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sábado, 15 de março de 2014

Como uma borboleta na sua crisálida

Daniel Caldwell é um dos mais conhecidos investigadores no campo da Teosofia, particularmente de todo o universo relacionado com Helena Blavatsky. Conhece como poucos a vida de HPB e sabe imensos detalhes sobre as inúmeras controvérsias da história do movimento teosófico, as diferenças sobre edições de livros, as datas de certos acontecimentos, as diferentes perspetivas sobre determinado conceito, etc…uma verdadeira enciclopédia, vertida no seu Blavatsky Study Center, o portal existente com mais conteúdos sobre Teosofia e HPB. Tem tanto material que duvido que alguém o tenha explorado na sua totalidade. Será a porta de entrada mais provável para aqueles que procuram as primeiras informações sobre Teosofia e HPB (em língua inglesa, naturalmente).


Helena Blavatsky (1831-1891)


Caldwell já editou três livros, um deles traduzido para português, “O Mundo Esotérico de Madame Blavatsky” que foi um dos meus primeiros contactos com Blavatsky. Um livro que já reli e que permanece como um dos meus favoritos. No fundo, é uma espécie de biografia de Blavatsky com base numa série de relatos de quem a conheceu, quer daqueles que lhe eram mais próximos, quer de pessoas que só a viram por uma vez. Também há lugar para aqueles que não gostaram (e não gostavam) da Velha Senhora.

Nem todos são apreciadores do trabalho de Caldwell, que já se envolveu em várias polémicas na internet e que fez parte do grupo de trabalho envolvido na controversa edição do I volume das Cartas de HPB, liderado por John Algeo, cujas deficiências foram referidas num artigo da revista Biosofia. A publicação de textos críticos para com algumas das práticas da Loja Unida de Teosofistas (LUT), bem como algumas referências à história desta organização e aos seus líderes acarretaram uma ligação um pouco difícil com certos elementos desta estrutura. “O Mundo Esotérico de Madame Blavatsky” foi inclusive alvo de uma dura crítica de Jerome Wheeler, um decano da LUT, a meu ver um pouco exagerada, pois na altura em que li o livro fiquei com uma ideia de HPB que mantenho até hoje, a de uma mulher extraordinária, a quem o mundo muito deve.





Mais recentemente Caldwell, editou “Laura Holloway e os Mahatmas” e antes “The Esoteric Papers of Madame Blavatsky”, que contém fac-similes de diverso material importante na história do movimento, como sejam as regras e  as primeiras instruções para os membros da Secção Esotérica e transcrições das reuniões do Grupo Interno (Inner Group). Há ainda uma compilação de Caldwell para introdução à Teosofia em forma de e-book.


Esta introdução antecede a tradução de uma interessante subpágina do Blavatsky Study Center sob o processo pós-morte e que se intitula “Como uma borboleta na sua crisálida“. Caldwell autorizou a sua tradução para português, ficando aqui desde já o meu agradecimento.


Como uma borboleta na sua crisálida

As esferas intermediárias (…) são os grandes pontos de paragem, as estações nas quais são gerados os futuros Egos autoconscientes, a prole auto-engendrada dos Egos antigos e desencarnados no nosso planeta. Antes que a nova Fénix, renascida das cinzas dos seus pais, possa voar mais alto para um mundo melhor, mais espiritual e mais perfeito…tem que passar pelo processo de um novo nascimento...”


“(…) naquele mundo de sombras o Ego-feto, novo e ainda inconsciente, transforma-se na vítima merecida das transgressões do seu último Eu, cuja carma – mérito e demérito - criará sozinho o seu futuro destino. Naquele mundo (…) nós só encontramos máquinas ex-humanas, inconscientes e autómatas; almas em estado de transição, cujas faculdades e individualidades adormecidas estão como uma borboleta na sua crisálida; e os Espíritas esperam que elas falem com sensatez…!”

Mestre KH, [Cartas dos Mahatmas para A.P.Sinnett, carta 18 (por ordem cronológica), vol I, p.125 da edição em português]

Usando o ciclo de vida da borboleta-monarca, tentemos ilustrar as palavras do Mestre KH.


Imagens 1 e 2 : o Mundo Físico


1
2

A fase da lagarta representa o ser humano durante a sua vida no plano físico. É a nossa personalidade humana.

A lagarta da borboleta monarca tem um apetite voraz por serralha e passa a sua vida enquanto naquele estádio a se alimentar…da mesma forma que os seres humanos têm apetite por experiências – físicas, emocionais, mentais, etc…

Imagens 3 a 10: Kama-loka

Naquele mundo (...) nós só encontramos máquinas ex-humanas, inconscientes e autómatas, almas em estado de transição..." [op.cit, carta 18, vol. I, p.25]


3
4

Quando o ser humano morre de morte natural normal, a personalidade entra numa fase de casulo no Kama-loka. Tem lugar uma transformação e apenas as partes “superiores” da personalidade  são assimiladas pelo nosso “Deus” interior, ou seja, dá-se a “ressuscitação”…no Devachan…a fase da borboleta. As partes inferiores da nossa personalidade são descartadas…tornando-se uma casca.


