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sábado, 17 de agosto de 2013

Mitos e verdades sobre o Conde de Saint-Germain (6ª parte)

Continuamos com a tradução (adaptada) do texto “O Conde deSt. Germain” de David Pratt.

7.  O príncipe Carl e os anos finais

O príncipe Carl era neto do Rei Jorge II de Inglaterra e em 1769 começaria a governar os ducados de Schleswig e Holstein (hoje parte da Dinamarca) em nome do governo do seu cunhado, o rei Cristiano VII da Dinamarca e Noruega. Tornou-se maçon a partir de 1774. Sobre St. Germain disse:

Carl de Hesse-Cassel

“Ele falou-me das grandes coisas que queria para a humanidade, etc…Eu não estava particularmente desejoso disso, mas no fim tive os meus escrúpulos sobre rejeitar conhecimento que era muito importante e tornei-me seu discípulo. Ele falava muito da melhoria das cores, que custaria praticamente nada, da melhoria dos metais, acrescentando  que era absolutamente necessário aderir fielmente a este princípio…Não existe praticamente nada na Natureza que ele não saiba como melhorar e usar. Ele confidenciou-me algo sobre a sabedoria da Natureza, mas apenas a parte introdutória, fazendo com que eu, por experiência própria,  tentasse alcançar sucesso, regozijando-se ele extremamente com os meus progressos. Assim aconteceu com os metais e pedras preciosas, mas quanto às cores ele acabou por me dá-las, assim como importante informação.”

A documentação deixada pelo príncipe Carl incluía a receita para o famoso chá de Saint-Germain: continha vagens de sene, flores envelhecidas e erva-doce embebido em vinho. Tinha um efeito laxativo e propriedades gerais saudáveis. Carl conta que a sua esposa estava uma vez muito doente com um ataque de catarro, com muitas dores e com febre. Ela tomou um dos remédios de Saint-Germain e uma hora depois estava perfeitamente saudável. Saint-Germain aparentemente seguia a tradição dos antigos herbalistas, acrescentando alguns refinamentos próprios. Carl escreve:

“Ele sabia perfeitamente tudo sobre ervas e plantas e tinha descoberto remédios que usava continuamente e que lhe prolongavam a vida e a saúde. Eu ainda possuo algumas das suas receitas, mas os médicos denunciaram veementemente a sua ciência após a sua morte. Havia um médico de nome Lossau, que havia sido um boticário e a quem eu dei doze mil coroas por ano para trabalhar com os remédios que o Conde Saint-Germain lhe havia dado, principalmente com o seu chá, que os ricos compravam e os pobres recebiam gratuitamente.
Este médico curou muitas pessoas, das quais, segundo sei, nenhuma morreu. Mas depois da morte do médico, desgostoso com as propostas que recebi de todos os lados, eu retirei todas as receitas e não substitui Lossau.”

Há quem diga que Saint-Germain teve um papel importante no desenvolvimento de sociedades secretas, como os Rosacruzes ou a Maçonaria. Mas não há provas disso, e até existiam muitos maçons que tinham inveja da fama e conhecimentos de Saint-Germain, e que por isso lhe eram hostis.

Contudo existe uma carta (embora haja dúvidas da sua autenticidade) do príncipe Carl onde consta o seguinte:

“Ele sempre agiu como se não soubesse nada de Maçonaria ou de alto conhecimento, embora durante o último ano uma série de coisas convenceu-me do contrário…Apesar de nunca se ter declarado Maçon, ele disse algo estranho, que ele era o “o mais antigo dos Maçons”.

Noutra carta Carl descreveria Saint-Germain da seguinte forma:

“Ele foi provavelmente um dos maiores filósofos que já existiu. Um amigo da humanidade, só querendo dinheiro para dar aos pobres e também um amigo dos animais. O seu coração nunca estava ocupado exceto com o bom dos outros. Ele pensava que fazia o mundo mais feliz ao lhe dar novos prazeres, os tecidos mais belos, as cores mais belas, muito mais baratas do que antes, pois os seus corantes soberbos não custavam praticamente nada. Nunca vi um homem com uma inteligência mais clara do que a dele, junto com uma erudição (especialmente em história antiga) como eu raramente encontrei.”

