja Ioga também afeta o Ego Animal e o corpo físico.

A expressão em latim “Mens Sana in Corpore Sano” – mente sã em corpo são – é um exemplo da influência benéfica que a mente que o praticante do Raja Ioga tem, na sua condição física. Quando reina a parte espiritual, o corpo físico irá funcionar mais harmoniosamente. O corpo ressoa em harmonia com a energia que procede do Ego Humano Superior e do Ego Espiritual. O resultado é um veículo são."

Continua na próxima semana.


sábado, 25 de maio de 2013

Râja e Hatha Ioga (2ª parte)


Continuamos nesta semana, com a tradução do texto de Barend Voorham, "Raja and Hatha Ioga", publicado na revista Lucifer, editada pela Theosophical Society Point Loma - Blavatsky House.



"Os exercícios de ioga devem permear todas as atividades da nossa vida diária, incluindo os nossos deveres sociais e cívicos, que variam conforme o tipo específico da consciência de cada indivíduo. O Ioga, na antiga Índia não significava apenas a execução de alguns exercícios para a obtenção de paz mental, mas estava completamente integrado na vida quotidiana.

Hierarquia do Hindustão




Se homens e mulheres cumprissem os seus deveres sociais e responsabilidades através da disciplina do ioga que correspondesse com o seu estado individual de consciência, existiria uma sociedade ideal.

Assinale-se que a qualidade da consciência individual não passa automaticamente de pais para filhos, como supõe o atual sistema de castas indiano. A ideia original deste sistema está ligada na verdade aos quatro tipos de consciência principais, mas ao pensarem erradamente que uma criança vai herdar a qualidade da consciência dos seus pais, esta ideia eventualmente degenerou num horrível sistema de divisão, exploração e injustiça. A verdadeira ideia dos quatro tipos de consciência formarem a estrutura de uma sociedade justa também pode ser encontrada na “Politeia” de Platão.

União - com quê?

Se o propósito do Ioga é procurar a união através da prática da disciplina, a questão óbvia é: ”união com quê?” Alguém que acredita em Deus pode pensar numa união com Deus. Mas na filosofia do Ioga não pode ser este o caso. Todas as antigas escolas hindus ensinam a natureza composta do homem. A consciência do homem pode ser dividida em diferentes camadas, diferentes planos, que estão inter-relacionados de modo hierárquico. Cada escola tem o seu próprio sistema. Na essência a ideia é a mesma, mas algumas escolas podem ser mais detalhadas na divisão do que outras. Todas as escolas partilham a ideia de uma base e de um topo. A base é o corpo, que tem a função de veículo. O topo é a raíz da nossa consciência, fonte a partir da qual os outros princípios abaixo fluem para a manifestação. O objetivo do ioga é a união do homem pessoal – o tipo de consciência que a maioria das pessoas expressa na vida quotidiana – com aquele princípio mais elevado da sua natureza composta. Em sânscrito, esta raíz do nosso próprio eu chama-se Âtman, uma palavra que se pode traduzir como Eu [Self, no original]. Não se deve pensar neste Eu como um princípio ou fim absolutos, mas sim como um horizonte relativo para nós próprios, seres humanos. Ainda não temos a capacidade de olhar para lá dele. Âtman é a nossa principal ligação com o ilimitado. O homem pessoal deve abrir a sua consciência interior ao ponto em que ele percecione em si próprio o aspeto Âtmico e se torne uno com ele. Então ele perceberá que é uma parte do ilimitado, do infinito.

Entre Âtman, este topo relativo e o corpo físico existem diferentes etapas ou graus, que diferem entre si nas características. Quanto mais perto está a etapa ou o grau de Âtman, mais intensa será a consciência da unidade de toda a vida e mais sublime será esta característica. Neste artigo nós assumimos os seguintes graus: o divino, o espiritual, a mente, os desejos, a vitalidade, o astral e o físico.