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Existem contudo exceções…vidas interrompidas pelo doença, acidentes, assassinatos, suicídios, abortos. Veja-se o que escreve Plutarco [também n'"A Chave para a Teosofia", p.94 a 96]


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O Mestre KH escreve:

“Aquele que possui as chaves dos segredos da Morte é possuidor das chaves da Vida.” [Cartas dos Mahatmas para A.P.Sinnett , carta 136, vol II, p.315]

E o Mestre M escreve:

“O sr. Hume [no seu artigo “Fragmentos da Verdade Oculta”] definiu perfeitamente a diferença entre personalidade e individualidade. A primeira dificilmente sobrevive; a segunda, para percorrer com êxito os seus cursos setenários descendente e ascendente, tem de incorporar em si mesma a força vital eterna que reside somente no sétimo princípio e então unir os três (quarto, quinto e sétimo) num – o sexto. Os que chegam a fazê-lo convertem-se em Budas, Dhyan Chohans, etc…O propósito principal dos nossos esforços e iniciações é alcançar esta união enquanto estamos na Terra." [op.cit., carta 44, vol. I, p.205-6]


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Ver aqui este texto em inglês com excertos de referências feitas por  HPB e pelos Mestres, bem como estas tabelas (1 e 2) do livro de Geoffrey Farthing, "When we die". Explicações sobre o Kama-loka e o Devachan podem ser encontradas em posts anteriores do Lua em Escorpião.

Imagens 11 e 12: Devachan


Uma vez acordadas do seu torpor pós-morte





A revitalização da consciência começa depois da luta no Kama-loka, às portas do Devachan e apenas depois do “período de gestação”.


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“Do Kama-loka (…) uma vez despertadas do seu torpor pós-morte, as “Almas” recém-transladadas vão todas (exceto as cascas), de acordo com as suas atrações, ou para o Devachan, ou para o Avitchi [estado de maldade espiritual, a antítese do Devachan].” [op.cit., carta 104, vol.II, p.190]

“Quando o sexto [Buddhi] e sétimo [Atman] princípios tiverem ido, levando consigo as partes mais finas e espirituais daquilo que certa vez foi a consciência pessoal do quinto princípio [Manas], só então a casca gradualmente desenvolve uma espécie de vaga consciência própria a partir do que permanece na sombra da personalidade.” [op.cit, carta 93B, vol.II, p.141]



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No chamado manuscrito de Wurzburg d’”A Doutrina Secreta” , HPB escreveu:

[Buddhi] é também o plano de existência no qual a individualidade espiritual evolui, e a partir do qual a personalidade é eliminada.”

Devemos portanto aprender a fazer de forma consciente nesta vida, aquilo que é feito automática e inconscientemente nos estados pós-morte.

sábado, 8 de março de 2014

A influência da Teosofia em personalidades famosas I - Músicos

Katinka Hesselink era até há pouco tempo uma das teosofistas mais ativas no mundo da internet. Contudo, desiludida com as cúpulas da Sociedade Teosófica de Adyar, virou-se para o Budismo. As suas opiniões colocadas em blogues e sites eram bastante lidas, bem como muitos dos seus interessantes artigos.

Há dias, numa pesquisa no Google, acabei por localizar um desses artigos – uma extensa lista de pessoas conhecidas que foram tocadas pela Teosofia, uns de modo mais profundo, outros nem tanto. Katinka Hesselink autorizou a tradução do artigo que foi elaborado entre 2006 e 2010, mas ao longo da mesma achei por bem adicionar umas notas entre parenteses retos e eliminar algumas partes que me pareceram mais irrelevantes. 

Katinka Hesselink


Também procedi à ordenação alfabética dentro de cada categoria. Muitas das referências do artigo original vêm da wikipedia, que não será a melhor das fontes para um tema tão específico como é o da Teosofia. Por isso e aproveitando o facto da “Theosophical Encyclopedia” (E.T.) estar online fiz uma adaptação do conteúdo original, com a permissão da Katinka, e o que se encontra dentro dos parenteses retos é em praticamente todos os casos extraído da E.T..

Este texto será colocado no Lua em Escorpião dividido em seis secções ao longo de várias semanas, intercalando com outros posts, pois não existe propriamente continuidade entre cada uma das secções (uma delas, a das figuras religiosas e espirituais, por ser extensa, será partida em duas partes). As personalidades estão agregadas em várias categorias: escritores, cientistas e inventores, pintores, músicos, políticos, arquitetos, atores, psicólogos, feministas e figuras religiosas e espirituais.

O facto de determinada personalidade constar desta lista não significa que o seu contributo tenha sido, na minha opinião, positivo. Esse é o caso do casal Ballard, que iniciou o movimento “I AM”, um conjunto de ilusões e mistificações à volta dos “Mestres Ascensos”. Há também uma menção a um antigo presidente de El Salvador que só consta da lista por estar referenciado no artigo original, pois as suas ideias e práticas estão nos antípodas do que defende a Teosofia.

O objetivo do artigo, para o qual avançamos já de seguida, é mostrar a amplitude da influência da Teosofia nestes quase 140 anos que passaram sobre a fundação da Sociedade Teosófica.




Este é um inventário provisório do impacto da Sociedade Teosófica no mundo. Baseia-se bastante no trabalho de John Algeo. Algumas coisas foram adicionadas, embora a minha fonte para elas sejam meramente rumores no meio teosófico. Estes casos necessitam obviamente de maior investigação. Eu (ainda) não incluí as fontes de referência adequadas, o que com o tempo acontecerá. De momento esta lista apenas inclui pessoas da Sociedade Teosófica de Adyar. Isto não é uma questão política, mas o reflexo do meu conhecimento nesta área. Se alguém consegue indicar pessoas de outras organizações teosóficas que tiveram um impacto significativo na sociedade, contactem-me por favor.

