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sábado, 9 de agosto de 2014

A Teosofia e as Sociedades Teosóficas (4ª parte)

Continuamos com a tradução do excelente artigo do professor James A. Santucci, "A Teosofia e as Sociedades Teosóficas". Esta semana é publicada a quarta de dez partes.


Em 1898, a Srª Tingley rebatizou a S.T. na América como Sociedade Teosófica e a Fraternidade Universal. Enquanto “Líder e chefe oficial” ela prosseguiu as suas atividades em Teosofia aplicada, incluindo um ambicioso programa educativo, chamado Raja Ioga, que se iniciou em 1900 e que enfatizava a integração da formação e educação espiritual, mental e física. Da população estudantil inicial de cinco elementos, o número rapidamente saltou para 100 em 1902, dois terços dos quais eram cubanos, devido aos seus interesses permanentes em Cuba resultantes da Guerra Hispano-Americana de 1898 e ao apoio do Major Bacardí de Santiago aos objetivos de Tingley. Em 1919 o programa educacional foi expandido com a fundação da Universidade Teosófica. Com o encerramento das lojas em 1903, a maior parte dos membros mais talentosos e empenhados foram consequentemente para Point Loma, participando não só nas experiências educativas mas também em atividades relacionadas como a agricultura e horticultura, escrita, investigação, edição de publicações e produções teatrais e musicais.

Contudo, por volta de 1920, estas atividades começaram a desaparecer, principalmente devido a problemas financeiros. Com a morte de Tingley em 1929, a direção estabelecida pelo seu líder mais académico e intelectual, Gottfried de Purucker, foi uma vez mais no sentido da Teosofia teórica, com ênfase no ensinamento e estudo das obras teosóficas centrais. Rebatizando a S.T. e F.U. como Sociedade Teosófica, de Purucker avançou com um Movimento de Fraternização – em parte devido ao aproximar do centésimo aniversário do nascimento de H.P. Blavatsky – com o objetivo derradeiro de reunir todas as sociedades. A unificação, contudo, não foi possível, mas convenções e outras atividades de cooperação entre Adyar e Point Loma realizaram-se ao longo dos anos 1930.


Gottfried de Purucker


Mais para o final da liderança de de Purucker, ele tomou a decisão prática de vender a propriedade comunitária de Point Loma, chamada Lomaland e realocar a Sociedade em Covina, uma pequena comunidade a leste de Los Angeles. Naquele mesmo ano (1942), de Purucker faleceu e a Sociedade foi, nos três anos seguintes, liderada por um gabinete até que um novo líder, o Cel. Arthur Conger, foi eleito em 1945.

De acordo com um relato de um dissidente, pouco tempo depois desta eleição, aqueles membros do gabinete que não reconheciam o estatuto esotérico de Conger como “porta-voz dos Mestres” (que alegava assim o mesmo estatuto que H.P. Blavatsky) foram destituídos de todas as responsabilidades na S.T. Estes antigos funcionários e vários outros indivíduos nos EUA e na Europa acabaram por sair das instalações da S.T.: alguns voluntariamente anularam o seu estatuto de membro, outros viram o seu estatuto de membros involuntariamente cancelado. O trabalho da tradição de Point Loma estabelecido por Tingley foi continuado por alguns grupos organizados nos Estados Unidos e na Europa, sendo um desses grupos a Publicações Point Loma, que foi constituído em 1971 como uma instituição religiosa e educacional sem fins lucrativos.

Entretanto, a Sociedade Teosófica de Covina permaneceu sob a liderança de Conger até à sua morte no início de 1951. William Hartley (1879-1955), um antigo membro residente da Sociedade foi o sucessor escolhido de Conger, mas James A. Long (1898-1971) foi aceite pelo gabinete da S.T. em vez dele, sendo que o argumento para a sua escolha assentava no facto de que o documento original que continha o sucessor designado por Conger não existia, apenas existia uma fotocópia. Hartley, em conjunto com os seus seguidores, deixou Covina e deu continuidade à sua “Sociedade Teosófica” (Point Loma). Em 1958 Dick J.P. Kok (Holanda) sucedeu a Hartley e desde 1985 é liderada por Herman C. Vermeulen (ainda com sede em Haia, na Holanda).