Carl diz que os princípios filosóficos de Saint-Germain na religião eram “puro materialismo”. Portanto vemos aqui Carl a cometer o mesmo erro de outros maçons. Não sabemos os detalhes das suas conversas e os ensinamentos de Saint-Germain. Mas o que sabemos é que, segundo Carl, Saint-Germain “não era de modo algum um adorador de Jesus Cristo”. Carl uma vez disse a Saint-Germain que achava as suas observações sobre Jesus ofensivas e que Saint-Germain prometeu não abordar o assunto novamente. Muito provavelmente ele teria dito que Jesus era um sábio com uma vida sagrada mas não “o filho unigénito de Deus”. Saint-Germain não era claramente um teísta, um crente na teologia ortodoxa do Cristianismo, mas também não era um materialista que acreditasse na existência de nada mais do que a matéria física. Ele poderá ter aderido a uma visão panteísta da natureza que soasse aos Maçons convencionais mais como materialismo ateísta.

Por volta de 1783, a saúde de Saint-Germain estava claramente a falhar. Ele sempre tinha sido muito vulnerável ao frio e sofria de reumatismo.  Terá morrido a 27 de fevereiro de 1784, mas devido a um grande temporal em 1872, não se sabe exatamente onde estará agora o corpo de Saint-Germain.

Ele era tão pobre na altura da sua morte, que os seus bens não cobriam o custo do seu funeral e portanto foi-lhe dado um funeral gratuito por consideração ao seu patrono, o príncipe Carl. Tudo o que ele deixou foi um maço de contas pagas, uma pequena quantia de dinheiro, alguma roupa e algumas outras coisas como lâminas e escovas de dentes. O valor dos seus bens valeria hoje cerca de 690 libras esterlinas. Não havia diamantes, pinturas, partituras musicais, livros ou violino.”


Continua na próxima semana…

sábado, 10 de agosto de 2013

Mitos e verdades sobre o Conde de Saint-Germain (5ª parte)

Continuamos com a tradução (adaptada) do texto “O Conde deSt. Germain” de David Pratt.

6. Viajando na Alemanha

Em 1774 Saint-Germain estava em Ansbach, localidade que hoje pertence à Bavaria, a sudoeste de Nuremberga. Vivia sob o nome de Conde Tsarogy e mais tarde foi descrito assim:

“Este homem singular, que no seu tempo causou tanta sensação imerecida, viveu durante vários anos no Principado de Ansbach, sem ninguém ter a mínima ideia de que ele era o misterioso aventureiro sobre quem as pessoas atribuíam histórias tão extraordinárias.”

Saint-Germain é descrito como alguém que vivia muito retirado e em reclusão, mas que não deixava de fazer atos benevolentes.

“O estrangeiro parecia ter 60 a 70 anos, sendo de média estatura, mais magro que corpulento, o seu cabelo grisalho escondido por baixo de uma cabeleira, parecendo um homem vulgar, um italiano idoso. As suas roupas eram muito simples, a sua aparência não mostrava nada de extraordinário.”

“Ele não tinha criados, comia sozinho e da forma mais simples possível, no seu próprio quarto, que ele poucas vezes abandonava. As suas necessidades eram reduzidas ao mínimo. Não tinha círculo social, mas passava as noites com o Markgraf e a Senhorita Clairon e amigos trazidos pelo Markgraf. Ele não podia ser persuadido a comer na mesa real.

A sua conversa era sempre interessante e mostrava muito conhecimento do mundo e das pessoas, mas às vezes surgia  uma referência misteriosa e ele interrompia a conversa ou mudava de assunto quando alguém tentava saber mais dele. Ele gostava de falar sobre a sua infância e da sua mãe, de quem ele nunca falava sem emoção.  Acreditando nele, a sua educação deverá ter sido a de um príncipe.
O que este homem singular fazia durante cada dia seria difícil de dizer. Ele não tinha livros com ele, exceto uma cópia suja de Pastor Fido. Ele muito raramente deixava alguém entrar no seu quarto, mas quando alguém o fazia, usualmente encontravam-no com a sua cabeça envolta num pano preto. A sua ocupação preferida era a preparação de todo o tipo de corantes. A janela do seu quarto, que dava para o jardim, estava tão salpicado de corantes que não se conseguia ver através dela. (…)”

[Tsarogy] confessou ao Markgraf que o nome Tsarogy  era falso, ou uma espécie de anagrama, e que ele era na verdade um Rákóczy, o último descendente do príncipe Rákóczy da Transilvânia, do tempo do Imperador Leopoldo.

