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sábado, 14 de junho de 2014

A controvérsia em torno do Glossário Teosófico (2ª parte)

Nesta segunda parte, veremos a resposta daqueles que recusam a ideia do Glossário Teosófico ser uma obra a evitar, considerando ao mesmo tempo legítima a ideia de Blavatsky ser apresentada como autora da obra. É naturalmente imprescindível ler a primeira parte, publicada a semana passada.

A contestação às ideias de Aveline sobre o Glossário

Depois da distribuição do texto de Aveline pelos canais habituais usados pelo grupo de estudantes congregado pelo teosofista brasileiro, a resposta não se fez esperar. Vamos abordar aqui duas dessas reações, a de Daniel Caldwell e a de Matthew Webb.

Caldwell é um veterano estudante de Teosofia, que gere o portal mais completo sobre HPB, o Blavatsky Study Center. Já editou vários livros, um deles traduzido para português - “O Mundo Esotérico de Madame Blavatsky”, editado no Brasil pela Madras. Mais recentemente Caldwell, editou “Laura Holloway e os Mahatmas” e antes “The Esoteric Papers of Madame Blavatsky”, que contém fac-similes de diverso material importante na história do movimento. Há ainda uma compilação de Caldwell para introdução à Teosofia em forma de e-book.




Na sua argumentação, Caldwell junta a questão do Glossário com a controvérsia (mais uma!)  em relação ao terceiro volume de “A Doutrina Secreta” (que corresponde ao quinto e sexto volumes na edição em língua portuguesa), publicado também já depois da morte de Blavatsky e que alguns consideram ter sido um acrescento da exclusiva responsabilidade de Besant e Mead. Outras questões delicadas afligem essa edição, a partir do qual foi feita a única tradução para português hoje existente.  Mas cada coisa a seu tempo; essa história será aqui trazida oportunamente.

Em 1891, quer Olcott, quer Besant falavam da preparação de um glossário “com termos em Sânscrito e outros noutras línguas orientais”.


Annie Besant, Cel. Olcott (sentado) e WQ Judge


Blavatsky, no prefácio da 2ª edição em inglês de “A Chave para a Teosofia” (a edição em língua portuguesa foi feita a partir da 1ª edição e não tem Glossário) escreve que adicionou “um copioso Glossário de todos os termos técnicos encontrados [em “A Chave”]. A maior parte das definições e explicações são transcrições ou abreviaturas do “Glossário Teosófico” maior, que será em breve publicado”. Isto foi escrito no outono de 1890, mais de meio ano antes da morte de HPB. Um a um, Caldwell desmonta os argumentos de quem sustenta, a não responsabilidade de Blavatsky na edição do Glossário.

HPB foi acusada de plágio, tendo William Emmette Coleman sido um dos principais detratores do trabalho da Velha Senhora. Ele identificou mais de 1 000 dos cerca de 2 800 termos como sendo copiados de outros livros. Essa avaliação foi confirmada por Boris de Zirkoff, embora a contabilidade dos termos supostamente plagiados tenha sido menor. Contudo no próprio prefácio do Glossário são explicitamente citados esses livros como fontes. Somado a isso, há a referir que Blavatsky fez inúmeros acrescentos da sua própria autoria, a maior parte de natureza ocultista.


De Zirkoff na capa da última
"Theosophia" (Foto:TS wiki)

Caldwell prossegue na sua argumentação, demonstrando que algumas definições no Glossário consideradas erróneas surgem quer em “A Chave para a Teosofia”, quer em “A Voz do Silêncio”, concluindo as suas observações da seguinte forma:

“Na elaboração dos manuscritos do “Glossário Teosófico”, Madame Blavatsky compilou definições de termos de mais de uma dúzia de livros académicos. Em vários das entradas deste material compilado, HPB adicionou a sua “interpretação ocultista” ou ponto de vista esotérico.

Muitos dos erros encontrados no Glossário são derivados de erros nos livros a partir dos quais HPB extraiu as definições."