Arthur L. Conger


James Long continuou a liderar aquela Sociedade Teosófica [a de Covina]. Um número de acontecimentos significativos teve lugar durante a sua liderança. A Universidade Teosófica e todas as lojas (instituídas durante a presidência de de Purucker) foram encerradas; as secções nacionais (incluindo a propriedade sueca de Visingsö) foram também encerradas; as atividades de impressão e edição, sede e biblioteca foram deslocadas para Altadena e Pasadena em 1951; e a Sunrise, uma revista mensal, foi criada. Long também se deslocou em longas viagens internacionais para palestras, visitando os membros de fora dos EUA. Depois da sua morte em 1971, Grace F. Knoche tornou-se a líder desta Sociedade Teosófica. [NT: Depois da morte de Knoche em 2006, Randell C. Grubb passou a ser o líder].


James A. Long

Durante o agitado ano de 1898, outra organização teosófica surgiu, com a fundação do Templo do Povo por William H. Dower (1866-1937) e Francia LaDue (1849-1922), que acreditavam seguir as instruções do Mestre ao se separarem da T.S. e F.U dirigida por Tingley, e, de acordo com a sua própria declaração, ao estabelecerem as “bases mentais, físicas e espiritual da futura sexta raça”. Saídos da loja de Syracuse (Nova Iorque) da S.T. e F.U., mudaram-se em 1903, juntamente com o seu grupo, para a Califórnia, onde se fixaram numa zona a leste de Oceano, estabelecendo aí a sua sede conhecida como Halcyon. Em 1904, Dower abriu o Hotel e o Sanatório Halcion por forma a continuar a sua prática médica, tratando doenças como a tuberculose, distúrbios nervosos, alcoolismo e toxicodependência. No ano seguinte (1905), a Temple Home Association foi constituída, sendo definido um plano para uma cidade com locais para casas para venda ou para arrendamento, organizando assim uma colónia cooperativa com LaDue, também conhecida como Estrela Azul, que se tornaria a primeira líder – Guardiã-chefe – do Templo. Em 1908, o Templo foi constituído sob o nome “Guardião-chefe do Templo do Povo, uma única instituição”. Depois da morte de LaDue em 1922, Dower tornou-se o segundo líder do Templo, supervisionando a construção do templo Memorial Estrela Azul. Começado em 1923 e completado em 1924, o Templo Memorial Estrela Azul foi construído de acordo com simbolismo matemático e geométrico ilustrando a unidade de toda a vida, ou o eu superior. Depois da morte de Dower em 1937, Pearl Dower tornou-se a terceira Guardiã-chefe, que organizou a propriedade de acordo com as suas especificações presentes, uma propriedade de 95 acres [NT: cerca de 38,5 hectares] consistindo de 52 casas, 30 das quais são propriedade do Templo, a Biblioteca William Quan Judge, que também inclui os escritórios do Templo e um apartamento para os visitantes. O sucessor de Dower em 1968 foi Harold Forgostein, que pintou 22 quadros no início dos anos 30 a pedido de Dower, representando as contribuições dos nativos norte-americanos para o entendimento do equilíbrio na Natureza e cenas da vida de Hiawatha, ambos importantes nos ensinamentos do Templo. Estes quadros estão agora no Centro Universitário do Templo. Forgostein permaneceu lider do Templo até 1990; a guardiã-chefe atual é Eleanor L. Shumway.


Francia La Due

Continua na próxima semana.

sábado, 14 de junho de 2014

A controvérsia em torno do Glossário Teosófico (2ª parte)

Nesta segunda parte, veremos a resposta daqueles que recusam a ideia do Glossário Teosófico ser uma obra a evitar, considerando ao mesmo tempo legítima a ideia de Blavatsky ser apresentada como autora da obra. É naturalmente imprescindível ler a primeira parte, publicada a semana passada.

A contestação às ideias de Aveline sobre o Glossário

Depois da distribuição do texto de Aveline pelos canais habituais usados pelo grupo de estudantes congregado pelo teosofista brasileiro, a resposta não se fez esperar. Vamos abordar aqui duas dessas reações, a de Daniel Caldwell e a de Matthew Webb.