Mas, mais tarde chegam relatos contrários sobre as origens de Tsarogy aos ouvidos de Markgraf, que fica a saber de vários nomes que ele tinha usado nos seus diversos pontos de paragem. Quando Saint-Germain é confrontado com isso e com o desagrado do Markgraf com o abuso da sua boa vontade…

“…ouviu todas as acusações num modo completamente relaxado e disse que ele havia, numa altura ou noutra, usado todos os nomes referidos (…) mas, disse que sob todos esses nomes foi conhecido com um homem de honra…Não tinha receio de nada, pois nada havia para alimentar o seu descrédito. Ele afirmou com uma certeza inabalável que nada tinha dito de falso ao Markgraf em relação ao seu nome e revelou-lhe a sua verdadeira família. Ele julgava que como nada tinha pedido ao Markgraf, não tinha magoado ninguém e não havia causado problemas, seria simplesmente julgado pela sua conduta.”

No que diz respeito aos conhecimentos médicos de Saint-Germain, Gemmigen-Guttenberg diz:

“A prescrição dele consistia basicamente numa estrita dieta e num chá, a que ele chamava de Chá da Rússia ou Acqua Benedetta (…) Seria uma ingratidão chamá-lo de trapaceiro. Enquanto ele ficou com o Markgraf, nunca pediu nada, não recebeu nada de valor nem nunca se envolveu em algo impróprio. Devido ao estilo de vida muito simples, as suas necessidades eram quase nenhumas. Se ele tivesse dinheiro, ele partilhava-o com os pobres. Não deixou quaisquer dívidas.”

Em 1776, Saint-Germain chega a Leipzig usando outro nome e essas notícias chegam aos ouvidos de Frederico, o Grande que tenta descobrir os propósitos do Conde.  Von Bosch, também ele conde, banqueiro, maçon e com um alto cargo de Estado informará Frederico que Saint-Germain não era um Adepto, apenas um teosofista (na linha de Boehme). Von Bosch deixa de falar com Saint-Germain quando este lhe pede dinheiro emprestado. Jean Overton Fuller interroga-se se o facto de Saint-Germain ter revelado a sua identidade, teria a ver com a queda dos Orlovs na Rússia, pois assim a Prússia poderia ajudá-lo a libertar a Transilvânia, mudando a balança do poder na Europa, no sentido de se generalizar a liberdade de pensamento. Outro conhecido de Frederico dir-lhe-á que Saint-Germain “não é um um maçon, um mago, nem sequer um teosofista.”

Frederico Augusto de Brunswick
(foto wikipedia)


Em 1777, o Conde Lehndorff, camareiro da Rainha da Prússia, escreveu no seu diário que havia passado três dias com Saint-Germain, o “homem mais notável na Europa”:

“Ele segue uma dieta rigorosa, observa grande frugalidade, bebe apenas água nunca vinho e apenas toma uma refeição por dia…Ele prega a virtude, a abstinência e as boas ações e constitui um exemplo a este respeito. Ninguém pode censurá-lo pelo mínimo de impropriedade em qualquer assunto. Ele não parece ser tão rico quanto era antes…

A sua expressão dá uma impressão de extraordinária espiritualidade. O seu discurso é espirituoso e prende a atenção, mas ele não gosta de contraditório.

As pessoas inventam mitos sobre ele e sobre aquilo que ele não diz. Alguns pensam que ele é um judeu português, outros de que tem duzentos anos de idade e que é um príncipe destronado. Alguns acusam-no de fazerem as pessoas acreditar que ele deve ser o terceiro filho do príncipe Rákóczy.