Tenho consciência que este é um campo de estudo problemático: o que constitui exatamente influência? Contudo, penso que é possível dar algum tipo de resposta à questão da influência da Sociedade Teosófica fazendo um inventário de destacados inovadores culturais que foram membros da Sociedade Teosófica. Se se consegue encontrar um número significativo, então é plausível que uma organização relativamente pequena tenha tido uma influência relativamente elevada no Oriente e no Ocidente. Como demonstra a lista, nem sempre é fácil mostrar como a Sociedade Teosófica ou os seus ideais e ensinamentos fizeram diferença no método ou nas perspetivas de certas pessoas. De qualquer modo, julgo ser útil para os historiadores da área da cultura estarem conscientes das filiações na Sociedade Teosófica. Para os membros da Sociedade Teosófica pode ser interessante saber as contribuições que outros membros tiveram no mundo.

Algumas pessoas que constam da lista nunca foram membros da Sociedade Teosófica (S.T.), e nesses casos foi adicionada uma nota. Elas constam da mesma devido aos seus interesses espirituais, ou devido ao seu contacto com teosofistas, mesmo que nunca se tenham filiado.

Esta lista tornou-se em parte desnecessária porque a Enciclopédia Teosófica (doravante E.T.) também fornece um inventário considerável. [NT: Esta enciclopédia existe em forma de livro, mas também está disponível gratuitamente na internet em formato wiki].




MÚSICOS

Ruth Crawford-Seeger (1901-1953) – compositora [norte-americana, influenciada por Scriabin e interessada pelo misticismo oriental, segundo refere o wikipedia].

Gustav Mahler (1860-1911), compositor de sinfonias [Segundo Cranston escreveu na sua biografia de HPB, quer Mahler quer Sibelius tinham muitas ligações ao meio teosófico e uma firme crença na reencarnação (p.533 da edição em língua portuguesa)].




Elvis Presley (1935-1977) - músico norte-americano de rock & roll.

Dane Rudhyar (1895-1985) – compositor [francês. A E.T. refere que foi influenciado por Scriabin. Rudhyar é especialmente conhecido pelo seu papel enquanto grande dinamizador da astrologia humanista, que depois transformou em transpessoal. Esta nova visão da astrologia caracterizava-se por ser menos determinista, com a ação dos planetas a constituir um conjunto de forças psicológicas nos indivíduos, mas sem condicionar de modo absoluto  o seu livre-arbítrio. Casou com uma secretária de um teosofista independente e foi próximo de Alice Bailey, de quem falaremos na secção V].


Dane Rudhyar
(foto retirada de beyondsunsigns.com)


Cyril Scott (1879-1970) - compositor e autor [Segundo a E.T. aderiu à S.T. em 1914, depois de ouvir uma palestra de Annie Besant. Alegava ligações a um mestre. Proponente do vegetarianismo].

Alexandre Nikolayevich Scriabin (1872-1915), compositor russo. As ideias teosóficas forneceram a base para o “Poema da Êxtase” (1908) e para “Prometeu” (1910), que necessitava da projeção de cores num ecrã durante o concerto. [Segundo a E.T., Scriabin era um grande entusiasta de Blavatsky e da Teosofia. A sua síntese das cores com a música lembra as correspondências como Hermetismo. ”Prometeu” invoca as Estâncias de Dzyan, e a sua síntese inacabada das artes, “Mistério”, é essencialmente a visão teosófica da futura transformação da humanidade].




Jean Sibelius (1865-1957) – finlandês, compositor musical inspirado pelo Kalevala.[ver Mahler]



sábado, 1 de março de 2014

A arte e o transcendente III

Desde a sua origem que a Sétima Arte tem acompanhado a evolução interior e exterior do Homem e contribuido para o despertar de consciências.

Este terceiro post da rubrica "A arte e o transcendente" será composto por diversas sugestões cinematográficas tendo como principal foco a espiritualidade e introspecção/reflexão.

Cá ficam algumas sugestões:

- Mindwalk (1990)

O filme "Mindwalk" é baseado no livro do físico Fritjof Capra, autor do livro "O Tao da Física".

O filme gira à volta de três personagens: um político frustrado, uma ex-cientista e um poeta.

Num casual encontro, ambos partilham as suas respectivas visões sobre o Homem e a Vida. Um filme que alia a ciência moderna com a sabedoria antiga.
IMDb
Link do Youtube para o filme (legendado PT)


- Giordano Bruno (1973)



Giordano Bruno, talvez a mais famosa vítima da Inquisição da Igreja Católica Romana, foi um teólogo e filósofo italiano que viveu no séc. XVI.

Foi um dos primeiros a romper com a concepção aristotélica de um mundo estático e tornou-se progressivamente num símbolo da luta contra o obscurantismo e/ou dogmatismo.

De realçar que diversas ideias defendidas por Giordano Bruno são idênticas às que encontramos na Teosofia.
IMDb
Links para a parte 1 do filme (legendado PT) e parte 2
(Um artigo da revista Biosofia sobre a vida de Giordano Bruno: Link)


- La Belle Vert (1996)



"(...), é uma divertida e criativa crítica ao estado actual da ¨civilização¨ sob a ótica de uma suposta visitante vinda de ¨outro planeta¨, que poderia ser uma versão otimista futura da Terra, após a decadência do presente paradigma de degradação ecológica, consumismo, poluição indústrial, moral e ética que está culminando com o presente patético dramático que vivemos." (fonte do texto)
Link para o filme com legendas em espanhol aqui


- Milarepa (2006)

Um dos mais famosos místicos tibetanos que viveu no séc. XI e XII.