Caldwell é um veterano estudante de Teosofia, que gere o portal mais completo sobre HPB, o Blavatsky Study Center. Já editou vários livros, um deles traduzido para português - “O Mundo Esotérico de Madame Blavatsky”, editado no Brasil pela Madras. Mais recentemente Caldwell, editou “Laura Holloway e os Mahatmas” e antes “The Esoteric Papers of Madame Blavatsky”, que contém fac-similes de diverso material importante na história do movimento. Há ainda uma compilação de Caldwell para introdução à Teosofia em forma de e-book.




Na sua argumentação, Caldwell junta a questão do Glossário com a controvérsia (mais uma!)  em relação ao terceiro volume de “A Doutrina Secreta” (que corresponde ao quinto e sexto volumes na edição em língua portuguesa), publicado também já depois da morte de Blavatsky e que alguns consideram ter sido um acrescento da exclusiva responsabilidade de Besant e Mead. Outras questões delicadas afligem essa edição, a partir do qual foi feita a única tradução para português hoje existente.  Mas cada coisa a seu tempo; essa história será aqui trazida oportunamente.

Em 1891, quer Olcott, quer Besant falavam da preparação de um glossário “com termos em Sânscrito e outros noutras línguas orientais”.


Annie Besant, Cel. Olcott (sentado) e WQ Judge


Blavatsky, no prefácio da 2ª edição em inglês de “A Chave para a Teosofia” (a edição em língua portuguesa foi feita a partir da 1ª edição e não tem Glossário) escreve que adicionou “um copioso Glossário de todos os termos técnicos encontrados [em “A Chave”]. A maior parte das definições e explicações são transcrições ou abreviaturas do “Glossário Teosófico” maior, que será em breve publicado”. Isto foi escrito no outono de 1890, mais de meio ano antes da morte de HPB. Um a um, Caldwell desmonta os argumentos de quem sustenta, a não responsabilidade de Blavatsky na edição do Glossário.

HPB foi acusada de plágio, tendo William Emmette Coleman sido um dos principais detratores do trabalho da Velha Senhora. Ele identificou mais de 1 000 dos cerca de 2 800 termos como sendo copiados de outros livros. Essa avaliação foi confirmada por Boris de Zirkoff, embora a contabilidade dos termos supostamente plagiados tenha sido menor. Contudo no próprio prefácio do Glossário são explicitamente citados esses livros como fontes. Somado a isso, há a referir que Blavatsky fez inúmeros acrescentos da sua própria autoria, a maior parte de natureza ocultista.


De Zirkoff na capa da última
"Theosophia" (Foto:TS wiki)

Caldwell prossegue na sua argumentação, demonstrando que algumas definições no Glossário consideradas erróneas surgem quer em “A Chave para a Teosofia”, quer em “A Voz do Silêncio”, concluindo as suas observações da seguinte forma:

“Na elaboração dos manuscritos do “Glossário Teosófico”, Madame Blavatsky compilou definições de termos de mais de uma dúzia de livros académicos. Em vários das entradas deste material compilado, HPB adicionou a sua “interpretação ocultista” ou ponto de vista esotérico.

Muitos dos erros encontrados no Glossário são derivados de erros nos livros a partir dos quais HPB extraiu as definições."



À luz do acima expresso, conclui Caldwell, não existem razões para acusar GRS Mead de adicionar material ao manuscrito do Glossário Teosófico depois da morte de HPB.

Matthew Webb, um associado britânico da Loja Unida de Teosofistas é menos argumentativo, mas mais duro na apreciação desta controvérsia.

Na primeira parte do seu artigo, Webb constata o óbvio: “a declaração de que HPB só viu ‘as primeiras trinta e duas páginas das provas tipográficas’ não é a mesma coisa que dizer que ela somente viu as primeiras trinta e duas páginas do livro de 389 páginas [na versão em inglês, em português são 777]. Está-se simplesmente a dizer que ela não teve a oportunidade de verificar tudo o que havia escrito de forma a confirmar que estava pronto para publicação, nem tão pouco completar o volume com a amplitude que ela originalmente pretendia.”