À luz do acima expresso, conclui Caldwell, não existem razões para acusar GRS Mead de adicionar material ao manuscrito do Glossário Teosófico depois da morte de HPB.

Matthew Webb, um associado britânico da Loja Unida de Teosofistas é menos argumentativo, mas mais duro na apreciação desta controvérsia.

Na primeira parte do seu artigo, Webb constata o óbvio: “a declaração de que HPB só viu ‘as primeiras trinta e duas páginas das provas tipográficas’ não é a mesma coisa que dizer que ela somente viu as primeiras trinta e duas páginas do livro de 389 páginas [na versão em inglês, em português são 777]. Está-se simplesmente a dizer que ela não teve a oportunidade de verificar tudo o que havia escrito de forma a confirmar que estava pronto para publicação, nem tão pouco completar o volume com a amplitude que ela originalmente pretendia.”


HP Blavatsky

Webb continua: “Portanto o Glossário Teosófico não é de modo algum completo ou exaustivo – embora contenha muitas entradas para cada letra, de A a Z – nem são todas as entradas necessariamente exatas como poderiam ser se HPB tivesse vivido mais tempo e tivesse sido capaz de supervisionar a publicação do trabalho ela própria, e estes são factos que nenhum teosofista alguma vez negou.

O que negamos, contudo, é a afirmação ridícula e sem fundamento (…) de que o livro não deve ter o nome H.P. Blavatsky como sua autora.”

Referindo não ser esta uma crítica pessoal , nem negar a boa fé dos que defendem a visão que Webb denuncia, ele acrescenta não existir  uma “lógica clara por trás dela. Inferir que GRS Mead era ele próprio responsável pela maior parte das entradas do Glossário é dar um ilógico e gigantesco salto das afirmações feitas e factos verificáveis para uma conclusão manifestamente errónea.


Uma biografia de Mead
existente em português


O teosofista britânico releva a utilidade do Glossário, sendo também da opinião que de Zirkoff foi precipitado nas suas conclusões e que não pode ser imputada a Blavatsky responsabilidades por erros que ela não teve a oportunidade de corrigir.

Webb termina o seu artigo, afirmando que algumas pessoas deixaram a Teosofia de lado depois de lerem discussões do género em fóruns de Teosofia na internet, discussões essas muitas vezes em tons exacerbados.

“Embora o conhecimento académico, história e a investigação todas tenham o seu lugar, fazemos bem em relembrar o que é a Teosofia e o movimento teosófico, e dessa forma menos tempo e energia será despendido em assuntos em última instância irrelevantes e mais bem investidos no verdadeiro auxílio e serviço ao sofrimento humano.

O que HPB escreveu na Introdução de “A Doutrina Secreta” pode ser aplicado ao trabalho dela  em geral, o de que “foi escrito para a instrução dos estudantes de Ocultismo e não para benefício dos filólogos.”

As alternativas

A verdade é que, embora não embarquem na teoria de que o nome de Blavatsky não deveria estar na capa do livro, grande parte dos teosofistas mais experientes é bastante cautelosa na abordagem ao Glossário, principalmente aqueles que têm conhecimentos de Sânscrito.

Existem contudo boas alternativas, que são também mencionadas no artigo de Aveline.

A principal será o Glossário Enciclopédico Teosófico [no original, Encyclopedic Theosophical Glossary], disponível no site da Sociedade Teosófica de Pasadena. Este Glossário é bastante maior que o editado por Mead, estando corrigido de muitos dos erros apontados ao Glossário original. O mesmo constitui uma expansão do Glossário do Oculto [Occult Glossary] publicado em 1933 por um respeitado líder da ST Pasadena, Gottfried de Purucker (GdeP), e que está disponível aqui. Contudo, em relação a este Glossário há quem também tenha as suas reservas, nomeadamente em relação a algumas “inovações” de GdeP, que se considera não estarem completamente em linha com a Teosofia de Blavatsky/Mestres.