O filme retrata o seu processo de evolução espiritual. Não só a sua dedicação à obtenção da iluminação espiritual como também os erros e obstáculos pelos quais passou.
IMDb


Abaixo o  filme com legendas em inglês.




- Mahabharata (1989)



Juntamente com o Ramayana, Mahabharata constitui um dos grandes épicos da Índia, atribuindo-se a sua autoria a Vyasa.

O Mahabharata é uma pedra basilar do hinduísmo e engloba várias temáticas incluindo a libertação do ciclo de morte e nascimento e os métodos de desenvolvimento espiritual.

O Bhagavad Gita, umas das partes de Mahabharata, é bastante citado pelos principais autores teosóficos.
IMDb
Link do Youtube para o filme (legendado, PT: parte 1 ; parte 2 ; parte 3)


- Samsara (2001)

"Samsara é uma ¨história de amor espiritual¨ filmada nas imponentes locações geladas dos Himalaias. Um jovem discípulo a monge, depois de passar três anos meditando solitariamente nas montanhas, é levado de volta para o seu monastério, onde recupera suas forças. Em um passeio na aldeia, conhece Perna, se apaixona à primeira vista e desiste da sua vocação. Mas logo se depara com seu despreparo perante as dificuldades e desafio do dia-a-dia." (fonte do texto)


Em falta ficam filmes de Tarkovsky, Miyazaki, Bergman, Kurosawa entre outros, que, por serem mais populares achei que seria escusado colocar na lista.

Contudo, ficam algumas recomendações:

Andrei Tarkovsky: Stalker, Nostalghia, Andrei Rubliov
Hayao Miyazaki: Spirited Away; Princess Mononoke
Ron Fricke: Baraka; Samsara
Darren Aronofsky: The Fountain
Carlos Reygadas: Silent Light
Ingmar Bergman: The Magic Flute; Personna; The Seventh Seal
Akira Kurosawa: Ran; Ikiru; Dreams; Madadayo
Kim Ki-Duk: Spring, Summer, Fall, Winter... and Spring
Im Kwon-Taek: Mandala
Bae Yong-Kyun: Why has Bodhi-Dharma Left for the East
Terrence Malick: The Tree of Life
Alejandro Amenábar: Àgora
Kenji Mizoguchi: Ugetsu
Richard Linklater: Waking Life
René Laloux: Fantastic Planet
Richard Schenkman: The Man From Earth
Banmei Takahashi: Zen 
Clint Eastwood: Hereafter
Nina Paley: Sita Sings the Blues

sábado, 22 de fevereiro de 2014

Mais novidades sobre a Conferência Internacional de Teosofia/2014

Em agosto próximo realiza-se em Naarden, na Holanda, mais uma Conferência Internacional de Teosofia. 

Depois de um primeiro post sobre o assunto, o Lua em Escorpião traz hoje mais informações sobre o evento, que foram recentemente disponibilizadas pelo perfil de Facebook do Theosophy Forward. A Conferência terá lugar no Centro Teosófico Internacional (ver video abaixo).





Este é o encontro pelo qual os teosofistas têm estado à espera! Companheiros de todo o mundo estão já a inscrever-se.

De 15 a 18 de agosto, todos os caminhos vão dar ao Centro Teosófico Internacional de Naarden, na Holanda, um retiro espiritual maravilhosamente localizado que inspira a paz e a fraternidade.

Nesta serena propriedade, a International Theosophy Conferences Inc. irá realizar um encontro histórico e convida à participação de teosofistas de todo o mundo, não só dos pertencentes às organizações, mas também de teosofistas independentes e simpatizantes que estejam ativamente envolvidos no estudo ou promoção da Teosofia.

O tema será “A Teosofia, a Unidade e a Ajuda ao Mundo…E a partir daqui, por onde vamos?”

Estamos satisfeitos por anunciar que o programa está praticamente completo. Esta será uma típica conferência de trabalho: pequenas apresentações seguidas de workshops. De modo a cumprir os objetivos desta conferência de trabalho, todos aqueles que participam, quer sejam palestrantes, facilitadores, assistentes ou participantes são igualmente importantes. Todos têm a sua voz.




A conferência irá adotar uma abordagem interativa e holística, enfatizando os diálogos, os workshops e a partilha. O tema irá se centrar nos nossos objetivos e papéis como estudantes de Teosofia nas várias organizações.

Os resultados dos workshops serão apresentados em sessões plenárias para comentários e reações, como input para o produto final do encontro: “A declaração de Naarden do ITC 2014”.

Além do mais, o cerne do programa do ITC em Naarden deverá consistir de três partes: Religião, Filosofia e Ciência. O idioma usado será o inglês.



Para os teosofistas, em agosto, todos os caminhos vão dar a Naarden


A conferência inicia-se na tarde de sexta-feira, 15 de agosto, com uma palestra de abertura, para dar o tom, com a carta do Maha-Chohan como diretriz para este discurso.