Corrente de consciência

Também se pode olhar para o homem como uma corrente de consciência. Nessa corrente, o raio divino atravessa etapas, níveis ou graus de consciência e a cada nível transforma-se numa força ativa. Conjugadas, estas forças ativas formam uma hierarquia de consciência, em que os graus de desenvolvimento mais elevados funcionam como uma comporta num canal, adequando a corrente de consciência para um grau menos desenvolvido.

Cada um destes pontos de transformação é um ser vivo com uma característica específica. Podemos chamá-la de Ego (um “Eu”). Em essência cada Ego contém as mesmas qualidades que Âtman, o Ego Divino, a fonte a partir do qual ele flui, da mesma forma que um raio de sol possui dentro de si tudo o que é do Sol.

Portanto todo o ser humano é uma composição de diferentes forças, energias e egos. Existe uma contante interação e troca de todas estas forças. A vida corre continuamente entre essas diferentes entidades ou “transformadores” vivos.


Continua na próxima semana.

sábado, 18 de maio de 2013

Râja e Hatha Ioga (1ª parte)


Tem sido prática do Lua em Escorpião publicar textos de teosofistas ligados às diferentes tradições, ou seja, das ramificações que resultaram da Sociedade Teosófica (ST) matriz, fundada por Olcott, Blavatsky e Judge em 1875. Nos arquivos do blog encontrarão por exemplo textos de David Pratt (ST Pasadena), Odin Townley (Loja Unida de Teosofistas) e Pablo Sender (ST Adyar). Também já puderam aqui ler textos publicados em plataformas independentes, como o “Theosophy Forward” de Jan Kind.

Além da ST Adyar, ST Pasadena e LUT, existe uma outra organização que tem estado muito ativa na divulgação da Sabedoria Antiga. É a Theosophical Society Point Loma – Blavatsky House, que a partir de Haia na Holanda, além de organizar palestras e de difundir Teosofia através da sua página de internet, foi ainda responsável (através da ISIS Foundation) pela publicação recente dos Comentários da Doutrina Secreta, transcritos e anotados por Michael Gomes. Neste livro podem encontrar as atas das reuniões da Loja Blavatsky na sua forma mais original, sendo notórias as diferenças com a versão muito editada, publicado sob o título de “Transactions of the Blavatsky Lodge”. Essas atas foram descobertas no espólio de B. P. Wadia, um dos mais importantes líderes da LUT.



Mas a Blavatsky House também publica uma revista desde o final dos anos 70 chamada Lucifer, que a partir de 2013 passou também a ser editada em inglês. Foi na 1ª edição nesta língua que encontrei um texto bastante interessante intitulado “Râja and Hatha Yoga” da autoria de Barend Voorham. É esse artigo que durante as próximas quatro semanas será postado no Lua em Escorpião.

Barend Voorham

Uma nota final para referir que com a publicação deste texto da Lucifer (quem está a ler estes posts, com certeza já sabe que nada há de demoníaco neste nome, bem pelo contrário, significa portador de luz), o Lua em Escorpião, em cerca de um ano conseguiu publicar textos das várias tradições, provando assim que é possível encontrar nas diferentes sociedades e fora delas artigos de valor, que estão em concordância com a Sabedoria Perene. Não há pois razão, para atitudes exclusivistas, de altivez e de intolerância que certos “donos da verdade” gostam de manifestar.



Râja e Hatha Ioga, por Barend Voorham




Para a maior parte das pessoas no mundo ocidental a prática do ioga é uma forma popular de exercício físico e de controlo da respiração. Este sistema particular de ioga é conhecido como Hatha Ioga. Contudo, existem muitos outros sistemas de ioga, como o Râja Ioga. Este artigo debruça-se especialmente sobre estes dois – por vezes contraditórios – sistemas de ioga.

Muitas pessoas, neste mundo caótico, estão à procura de paz e tranquilidade na sua vida. Elas necessitam de tranquilidade mental e emocional para manterem o controlo sobre a sua vida turbulenta.