Ele fala como um grande médico. Acima de tudo, ele é um doutor e fala do seu pó precioso, que deve ser bebido como chá. Deixei que ele me enchesse uma xícara. Tinha gosto de anis, e os efeitos foram idênticos aos do anis. Ele discursa constantemente sobre o equilíbrio entre o corpo e a alma. Quando isso é observado, diz ele, a nossa máquina [NT:life-machine no original] não se avaria.”

Outro maçon comentou também em 1777:

“Sabendo que ele havia rejeitado certas pessoas que o consideravam um fazedor de milagres, eu procedi de modo inverso tratando-o como um homem comum, cujo conhecimento de química e física despertou a minha curiosidade.

Ele pareceu-me um homem entre 60 e 70, jovem para a sua idade, rindo com desdém daqueles que lhe creditam uma idade extraordinária. Espera contudo viver por muito tempo, graças ao seu regime alimentar e remédios. Contudo, a sua aparência não parecia prometer uma vida muito mais longa. (…)

Tendo ganho a sua confiança, levei-o a falar de Maçonaria. Sem evidenciar muito zelo ou mesmo particular atenção, ele confessou ser do 4º grau, embora não fosse capaz de se lembrar dos sinais. Ele parecia não saber nada do sistema de Estrita Observância, e por isso, não consegui ir mais além na conversa.
Por tudo isto, posso concluir que ou ele dissimula ou então não é dos nossos. Inclino-me mais para esta hipótese, principalmente porque no que diz respeito a religião e filosofia ele é um puro materialista”.

Outros maçons também catalogaram St. Germain de “puro materialista”, mas inclusive alguns dos seus poemas mostravam que reconhecia um lado espiritual no cosmos.

O embaixador prussiano na Saxónia em 1777 escreveu o seguinte sobre Saint-Germain:

“Ele diz que é o príncipe Ragotzi e para fornecer-me provas de particular confiança acrescenta que tinha dois irmãos, que se rebaixaram para se submeterem ao seu destino infeliz e que a certa altura ele tomou o nome Conde de Saint-Germain, que significa o sagrado entre os irmãos [sanctus germanus=irmão sagrado]. 

(…)
Voltando à questão francesa, existe uma lenda bem conhecida de que Saint-Germain visitou Maria Antonieta quando esta era rainha para lhe avisar da Revolução e da carnificina que aconteceria. Contudo o livro que conta esta história não é da pessoa a quem foi atribuído (uma confidente de Maria Antonieta).

Maria Antonieta (foto wikipedia)

Continua na próxima semana…

sábado, 3 de agosto de 2013

Mitos e verdades sobre o Conde de Saint-Germain (4ª parte)

Continuamos com a tradução (adaptada) do texto “O Conde de St. Germain” de David Pratt.

5. Pelo norte da Europa, Itália e Turquia

Em março de 1762 o Barão van Hardenbroek escrevia no seu diário que tinha ouvido que Saint-Germain estava a viver perto de Nijmegen. Era um “grande filósofo”, de “carácter virtuoso” e inclinado a “ajudar a República com as suas manufaturas” e ajudava também com a preparação de cores para uma fábrica de porcelanas em Weesp. Tinha ainda “uma enorme correspondência com países estrangeiros”.

No mesmo ano (1762), Saint-Germain visitará a Rússia para adquirir alguns dos ingredientes para seus os processos de manufaturação.

Em 1763 passa pela Bélgica onde conhece um ministro, o Conde Cobenzl que numa carta ao chanceler austríaco diz o seguinte:

“Há cerca de três meses a pessoa conhecida por Conde de St. Germain passou por aqui e contactou-me. Considero-o o homem mais singular que já conheci na minha vida. Não conheço exatamente o seu berço, mas acredito que seja o filho de união clandestina feita por um membro de uma casa ilustre e poderosa. Dono de grande riqueza, ele vive na maior simplicidade. Ele sabe tudo e é de uma retidão e bondade dignas de admiração. Entre outras provas de sabedoria, ele fez várias experiências à frente dos meus olhos e em breve mandarei a Vossa Excelência algumas amostras. A mais essencial é a transformação de ferro num metal tão belo como o ouro e que é no mínimo tão bom como o produto do trabalho de um ourives.
O tingimento e a preparação de couros que ultrapassavam toda a marroquinaria existente e o mais perfeito curtimento. O tingimento de sedas atingia uma perfeição nunca vista até agora. O tingimento de lãs era semelhante, feito nas cores mais vívidas (…) com os ingredientes mais comuns e a um preço modesto. A produção de cores como as cores de um artista, o ultramarino tão perfeito como se fosse o de lápis e finalmente a remoção dos cheiros dos óleos usados na pintura e a preparação do melhor óleo da Provença a partir de sementes de colza ou de outros óleos de qualidade inferior.”