Gottfried de Purucker

Contudo, tudo pesado, também da minha parte considero ser a melhor opção. Este Glossário só esta disponível online existindo uma  versão do mesmo em pdf que circula entre alguns estudantes.

Outra alternativa, embora não tão completa é a Enciclopédia Teosófica (ET), que está também disponível online, embora exista uma versão em livro que pode ser encomendada a partir da Secção das Filipinas da Sociedade Teosófica. Embora não tão rica em termos de terminologia como o Glossário da ST Pasadena, a Enciclopédia tem também várias entradas sobre os teosofistas mais conhecidas, bem como sobre pessoas influenciadas pela Sabedoria Perene. A ET resulta do esforço combinado de várias pessoas, entre as quais Vicente Hao Chin Jr. e John Algeo (editor geral).




Também acessível pela internet está a Wiki da Sociedade Teosófica, que seguindo aquele formato popularizado pela wikipedia, é atualizada com bastante frequência e progressivamente vai se tornando mais exaustiva. Existe um portal específico para as cartas dos Mahatmas e para HPB. É possível que esta wiki se venha a tornar num instrumento essencial para muitos estudantes de Teosofia, sendo admissível que surjam versões noutras línguas que não o inglês. Na verdade, em língua portuguesa, o único Glossário disponível é mesmo o editado por Mead, objeto da controvérsia que este post (e o da semana passada) deu a conhecer. 

sábado, 8 de março de 2014

A influência da Teosofia em personalidades famosas I - Músicos

Katinka Hesselink era até há pouco tempo uma das teosofistas mais ativas no mundo da internet. Contudo, desiludida com as cúpulas da Sociedade Teosófica de Adyar, virou-se para o Budismo. As suas opiniões colocadas em blogues e sites eram bastante lidas, bem como muitos dos seus interessantes artigos.

Há dias, numa pesquisa no Google, acabei por localizar um desses artigos – uma extensa lista de pessoas conhecidas que foram tocadas pela Teosofia, uns de modo mais profundo, outros nem tanto. Katinka Hesselink autorizou a tradução do artigo que foi elaborado entre 2006 e 2010, mas ao longo da mesma achei por bem adicionar umas notas entre parenteses retos e eliminar algumas partes que me pareceram mais irrelevantes. 

Katinka Hesselink


Também procedi à ordenação alfabética dentro de cada categoria. Muitas das referências do artigo original vêm da wikipedia, que não será a melhor das fontes para um tema tão específico como é o da Teosofia. Por isso e aproveitando o facto da “Theosophical Encyclopedia” (E.T.) estar online fiz uma adaptação do conteúdo original, com a permissão da Katinka, e o que se encontra dentro dos parenteses retos é em praticamente todos os casos extraído da E.T..

Este texto será colocado no Lua em Escorpião dividido em seis secções ao longo de várias semanas, intercalando com outros posts, pois não existe propriamente continuidade entre cada uma das secções (uma delas, a das figuras religiosas e espirituais, por ser extensa, será partida em duas partes). As personalidades estão agregadas em várias categorias: escritores, cientistas e inventores, pintores, músicos, políticos, arquitetos, atores, psicólogos, feministas e figuras religiosas e espirituais.

O facto de determinada personalidade constar desta lista não significa que o seu contributo tenha sido, na minha opinião, positivo. Esse é o caso do casal Ballard, que iniciou o movimento “I AM”, um conjunto de ilusões e mistificações à volta dos “Mestres Ascensos”. Há também uma menção a um antigo presidente de El Salvador que só consta da lista por estar referenciado no artigo original, pois as suas ideias e práticas estão nos antípodas do que defende a Teosofia.

O objetivo do artigo, para o qual avançamos já de seguida, é mostrar a amplitude da influência da Teosofia nestes quase 140 anos que passaram sobre a fundação da Sociedade Teosófica.