HP Blavatsky

Webb continua: “Portanto o Glossário Teosófico não é de modo algum completo ou exaustivo – embora contenha muitas entradas para cada letra, de A a Z – nem são todas as entradas necessariamente exatas como poderiam ser se HPB tivesse vivido mais tempo e tivesse sido capaz de supervisionar a publicação do trabalho ela própria, e estes são factos que nenhum teosofista alguma vez negou.

O que negamos, contudo, é a afirmação ridícula e sem fundamento (…) de que o livro não deve ter o nome H.P. Blavatsky como sua autora.”

Referindo não ser esta uma crítica pessoal , nem negar a boa fé dos que defendem a visão que Webb denuncia, ele acrescenta não existir  uma “lógica clara por trás dela. Inferir que GRS Mead era ele próprio responsável pela maior parte das entradas do Glossário é dar um ilógico e gigantesco salto das afirmações feitas e factos verificáveis para uma conclusão manifestamente errónea.


Uma biografia de Mead
existente em português


O teosofista britânico releva a utilidade do Glossário, sendo também da opinião que de Zirkoff foi precipitado nas suas conclusões e que não pode ser imputada a Blavatsky responsabilidades por erros que ela não teve a oportunidade de corrigir.

Webb termina o seu artigo, afirmando que algumas pessoas deixaram a Teosofia de lado depois de lerem discussões do género em fóruns de Teosofia na internet, discussões essas muitas vezes em tons exacerbados.

“Embora o conhecimento académico, história e a investigação todas tenham o seu lugar, fazemos bem em relembrar o que é a Teosofia e o movimento teosófico, e dessa forma menos tempo e energia será despendido em assuntos em última instância irrelevantes e mais bem investidos no verdadeiro auxílio e serviço ao sofrimento humano.

O que HPB escreveu na Introdução de “A Doutrina Secreta” pode ser aplicado ao trabalho dela  em geral, o de que “foi escrito para a instrução dos estudantes de Ocultismo e não para benefício dos filólogos.”

As alternativas

A verdade é que, embora não embarquem na teoria de que o nome de Blavatsky não deveria estar na capa do livro, grande parte dos teosofistas mais experientes é bastante cautelosa na abordagem ao Glossário, principalmente aqueles que têm conhecimentos de Sânscrito.

Existem contudo boas alternativas, que são também mencionadas no artigo de Aveline.

A principal será o Glossário Enciclopédico Teosófico [no original, Encyclopedic Theosophical Glossary], disponível no site da Sociedade Teosófica de Pasadena. Este Glossário é bastante maior que o editado por Mead, estando corrigido de muitos dos erros apontados ao Glossário original. O mesmo constitui uma expansão do Glossário do Oculto [Occult Glossary] publicado em 1933 por um respeitado líder da ST Pasadena, Gottfried de Purucker (GdeP), e que está disponível aqui. Contudo, em relação a este Glossário há quem também tenha as suas reservas, nomeadamente em relação a algumas “inovações” de GdeP, que se considera não estarem completamente em linha com a Teosofia de Blavatsky/Mestres.


Gottfried de Purucker

Contudo, tudo pesado, também da minha parte considero ser a melhor opção. Este Glossário só esta disponível online existindo uma  versão do mesmo em pdf que circula entre alguns estudantes.

Outra alternativa, embora não tão completa é a Enciclopédia Teosófica (ET), que está também disponível online, embora exista uma versão em livro que pode ser encomendada a partir da Secção das Filipinas da Sociedade Teosófica. Embora não tão rica em termos de terminologia como o Glossário da ST Pasadena, a Enciclopédia tem também várias entradas sobre os teosofistas mais conhecidas, bem como sobre pessoas influenciadas pela Sabedoria Perene. A ET resulta do esforço combinado de várias pessoas, entre as quais Vicente Hao Chin Jr. e John Algeo (editor geral).