O Conde Cobenzl ,noutra carta, acrescentará sobre Saint-Germain:

“(…) ele tem uma propriedade na Holanda que está dois terços paga e tem valores, que foram avaliados por quem lhe emprestou dinheiro, em mais de um milhão.(…) É certo que ele é de berço ilustre, mas sendo isso segredo deve guardá-lo pois o contrário não serve os meus interesses. Ele fala da sua riqueza e na verdade deve possuir muito, pois onde quer que ele vá, tem dado maravilhosas ofertas, gasto bastante, nunca pediu nada e nunca deixa dívidas. “

Saint-Germain tinha vindo a refinar os seus processos secretos durante décadas. As informações dadas por Cobenzl indicam que ele pegava em ferro em bruto e fazia algo que causava a sua mudança de escuro para dourado, imergia-o em água (possivelmente com aditivos) e depois de fornecer as suas propriedades à água, ele removia-o e metia lá dentro os materiais a serem tingidos. A água onde a tingimento havia sido feito seria mais tarde usado para fazer tintas. De acordo com um especialista moderno na área do tingimento, a permutação do ferro para dourado poderia ser cloreto férrico ou mais provavelmente ferrocianeto. Usando ingredientes bastante comuns e baratos, Saint-Germain estava a fazer tingimento químico antes da era do tingimento químico.

Jean Overton Fuller [teosofista britânica que também foi autora de uma interessante biografia de H.P. Blavatsky, chamada “Blavatsky and her teachers”] diz que a produção de tecidos baratos com um leque de cores alegres feita por Saint-Germain pode ter antecipado a Revolução Industrial em mais de um século.

“Saint-Germain estava a oferecer o primeiro mercado em massa, e podemos ver através destes detalhes o tipo de revolução que ele poderia ter forjado em França, onde para além de dar um emprego pago aos trabalhadores - deixados à fome graças à ruína dos proprietários das terras – ele teria produzido roupa e outros bens a um preço acessível para as pessoas, reduzindo a distinção de classes e criando novas exportações, ou seja, nova riqueza interna, assim talvez evitando a sangrenta Revolução que se seguiu."

Muito pouco se sabe sobre se as fábricas que Saint-Germain ajudou a montar em vários lugares foram um sucesso duradouro e o alcance do seu impacto económico.

Em 1765 St. Germain estava na Rússia, tendo em 1770 participado numa batalha que opunha os russos aos otomanos. Lutou ao lado dos russos, muito provavelmente ao lado do comandante russo, seu amigo, Alexei Orlov.

Alexei Orlov (foto wikipedia)

Continua na próxima semana…

sábado, 27 de julho de 2013

Conferência internacional de Teosofia aborda o “despertar da compaixão”

Mais importante do que aquilo que separa os teosofistas, é o que os une. É neste espírito que se realizam as “International Theosophy Conferences” (ITC) que juntam teosofistas das diferentes tradições que foram surgindo depois do falecimento de Helena Petrovna Blavatsky (1831-1891), a principal impulsionadora do movimento teosófico moderno.

Conforme escreve aqui o atual presidente das ITC, Garrett Riegg, as ITC têm vários propósitos: a partilha dos ideais e conceitos teosóficos, a promoção da amizade e fraternidade entre estudantes de teosofia de todo o mundo e a construção de pontes de entendimento e de apoio mútuo entre os líderes de diferentes organizações teosóficas. Tudo isto num ambiente descontraído, cheio de energia positiva e com convidados de renome. Este ano o convidado principal é Dean Radin, um renomado cientista que tem dedicado muito do seu trabalho à investigação dos poderes psíquicos do ser humano.