Este é um inventário provisório do impacto da Sociedade Teosófica no mundo. Baseia-se bastante no trabalho de John Algeo. Algumas coisas foram adicionadas, embora a minha fonte para elas sejam meramente rumores no meio teosófico. Estes casos necessitam obviamente de maior investigação. Eu (ainda) não incluí as fontes de referência adequadas, o que com o tempo acontecerá. De momento esta lista apenas inclui pessoas da Sociedade Teosófica de Adyar. Isto não é uma questão política, mas o reflexo do meu conhecimento nesta área. Se alguém consegue indicar pessoas de outras organizações teosóficas que tiveram um impacto significativo na sociedade, contactem-me por favor.

Tenho consciência que este é um campo de estudo problemático: o que constitui exatamente influência? Contudo, penso que é possível dar algum tipo de resposta à questão da influência da Sociedade Teosófica fazendo um inventário de destacados inovadores culturais que foram membros da Sociedade Teosófica. Se se consegue encontrar um número significativo, então é plausível que uma organização relativamente pequena tenha tido uma influência relativamente elevada no Oriente e no Ocidente. Como demonstra a lista, nem sempre é fácil mostrar como a Sociedade Teosófica ou os seus ideais e ensinamentos fizeram diferença no método ou nas perspetivas de certas pessoas. De qualquer modo, julgo ser útil para os historiadores da área da cultura estarem conscientes das filiações na Sociedade Teosófica. Para os membros da Sociedade Teosófica pode ser interessante saber as contribuições que outros membros tiveram no mundo.

Algumas pessoas que constam da lista nunca foram membros da Sociedade Teosófica (S.T.), e nesses casos foi adicionada uma nota. Elas constam da mesma devido aos seus interesses espirituais, ou devido ao seu contacto com teosofistas, mesmo que nunca se tenham filiado.

Esta lista tornou-se em parte desnecessária porque a Enciclopédia Teosófica (doravante E.T.) também fornece um inventário considerável. [NT: Esta enciclopédia existe em forma de livro, mas também está disponível gratuitamente na internet em formato wiki].




MÚSICOS

Ruth Crawford-Seeger (1901-1953) – compositora [norte-americana, influenciada por Scriabin e interessada pelo misticismo oriental, segundo refere o wikipedia].

Gustav Mahler (1860-1911), compositor de sinfonias [Segundo Cranston escreveu na sua biografia de HPB, quer Mahler quer Sibelius tinham muitas ligações ao meio teosófico e uma firme crença na reencarnação (p.533 da edição em língua portuguesa)].




Elvis Presley (1935-1977) - músico norte-americano de rock & roll.

Dane Rudhyar (1895-1985) – compositor [francês. A E.T. refere que foi influenciado por Scriabin. Rudhyar é especialmente conhecido pelo seu papel enquanto grande dinamizador da astrologia humanista, que depois transformou em transpessoal. Esta nova visão da astrologia caracterizava-se por ser menos determinista, com a ação dos planetas a constituir um conjunto de forças psicológicas nos indivíduos, mas sem condicionar de modo absoluto  o seu livre-arbítrio. Casou com uma secretária de um teosofista independente e foi próximo de Alice Bailey, de quem falaremos na secção V].


Dane Rudhyar
(foto retirada de beyondsunsigns.com)


Cyril Scott (1879-1970) - compositor e autor [Segundo a E.T. aderiu à S.T. em 1914, depois de ouvir uma palestra de Annie Besant. Alegava ligações a um mestre. Proponente do vegetarianismo].

Alexandre Nikolayevich Scriabin (1872-1915), compositor russo. As ideias teosóficas forneceram a base para o “Poema da Êxtase” (1908) e para “Prometeu” (1910), que necessitava da projeção de cores num ecrã durante o concerto. [Segundo a E.T., Scriabin era um grande entusiasta de Blavatsky e da Teosofia. A sua síntese das cores com a música lembra as correspondências como Hermetismo. ”Prometeu” invoca as Estâncias de Dzyan, e a sua síntese inacabada das artes, “Mistério”, é essencialmente a visão teosófica da futura transformação da humanidade].




Jean Sibelius (1865-1957) – finlandês, compositor musical inspirado pelo Kalevala.[ver Mahler]