A conferência de Naarden irá explorar ainda mais o caminho que todas as organizações teosóficas podem seguir para servir a humanidade em unidade, respeitosa e construtivamente, espiritual e cooperativamente unidas, enquanto cada organização permanece fiel ao que defende e preconiza.

Os objetivos para esta conferência são:

1. Assegurar que se mantém a Teosofia viva para as gerações futuras, ou seja, não com um regresso a Blavatsky, mas indo para diante com Blavatsky.

2. Juntar representantes de organizações teosóficas e estudantes de Teosofia que estão comprometidos a divulgar a Teosofia conforme explanada por H.P.B. e os Mestres.

3. Intensificar os laços fomentando intercomunicação com significado entre todas as organizações teosóficas, não esquecendo os teosofistas independentes.

4.  Trocar ideias e melhores práticas sobre como apresentar a Teosofia de um modo acessível e inspirador.

É altamente recomendado que faça a inscrição e reserve alojamento com antecedência para evitar contratempos. Foi possível fazer um acordo vantajoso com um hotel de primeira classe que fica a menos de 10 minutos de carro do local. Será disponibilizado um serviço de ligação gratuito de ida e volta da propriedade onde se realiza a Conferência.


Logo do ITC


Esta é uma oportunidade única e excelente para encontrar teosofistas de diferentes origens, de forma a conhecê-los, a socializar e associar-se, a trocar ideias, a começar novas iniciativas e por fim, mas não menos importante, para se divertir. O valioso trabalho de H.P.B. é em última instância aquilo que congrega todos os teosofistas.

Vá ao site do ITC e preencha a ficha de inscrição!

sábado, 15 de fevereiro de 2014

Sobre a continuidade da nossa consciência (4ª parte)

Terminamos hoje a tradução de partes do artigo de 2004 do reputado cientista e médico Pim van Lommel sobre as Experiências de Quase Morte (EQM), “About the continuity of our consciousness”. Recomenda-se naturalmente a leitura dos posts referentes às três partes anteriores.

Antes da conclusão, o Dr. van Lommel  faz uma série de considerações sobre questões médicas, descrevendo as paragens cardíacas e os efeitos da mesma no corpo humano e também sobre neurofisiologia, tendo com pano de fundo a questão da consciência funcionar ou não dentro do cérebro. Posteriormente ele introduz conceitos da física quântica para ajudar a explicar alguns os episódios relacionados com as EQM. 

De qualquer modo esta parte do artigo é bastante mais técnica e não fundamental para o objetivo deste post. Avancemos pois para a parte final do artigo.




A certa altura, escreve o Dr. Pim van Lommel:

“Poderá o nosso cérebro ser comparado a um aparelho de TV, que recebe ondas eletromagnéticas e as transforma em imagem e som, ou como uma câmara de filmar que transforma imagem e som em ondas eletromagnéticas? Esta radiação eletromagnética detém a essência de toda a informação, mas apenas é percetível aos nossos sentidos através de instrumentos adequados como uma câmara e aparelho de TV.”

Conclusão

“De acordo com a nossa conceção, baseada nos aspetos reportados sobre a  consciência durante uma paragem cardíaca, podemos concluir que a nossa consciência pode ser baseada em campos de informação, consistindo de ondas que têm origem no espaço fásico. Durante a paragem cardíaca, o funcionamento do cérebro e de outras células no corpo para, devido à anóxia. Os campos eletromagnéticos dos nossos neurónios e de outras células desaparecem e a possibilidade de ressonância, a interface entre a consciência e o corpo físico, é interrompida.

Esta explicação altera fundamentalmente a nossa opinião sobre a morte, devido à quase inevitável conclusão de que na altura da morte física a consciência continuará a ser experienciada noutra dimensão, num mundo invisível e imaterial, o espaço fásico, no qual todo o passado, presente e futuro estão englobados. A pesquisa sobre EQM não nos pode dar provas científicas irrefutáveis sobre esta conclusão, porque as pessoas que passaram por EQM não chegaram a morrer, mas estiveram todas muito próximas da morte, privadas de um cérebro em funcionamento.


Dr. Pim van Lommel, capa de revista


A conclusão de que a consciência pode ser experienciada independentemente da função cerebral pode muito bem induzir a uma grande mudança no paradigma científico na medicina ocidental, e poderá ter implicações práticas em efetivos problemas médicos e éticos tal como o cuidado prestado a pacientes a morrer ou em coma, eutanásia, aborto e remoção de órgãos para transplante a alguém no processo de morte com um coração a bater num corpo quente, embora com diagnóstico de morte cerebral.

Ainda existem mais questões que respostas, mas, com base nos aspetos teóricos acima mencionados da continuidade da nossa consciência obviamente experienciada, devemos finalmente considerar a possibilidade que a morte, tal como o nascimento, poderá ser uma mera passagem de um estado de consciência para outro.”

E assim termina o artigo do Dr. Pim van Lommel.

Este texto já tem perto de dez anos e desde então as pesquisas têm continuado, quer por parte do Dr. van Lommel, quer por parte de outros investigadores. Recentemente, o médico e cientista canadiano Bruce Greyson conseguiu fundos para uma investigação que poderá trazer informação crucial sobre esta questão. Aqui a reportagem do canal de TV norte-americano WTVR (fica o agradecimento a Odin Townley por esta dica).