Por essa razão, a prática do ioga tem sido popular entre os ocidentais desde há muitos anos. Em quase todas as cidades ou vilas podemos fazer um curso de ioga. Existem milhões de pessoas que praticam ioga. Mas será que os instrutores destes cursos e os seus próprios alunos compreendem o propósito essencial do ioga e que energias todas estas disciplinas físicas podem evocar?

O que é o ioga?

Ioga é uma palavra sânscrita que se tornou parte do vocabulário de quase todas as línguas modernas, mas a explicação nos dicionários está na maior parte dos casos limitada a um único sistema de ioga: o Hatha Ioga. Contudo na antiga Índia um grande número de outros sistemas de ioga sempre existiram. No Bhagavad-Gitâ – uma escritura sagrada que é muito prezada no Oriente e Ocidente, e cujo conteúdo é quase totalmente sobre ioga – vários sistemas de ioga são descritos.

Literalmente ioga significa “jugo”. Metaforicamente significa disciplina, portanto praticar ioga significa seguir uma disciplina. Um jugo, contudo, une dois bois para funcionarem como um. É por isto que o ioga pode ser explicado como união. Ao praticar um tipo de disciplina nós atingimos a união.

Na Índia antiga a escola de Ioga era uma das seis escolas filosóficas ou Darsanas. Acredita-se que esta escola foi fundada pelo sábio Patanjali. Tal como qualquer outra escola, a escola de Ioga não poderia existir sem instrutores ou gurus. As pessoas tinham permissão para praticar os exercícios de ioga apenas sob instrução de um guru. Isto é de grande importância, pois, como já se referiu antes, existem vários sistemas de ioga, e apenas um verdadeiro instrutor é capaz de reconhecer o método correto para cada um dos seus alunos.

Bhagavad-Gitâ: Diferentes formas de ioga

O Bhagavad-Gitâ explica claramente estes vários sistema de ioga. Dos dezoito capítulos, dezasseis deles (as exceções são os capítulos um e onze) lidam com os vários sistemas de ioga. Embora as diferenças entre todas estas práticas de ioga sejam muito subtis para o ocidental, elas são sem dúvida mais do que contorção do corpo, posturas e exercícios respiratórios. Dificilmente encontraremos qualquer referência a exercício físico no Bhagavad-Gitâ. Na antiga Índia, os caminhos do ioga estavam associados com os quatros tipos principais de consciência humana. Ao praticar um tipo específico de ioga, que corresponda ao seu estado de consciência no momento, o iogue atinge a união.

A forma mais simples de ioga é o Karma Ioga, que tem como objetivo atingir a união pela ação. Devemos agir apenas por uma questão de correção da ação em si e não pelo resultado. As pessoas que praticam Karma Ioga ficarão perto da união ao servirem altruisticamente para aliviar o sofrimento, sem terem a esperança ou expetativa de receber algo em troca.

Bhakti Ioga é a prática do ioga através da devoção. Embora hoje em dia, na Índia, a devoção seja direcionada para deuses antropomórficos pessoais externos ao homem, o Bhagavad-Gitâ ensina de forma clara a concentrar a nossa devoção no nosso deus interior (representado por Krishna) e no nosso ideal espiritual. No capítulo 10, sloka 20, do Gitâ, Krishna diz: ”Eu sou Atman, Eu sou o Eu [I am the Self, no original]. O meu lugar é no coração de todos os seres”.

A prática do Raja Ioga resulta no domínio completo de todos os poderes inatos no homem, com o objetivo de usá-los para o benefício da humanidade.

Finalmente, o Jñâna Ioga tem como objetivo a união pela prática da sabedoria em cada situação.
Estes quatros sistemas por ordem consecutiva, requerem do iogue uma disciplina crescente. O Brâhmana, o tipo mais elevado de consciência, não deve por exemplo, apenas praticar Jñâna Ioga, assumindo-se que domina as outras três formas de ioga como pré-requisito. A forma mais elevada de ioga é uma combinação de todos os quatro tipos das disciplinas de ioga.

Continua na próxima semana.