Dean Radin


As ITC começaram de forma praticamente informal em 1995, pelas mãos de uma teosofista da Loja Unida de Teosofistas, chamada Willie Dade, que juntava num fim-de-semana de cada ano, teosofistas do Arizona, da Costa Oeste dos EUA e da Europa. Com os anos, as ITC passaram a ser mais organizadas e difundidas, tendo em 2008 adotado o nome pelo qual são conhecidas atualmente. Nos últimos 4 anos, apenas em 2010 a ITC se realizou fora dos EUA, precisamente em Haia, na Holanda.

Este ano o local escolhido foi o Bohemian National Hall em Nova Iorque, estando convidados 30 oradores que irão apresentar as suas comunicações entre os dias 8 e 11 de agosto. O tema desta 15ª ITC é “Como despertar a compaixão? – HPB e a eterna Doutrina Secreta”. Estão a ser feitos esforços para que nas próximas edições o evento possa sair mais vezes dos EUA.

Bohemian National Hall em Nova Iorque


Para aqueles que não tiverem possibilidade de se deslocar a Nova Iorque para assistir à Conferência Internacional de Teosofia, será possível seguir a transmissão via internet através desta página.

Textos de alguns dos oradores podem ser encontrados no histórico do Lua em Escorpião. No primeiro dia da Conferência, 8 de agosto, fala Barend Voorham, da Sociedade Teosófica de Point Loma-Blavatsky House, autor de um texto sobre o Râja e Hatha Ioga, publicado neste blog. Voorham vai falar sobre a “Teosofia e a compaixão no mundo de hoje”. No mesmo dia, um pouco mais tarde falará Jerry Hejka-Ekins, que fez a introdução ao conhecido texto de J.J. van der Leeuw “Realização ou Revelação: O Conflito na Teosofia”, também publicado este ano no Lua em Escorpião. Hejka-Ekins faz parte de um painel que integra também Ed Abdill, autor de vários livros sobre Teosofia e um experiente palestrante. Neste painel falar-se-á da “Unidade na Diversidade”.

Ed Abdill


No dia seguinte, Jan Nicolaas Kind, que tem este e este textos publicados no Lua em Escorpião, fará parte de um painel que discutirá a “Unidade”. Nesse dia, dois autores mais conhecidos do grande público também apresentam comunicações: Mitch Horowitz, editor-chefe da divisão dedicada a literatura metafísica da famosa editora Penguin, falará sobre a “Nova Iorque Oculta” e Dean Radin, de quem já falámos acima, apresenta o seu novo livro: Supernormal: Science, Yoga, And The Evidence For Extraordinary Psychic Abilities”.

Mitch Horowitz

No dia 10, April Hejka-Ekins, que fez há algum tempo uma palestra (ver video abaixo) sobre a ética nos escritos de HPB que serviu de base a um texto do Lua em Escorpião, fará um workshop, também na ITC, sobre “A arte perdida da Compaixão”. Antes, Barend Voorham terá nova apresentação desta vez sobre “Religião, misticismo, educação e compaixão”.



Outro palestrante já nosso conhecido é Odin Townley, de quem vários textos já foram aqui traduzidos. Juntamente com Clancy McKenzie, Odin abordará os “Sete tipos de sonhos e sonhos programados”.

Odin Townley

O resto do programa – e friso que os destaques acima foram feitos apenas tendo em conta que são teosofistas com textos publicados no Lua em Escorpião e por isso nossos conhecidos – pode ser visto aqui e é efetivamente de grande qualidade. Neste documento podem também ser encontradas breves notas biográficas sobre os palestrantes.

Vamos aguardar então pelo próximo dia 8 de agosto, esperando que a transmissão via internet se realize para todos aqueles que não puderem se deslocar a Nova Iorque usufruam deste fantástico evento.

E… não esquecer nunca que aquilo que nos une é infinitamente maior do que aquilo que nos separa! 

sábado, 20 de julho de 2013

Mitos e verdades sobre o Conde de Saint-Germain (3ª parte)

Continuamos com a tradução (adaptada) do texto “O Conde de St. Germain” de David Pratt.