Além dos muitos livros que existem sobre esta matéria, o primeiro dos quais publicado pelo também médico Raymond Moody Jr. em 1975, “Vida depois da vida”, volta e meia a imprensa generalista pega no assunto normalmente carregando na tónica do ceticismo ou do sensacionalismo. Contudo, em agosto de 2012, a revista portuguesa “Sábado” publicou um artigo intitulado “O mistério dos relatos sobre o céu”, por sinal bastante equilibrado. O artigo contém alguns relatos semelhantes aos referidos no texto do Dr. van  Lommel, mas que tiveram lugar em Portugal. O papel do médico holandês é "desempenhado" pelo Dr. Manuel Domingos. O artigo da Sábado faz ainda referência à abordagem religiosa e também aos céticos.




O que diz a Teosofia

Recentemente, o Lua em Escorpião publicou um texto sobre o processo pós-morte de acordo com a Teosofia original, que pode ser lido aqui (1ª parte) e há algum tempo mais, um artigo também em duas partes traduzido do blog de Odin Townley, a primeira das quais está aqui.

Em português, as melhores fontes são “A Chave para a Teosofia” e as “Cartas dos Mahatmas para A.P. Sinnett”.




Em inglês, recomendo “When we die” e “After death consciousness and processes” de Geoffrey Farthing que compilam tudo o que existe escrito por HPB e os Mahatmas (particularmente no segundo livro) sobre o que acontece após a morte do corpo físico.  Abaixo fica um video baseado no livro "When we die", produzido pela Blavatsky Trust, organização criada por Farthing e Christmas Humphreys.



sábado, 8 de fevereiro de 2014

Sobre a continuidade da nossa consciência (3ª parte)

Continuamos com a tradução de alguns excertos do artigo do Dr. Pim van Lommel “Sobre a continuidade da nossa consciência”. Para perceber o contexto convém ler as duas partes anteriores, aqui e aqui.

Prossigamos pois com a descrição de alguns elementos típicos das Experiências de Quase-Morte (EQM).




A Experiência fora-do-corpo

Nesta experiência, as pessoas têm perceções verídicas a partir de uma posição fora e acima do seu corpo sem vida. Há a sensação de que se despiram do seu corpo como quem tira um velho casaco e para sua surpresa parece que retiveram a sua própria identidade com a possibilidade de perceção, emoções e perfeita consciência. Esta experiência fora-do-corpo é cientificamente importante porque médicos, enfermeiras e familiares podem verificar as perceções relatadas. Este é o relatório de uma enfermeira de uma unidade de cuidados coronários:

“Durante o turno da noite uma ambulância chega com um homem de 44 anos, cianótico [pele azul-arroxeada] e em estado comatoso à unidade de cuidados coronários. Ele tinha sido encontrado em coma cerca de 30 minutos antes num prado. Quando fomos intubar o paciente reparámos que ele tinha uma dentadura na boca. Eu removi a sua dentadura superior e coloquei-a no carrinho de enfermagem. Depois de cerca de uma hora e meia, o paciente apresentava suficiente ritmo cardíaco e pressão sanguínea, mas ainda estava ventilado e intubado e em estado comatoso. Ele é transferido para a unidade de cuidados intensivos para continuar a necessária respiração artificial.  Passada mais de uma semana encontro-me novamente com o paciente, que passou para a ala de cardiologia. Quando me vê diz-me: “Oh, aquela enfermeira sabe onde está a minha dentadura”. Fico muito surpreendida. Então ele explica: ”Você estava lá, quando eu fui transportado para o hospital e você retirou a dentadura da minha boca e pô-la em cima do carrinho, onde estavam muitos frascos e havia esta gaveta deslizante por baixo e foi aí que você pôs os meus dentes.” Eu fiquei especialmente atónita porque lembrei-me de isto ter acontecido enquanto o homem estava num coma profundo e no processo de reanimação cardiopulmonar. Parece que o homem tinha-se visto a si próprio na cama e apercebido de cima, do modo como as enfermeiras e os médicos tinham estado ocupados na reanimação. Ele também foi capaz de descrever correta e detalhadamente o pequeno quarto onde havia sido reanimado bem como daqueles que estavam presentes, como eu. Ele está profundamente impressionado com a sua experiência e diz que não tem mais medo da morte.”


Foto:dailymail.co.uk


A revisão de vida holográfica

Durante esta revisão de vida o sujeito sente não só a presença e a experiência renovada de cada ato, mas também de cada pensamento da sua vida passada e percebe que tudo isso é um campo de energia que o influencia assim como aos outros. Tudo aquilo que foi feito e pensado parece ter sido significativo e armazenado. Fica-se a saber se foi dado amor ou pelo contrário, negado. Porque estamos ligados às memórias, emoções e consciência dos outros, experienciamos as consequências dos nossos próprios pensamentos, palavras e ações nessas pessoas no exato momento do passado em que elas ocorreram. 

Portanto, durante a revisão de vida existe uma ligação com os campos de consciência de outras pessoas, bem como os nossos próprios campos de consciência (interligação). Os pacientes examinam toda a sua vida num abrir e fechar de olhos; tempo e espaço parecem não existir durante uma experiência destas.