Também acessível pela internet está a Wiki da Sociedade Teosófica, que seguindo aquele formato popularizado pela wikipedia, é atualizada com bastante frequência e progressivamente vai se tornando mais exaustiva. Existe um portal específico para as cartas dos Mahatmas e para HPB. É possível que esta wiki se venha a tornar num instrumento essencial para muitos estudantes de Teosofia, sendo admissível que surjam versões noutras línguas que não o inglês. Na verdade, em língua portuguesa, o único Glossário disponível é mesmo o editado por Mead, objeto da controvérsia que este post (e o da semana passada) deu a conhecer. 

sábado, 28 de dezembro de 2013

Gottfried de Purucker e a autoconfiança

Gottfried de Purucker (abreviadamente GdeP) foi um dos grandes líderes de uma das Sociedades Teosóficas, no caso, a Sociedade Teosófica de Point Loma (que em 1951 haveria de se dividir numa guerra de sucessão entre James Long e William Hartley, ficando o primeiro a liderar a atual Sociedade Teosófica de Pasadena enquanto alguns elementos que haviam sido expulsos ou que saíram voluntariamente constituíram a chamada tradição de Point Loma, da qual a principal representante é neste momento a Blavatsky House-ST Point Loma). De Purucker esteve à frente da referida organização entre 1929 e 1942, sucedendo à controversa Katherine Tingley, que por sua vez tinha herdado a sua posição de William Quan Judge, um dos fundadores da Sociedade Teosófica original. O principal contributo de GdeP terá sido o de ter procurado tornar mais acessível a literatura deixada por Helena Blavatsky, tentando inclusive desenvolver alguns pontos (o que lhe granjeou algumas críticas de desvirtuação dos conceitos da chamada Teosofia original). No entanto, na generalidade, o trabalho de GdeP é olhado com respeito, independentemente do quadrante do movimento teosófico que se lhe refere.


Katherine Tingley (1847-1929)


Um de sete irmãos, Hobart Lorenz Gottfried von Purucker nasceu em Suffern, Nova Iorque a 15 de janeiro de 1874. Pouco depois dos seus sete anos, e enquanto vivia no Texas, GdeP foi acometido de febre tifóide, tendo sido declarado morto pelo médico. Em 1997, o High Country Theosophist republicou um texto onde GdeP confessava que, tal como tinha acontecido com William Judge, também no caso dele, tinha havido uma ocupação de um corpo moribundo por um chela tibetano. Em 1888, a família instalou-se na Suíça, onde GdeP recebeu educação do seu pai, de vários tutores e também no Colégio de Genebra. A intenção do pai de GdeP era prepará-lo para uma vida eclesiástica, tendo-lhe ensinado Hebraico, Grego e outras línguas, como o Italiano e o Espanhol. Vivendo na Suíça, aprendeu francês e falava também Alemão (língua paterna) e Inglês (língua materna). Ainda adolescente, já fazia traduções de textos religiosos em Grego e Hebraico. Com o passar dos anos, GdeP começou a se interessar por textos de proveniência oriental, tendo começado a estudar Sânscrito ainda antes dos 18 anos. 

Gottfried de Purucker em 1892

É nessa altura também que descobre a Teosofia, algo que o ”sobressalta”. O efeito foi profundo:

“O meu coração despertou, tal como a minha mente tinha despertado antes. Mas agora, fruto do estudo da literatura teosófica, o meu coração despertando, eu comecei a perceber o que existia, não só em mim, mas nos meus companheiros; e eu disse a mim mesmo: De agora em diante a minha vida será consagrada àquilo que eu sei ser a Verdade.” (Questions we all ask, 2:514)”.