Instantaneamente eles estão onde se encontram focados (não-localidade) e podem falar durante horas sobre o conteúdo da revisão de vida embora a reanimação tenha demorado apenas minutos. Um relato:

“Toda a minha vida até ao presente parece-me ter sido posta à frente numa espécie de revisão panorâmica tridimensional e cada acontecimento pareceu ser acompanhado por uma consciência de bem ou de mal ou por um conhecimento de causa e efeito. Não só compreendia tudo do meu próprio ponto de vista, mas também entendia os pensamentos de todos os envolvidos no acontecimento, como se os seus pensamentos estivessem dentro de mim. Isto significa não só aquilo que tinha feito ou pensado, mas mesmo de que modo isso tinha influenciado outros, como se visse as coisas com olhos de quem tudo vê. Parece que os nossos pensamentos não desaparecem simplesmente. Durante todo o tempo da revisão, a importância do amor era enfatizada. Olhando retrospetivamente não consigo dizer quanto tempo durou esta revisão e perceção de vida; poderá ter sido longa pois todos os assuntos foram abordados, mas ao mesmo tempo pareceu apenas uma fração de segundo, porque percecionei tudo no mesmo momento. O tempo e a distância pareciam não existir. Eu estava em todo o lado ao mesmo tempo e às vezes a minha atenção era atraída para alguma coisa e então eu ia para lá”.



Também uma antevisão pode ser experienciada, em que imagens de acontecimentos pessoais futuros (mais tarde recordados sob a forma de “déjà vu”) bem como de imagens gerais do futuro aparecem, embora deva ser relevado que estas imagens devem ser consideradas apenas como possibilidades. Uma vez mais parece que tempo e espaço não existem durante esta revisão: Um relato:

“Eu tive um agradável contacto visual, olharam-me cheios de amor e então examinei grande parte da minha vida vindoura; a preocupação com os meus filhos, a doença terminal da minha esposa, as circunstâncias em que estaria envolvido no meu trabalho e não só. Eu examinei de forma completa, e senti que teria de decidir naquele momento: “Poderei ficar aqui ou ir embora”, mas teria que decidir naquele momento.”

O encontro com parentes falecidos

Se conhecidos ou parentes já falecidos são encontrados numa outra dimensão, são habitualmente reconhecidos pela sua aparência, sendo a comunicação possível através de transferência de pensamento. Portanto, durante um EQM é também possível entrar em contacto com o campo de consciência de pessoas falecidas (interligação).  Durante uma EQM, encontram-se algumas pessoas sobre cuja morte era impossível saber e às vezes pessoas desconhecidas para elas, são encontradas durante uma EQM. Um relato:


Foi este livro que espoletou todo o
frenesim à volta das EQM. Esta
é a capa da versão portuguesa.
O livro foi originalmente publicado
nos EUA, em 1975.
“Durante a minha paragem cardíaca eu tive uma ampla experiência (…) e mais tarde vi, além da minha falecida avó, um homem que olhou para mim de forma amável, mas que eu desconhecia. Mais de 10 anos depois, no leito de morte da minha mãe, ela confessou-me que eu tinha nascido de uma relação extramarital, sendo o meu pai um judeu que tinha sido deportado e morto durante a II Guerra Mundial, e a minha mãe mostrou-me a fotografia dele. O homem desconhecido que eu tinha visto mais de dez anos antes durante a minha EQM, afinal era o meu pai biológico.”

O regresso ao corpo

Alguns pacientes podem descrever a forma como eles regressaram ao seu corpo, a maior parte das vezes através do topo da cabeça, depois de terem percebido através de uma comunicação sem palavras com um ser de luz ou com um parente falecido que “não era ainda a sua vez” ou que “tinham uma tarefa para cumprir”. O regresso consciente ao corpo é experienciado como algo muito opressivo. Eles recuperam a consciência no seu corpo e percebem que estão “presos” nele, o que significa novamente a dor e a restrição da sua doença. Também entendem que lhes foi retirada novamente uma parte da sua consciência com profundo conhecimento e compreensão, bem como o sentimento de amor e aceitação incondicionais. Um relato:

“E quando recuperei a consciência no meu corpo, foi tão mau, tão mau…aquela experiência foi tão bela, nunca teria querido regressar, queria lá ficar…e mesmo assim voltei. A partir desse momento foi uma experiência muito difícil viver a minha vida outra vez no meu corpo, com todas as limitações que sentia nesse período.”

O desaparecimento do medo da morte

Quase todas as pessoas que experienciaram uma EQM perdem o medo de morrer. Isto é devido a compreenderem que existe a continuidade da consciência, mesmo quando foram declarados mortos por observadores ou mesmo por médicos. Ficamos separados do corpo sem vida, retendo a capacidade de perceção. Um relato:


Foto: dailymail.co.uk


“Está para lá do meu domínio discutir algo que só pode ser provado pela morte. Para mim, contudo, a experiência foi decisiva em convencer-me de que a consciência vive para além da sepultura. A morte não é morte, mas outra forma de vida.”

Outro relato:

“Esta experiência é uma bênção para mim, pois agora tenho a certeza que o corpo e a mente estão separados, e que existe vida após a morte.”


Na próxima e última parte, teremos as conclusões de Pim van Lommel, abordaremos um texto publicado na revista portuguesa “Sábado” e veremos onde podemos encontrar na literatura teosófica material sobre o que acontece após a morte.

sábado, 1 de fevereiro de 2014

Sobre a continuidade da nossa consciência (2ª parte)

Continuamos com a tradução de alguns excertos do artigo de Pim van Lommel, “Sobre a continuidade da nossa consciência”. Para perceber o contexto convém ler o post da semana passada.

Na terceira secção do seu artigo, o cientista holandês aborda a pesquisa científica no domínio das Experiências de Quase-Morte (EQM).