Em 1892, GdeP viajaria até San Diego, Califórnia, onde um dia assistiu a uma palestra de Teosofia. No dia seguinte visitou uma biblioteca teosófica e a partir desse dia passou a estudar Teosofia diariamente. No ano seguinte filiou-se na Sociedade Teosófica (na altura ainda não se tinha registado divisões) e em 1894 conheceu Judge. Na Loja de San Diego organizaria um curso sobre a Doutrina Secreta, “moderando e guiando os estudos dos seus membros, a maior parte dos quais eram consideravelmente mais velhos do que ele”. É a GdeP que se atribuiu a primeira ideia da construção de uma grande instituição teosófica em Point Loma, que viria ser a sede durante mais de 40 anos, da Sociedade Teosófica criada por William Judge. Até ao final do século, GdeP viajaria pela Europa onde conheceu Katherine Tingley, a sucessora de Judge. Em 1903 junta-se a Tingley em Point Loma, onde trabalharia incansavelmente não só dando palestras, mas também ocupando-se da gestão e trabalho burocrático da Sociedade. Entre 1924 e 1927 ministrou um conjunto de sessões a estudantes do grupo esotérico de Tingley sobre a “Doutrina Secreta” que viriam a ser compiladas em Fundamentals of the Esoteric Philosophy (1932), uma das obras mais conhecidas de GdeP.

A imponente sede da Sociedade Teosófica e Fraternidade
Universal  em Point Loma

Em meados de julho de 1929, Tingley morre na Suécia na sequência de complicações derivadas de um acidente de viação ocorrido um mês e meio antes na Alemanha. Quinze dias depois do falecimento de Tingley, GdeP assume a líderança da Sociedade Teosófica e Fraternidade Universal (o nome então da Sociedade Teosófica, hoje conhecida como “de Pasadena”) passando a atuar também como líder externo da Secção Esotérica. Um das primeiras medidas tomadas por GdeP foi o de encurtar o nome da organização para Sociedade Teosófica. Ele tinha também o objetivo de dinamizar a Sociedade, aumentar o número de membros e torná-los mais participativos, não só na divulgação da Teosofia, mas também na realização de atividades. O secretário Geral Joseph H. Fussell, resumiu a administração de GdeP da seguinte forma:

“O amor é o cimento do Universo.

Aprende a perdoar. Aprende a amar.

Cada um de vós é um Deus encarnado. Que assim seja!”

GdeP, J.Fussell e
Elsie Savage na Suécia (1931)


GdeP tentou também fomentar o diálogo entre as diferentes organizações que se formaram a partir da Sociedade Teosófica matriz. Vários foram os convidados para uma convenção realizada em 1931, para comemoração do centenário do nascimento de Helena Blavatsky. Nesse encontro, o discurso de GdeP era intitulado “Fraternidade no Movimento teosófico”. A iniciativa de GdeP não foi completamente coroada de sucesso, mas as tensões e rivalidade entre os vários grupos teosóficos baixaram de tom.

Foi também durante a administração de GdeP que se desenhou o que viriam a ser os Collected Writings (Escritos Reunidos) de HPB, para os quais Boris de Zirkoff havia começado a reunir documentos em 1924. Quatro dos catorze volumes (existe ainda o volume XV que é um índice) dos Collected Writings foram publicados entre 1933 e 1936 (mais tarde esses quatro volumes seriam alvo de uma revisão, sendo publicados pela ST Adyar).

Iniciaram-se também durante a liderança de GdeP os trabalhos de um novo e aumentado Glossário Teosófico que “passasse o teste académico e também o teste de fidelidade para com os ensinamentos de sabedoria universal reapresentados por H.P. Blavatsky”. Embora tivesse passado pela mão de diversos líderes daquela Sociedade o volume nunca foi publicado em papel, embora esteja disponível online.

A principal mais-valia dos escritos de GdeP é a apresentação panorâmica das ideias fundamentais da Teosofia moderna conforme foram transmitidas por HPB e os seus instrutores. Embora às vezes consideradas controversas no seu tempo, particularmente por teosofistas das outras organizações, as suas ideias e interpretações estão firmemente enraizadas nos escritos de Blavatsky. Na verdade tudo aquilo sobre que GdeP falou pode ser encontrado nos trabalhos dela, de forma mais ou menos desenvolvida. Frequentemente, ele apelava aos leitores para “saírem fora da caixa”, usarem a intuição e irem para lá dos hábitos limitativos do pensamento.

Foto de De Purucker já perto do final da sua vida


Além de Fundamentals of the Esoteric Philosophy (1932), Golden Precepts of Esotericism (1931) e The Esoteric Tradition (1935) são as principais obras de GdeP. Nesta última ele discorre sobre os conceitos de karma, reeencarnação, morte e renascimento, a relação da Teosofia com a ciência, religião e filosofia. Mas existem mais livros da sua autoria…

Em termos de administração, o período que abarcou a liderança de De Purucker não foi fácil, seguindo-se à Grande Depressão. A sucessão de problemas financeiros levou-o a trocar Point Loma por instalações mais modestas em Covina, no ano de 1942. Poucos meses depois da mudança, mais exatamente a 27 de setembro de 1942, GdeP viria a falecer.



GdeP deixou um valioso legado através da sua exposição profunda da sabedoria perene, não apenas nos seus aspetos intelectuais mas mais particularmente na sua dimensão ética e intuitiva. Ele procurava inspirar os seus ouvintes e leitores no estabelecimento de um equilíbrio entre o intelecto, a compaixão e a intuição e instava-os a guiarem os seus aspetos limitados e auto-centrados pelo seu Eu espiritual universal. A união do ser humano com o deus interior é a grande tarefa de cada indivíduo. Trazer ao máximo número de pessoas possível a “Visão Sublime” das realidades espirituais por trás do universo material, do qual de cada de nós é parte inseparável, era o seu objetivo.

Este resumo biográfico é uma adaptação do texto de Sarah Belle Dougherty publicada na extinta revista Sunrise (edição de abril/maio de 2000).



O motivo deste post foi uma mensagem colocada no Theosophy Forum pelo conhecido teosofista Nicholas Weeks com um diálogo entre um estudante e GdeP, retirado do 1º volume de Dialogues of G. de Purucker (p.149-150), que de seguida se traduz.

"Estudante – Mas não deve o próprio aspirante fazer todos os esforços possíveis para atingir a vitória?

G de P – Certamente, ele tem que dar todos os passos ao longo do caminho para a vitória. Ele não é conduzido lá. Cada passo tem de ser dado por ele. Como poderia ser de outra maneira? Os humanos adultos não são alimentados como bebés. Nós alimentamo-nos, mantemo-nos informados, ensinamo-nos, fazemos o nosso caminho no mundo, e se isso é uma necessidade na existência humana comum, posso dizer que é dez vezes a mesma necessidade na vida esotérica. Aí temos que vencer tudo. E porquê? Porque estamos simplesmente a trazer para fora aquilo que está dentro de nós, a nossa própria vontade, a nossa própria consciência tem de ser desperta, completamente desperta e através dos nossos próprios esforços.

Não podemos ver a não ser que usemos a faculdade da visão. Não podemos compreender através da mente de outrem. Não é isso evidente? Temos de adquirir tudo o que viermos a ter no treino esotérico. E isto é porque, para aqueles que não entendem, existem aspetos do treino esotérico que podem parecer um pouco difíceis, porque as pessoas no Ocidente foram criadas na ideia de que elas devem ser conduzidas à vitória, salvas pelo “sangue do Cordeiro” e todo esse tipo de disparates.

Isto recorda-me dos ensinamentos dos “Escurinhos”, os Irmãos da Sombra, com o intuito de por todos a dormir, tentando minimizar os impulsos espirituais individuais do nosso próprio ser!

Não, o contrário é que é verdade! Não podemos viver através dos outros. Temos que despertar a chama sagrada na nossa própria alma. E o mesmo acontece com cada um dos outros passos no progresso espiritual e intelectual que fazemos.

Como é possível experienciar a alegria inefável de ser Um com o Todo, apenas por ouvir que alguém atingiu esse estado? Nós próprios temos de ser o veículo de luz interior, devemos adquiri-la. Está acima e dentro de nós, dando-nos força e inspirando-nos. Sejamos essa luz!

PS - Depois de uma troca de impressões com alguns teosofistas ligados à ST de Point Loma, foi alterado a 4/1/2014, o primeiro parágrafo, de modo a retratar de modo mais fiel as consequências dos acontecimentos verificados em 1951 naquela Sociedade Teosófica. Foi também trocada a palavra "presidência" por "liderança" numa das passagens do texto, pois não existe a figura de presidente nesta ST.