Dr. Pim van Lommel


“Em 1969, durante o meu estágio médico rotativo, um paciente foi reanimado com sucesso na ala de cardiologia através de desfibrilhação elétrica. O paciente recuperou consciência e ficou muito, muito desapontado. Falou-me de um túnel, de cores belas, de uma luz e música maravilhosas. Nunca esqueci este episódio, mas nunca fiz nada com ele. Anos mais tarde em 1976 [NT: Na verdade, o livro foi lançado em 1975] Raymond Moody Jr. descreveu pela primeira vez as chamadas EQM e apenas em 1986 li sobre estas experiências num livro de George Ritchie chamado “Return from tomorrow” [Regresso de amanhã], que relata o que ele experienciou durante um período de morte clínica, com a duração de seis minutos, no ano de 1943, durante os seus estudos em medicina. Depois de ler este livro, comecei a entrevistar os meus pacientes que sobreviveram a uma paragem cardíaca. Para minha grande surpresa, no espaço de dois anos cerca de cinquenta pacientes falaram-me do seu EQM.

A minha curiosidade científica começou a crescer, porque de acordo com os nossos atuais conceitos médicos, não é possível experienciar consciência durante uma paragem cardíaca, quando a circulação e a respiração cessam.


Dr. Raymond Moody Jr.


Várias teorias já foram propostas sobre a origem de uma EQM. Alguns pensam que a experiência é provocada por alterações fisiológicas no cérebro como por exemplo células cerebrais que morrem em resultado de anóxia cerebral, ou então possivelmente causadas pela libertação de endorfinas, ou bloqueios do recetor NMDA. Outras teorias abordam a reação psicológica à morte próxima ou uma combinação deste fator com a anóxia. Mas até agora [2004] não existe qualquer estudo prospetivo, meticuloso e cientificamente elaborado para explicar a causa e conteúdo de uma EQM.“

Num estudo de 1988, com 344 sobreviventes de paragens cardíacas, 62 (18% do total) revelaram ter alguma ideia sobre a altura da morte clínica. Destes 62, 41 experienciaram uma EQM mais do que superficial e deste grupo de 41, 23, ou seja 7% da amostra do estudo, revelou ter passado por uma EQM bastante intensa. Nos EUA um estudo semelhante, mas com uma amostra de um terço face ao estudo holandês, dava 10% de pacientes a experienciar uma EQM, enquanto um estudo britânico com uma amostra de 63 pacientes, deu para a mesma variável a percentagem de 6,3%.

No estudo holandês cerca de 50% dos pacientes com uma EQM relataram consciência de estarem mortos, ou de emoções positivas, 30% reportaram estar a atravessar um túnel, de observarem uma paisagem celeste ou de terem encontrado parentes falecidos. Cerca de 25% dos pacientes com uma EQM teve uma experiência extra-corporal, comunicou com a “luz” ou observou cores. 13% experienciou uma revisão de vida e 8% a sensação de estar numa fronteira.

Pim van Lommel  refere que não é a duração da paragem cardíaca, nem do período de inconsciência que influencia o ter ou não ter uma EQM. Não há também qualquer relação entre um episódio desta natureza e os medicamentes administrados, medo da morte antes do ataque, conhecimento prévio sobre as EQM, religião ou educação. A EQM era mais frequente em pacientes abaixo dos sessenta anos, por pacientes com mais de uma reanimação cardiopulmonar durante o período de internamento e por pacientes que já tinham experienciado uma EQM antes. A memória de curto-prazo também é essencial para se recordar de uma EQM. “De forma inesperada”, refere van Lommel, “descobrimos que mais pacientes com uma EQM profunda [em comparação à média], morriam nos 30 dias após a reanimação cardiopulmonar.”




Foi feito um estudo de tipo longitudinal acompanhando os pacientes com EQM, dois e oito anos após o episódio para avaliar os efeitos em termos psicológicos. “Os pacientes que passaram por uma EQM não mostravam nenhum medo da morte, acreditavam fortemente numa vida após a morte, e a sua visão sobre o que era importante na vida tinha mudado: amor e compaixão por eles próprios, pelos outros e pela natureza. Agora entendiam a lei cósmica que aquilo que fazemos aos outros irá nos ser devolvido: ódio e violência, bem como amor e compaixão. Incrivelmente, muitas vezes havia prova de sentimentos intuitivos ampliados. Além do mais, os efeitos transformacionais duradouros de uma experiência que dura apenas alguns minutos foi uma descoberta surpreendente e inesperada.”

Face à ausência de provas de outras teorias na explicação para as EQM, o conceito até agora assumido mas nunca cientificamente provado, de que a consciência e as memórias estão localizadas no cérebro deve ser discutido. Tradicionalmente, tem sido afirmado que os pensamentos ou consciência são produzidos por grandes grupos de neurónios ou redes neuronais. Como pode uma perfeita consciência ser experienciada fora do corpo quando o cérebro já não funciona durante um período de morte clínica, com o encefalograma mostrando morte encefálica? Além do mais, invisuais também já descreveram perceções verídicas durante experiências fora-do-corpo aquando das suas EQM. O estudo científico das EQM puxa-nos ao limite das nossas ideias sobre neurofisiologia e medicina, acerca do alcance da consciência humana e da relação da consciência e das memórias com o cérebro.

Continuamos na próxima semana com a descrição de alguns elementos típicos da EQM.