Gleichen, um proeminente maçon, descreve Saint-Germain como “um homem de altura mediana, muito robusto, que se vestia com uma simplicidade magnífica e que era muito elegante”(…) Acrescenta:
Ele possuía segredos químicos, para a produção de cores, tintas e um metal semelhante ao ouro de rara beleza…Ele mantinha um regime rigoroso, nunca bebendo enquanto comia, purgando-se com laxantes naturais (sene), que preparava ele próprio, e era tudo o que recomendava àqueles que lhe perguntavam o que deveriam fazer para prolongar as suas vidas.”

Várias pessoas relatavam que Saint-Germain parecia ter 40 a 60 anos em 1759. Uma das razões porque as pessoas pensavam que ele era mais velho mas não parecia, era porque, segundo dizia Gleichen em segunda mão, o compositor Jean-Phiilipe Rameau e um parente idoso de um embaixador francês em Veneza, ambos conheceram Saint-Germain em França. Mas também disseram que o tinham conhecido em Veneza em 1710, aparentando 50 anos, enquanto que em 1759 parecia um homem de 60. As pessoas assumiam que a dieta vegetariana de Saint-Germain e a ingestão regular de um chá contendo vagens de sene tinha-lhe permitido viver até uma idade invulgar. Era devido à sua dieta especial que ele nunca era visto a comer em público.

Mme. Du Hausset, uma dama de companhia de Mme. De Pompadour, disse que Saint-Germain “não era forte nem magro”, “vestia-se de forma simples, mas com bom gosto” e “tinha diamantes muito belos nos seus dedos bem como na sua caixa de rapé e no seu relógio”. Saint-Germain alegadamente disse-lhe: “Às vezes divirto-me, não fazendo as pessoas acreditar, mas em deixá-las acreditar que eu vivi nos tempos mais antigos”.

(…) Como muita gente testemunhou, Saint-Germain tinha um processo secreto para remover falhas dos diamantes e melhorar a sua cor e brilho. Numa ocasião o Rei mostrou-lhe um dos seus diamantes que tinha uma falha. Valia 6 mil livres, mas sem a falha valeria mais de 10 mil (cerca de 92 mil euros). Saint-Germain disse que conseguia eliminar a falha, e trouxe o diamante um mês mais tarde, embrulhado em amianto, sem a falha. Tinha o mesmo peso que antes. O joalheiro ofereceu 9600 livres por ele, mas o Rei preferiu guardá-lo como uma curiosidade.

Hoje em dia, a cor e brilho dos diamantes pode ser melhorado através da irradiação de elétrons ou neutrões e diamantes defeituosos podem ser melhorados se mergulhados em poderosos ácidos, isto se as falhas forem acessíveis através de uma rachadura. Não possuímos os detalhes das técnicas usadas por Saint-Germain, ele poderá ter usado ácidos (que eram amplamente usados no tingimento) e /ou outros processos elétricos, químicos ou alquímicos.

4. Missão de Paz

Por volta de 1760 Saint Germain participa num conjunto de manobras diplomáticas que tinham como objetivo fazer a paz com a Inglaterra, anulando a aliança com a Áustria, país governado pelos Habsburgos e cujo domínio sobre a Europa Saint-Germain não apreciava.

Numa carta a Frederico, o Grande, um diplomata da Prússia falava sobre Saint-Germain da seguinte forma:

“Ele é uma espécie de aventureiro, que tem vivido na Alemanha e Inglaterra como Conde de Saint-Germain, que toca violino excelentemente, mas que também trabalha por trás das cortinas, e por isso fica com uma boa imagem…
O Conde deve presentemente desempenhar um grande papel na Corte de Versalhes, participando nas reuniões íntimas do Rei e da Marquesa [de Pompadour]…[E]le parece ter comunicado ao Rei de França algumas descobertas curiosas que ele fez através da química, entre outros segredos de tingimento rápido de cores.”

Willem Bentinck, um membro do parlamento holandês comentava sobre St. Germain:

“A sua conversa agradou-me bastante, por ser extremamente brilhante, variada e cheia de detalhes com respeito a diferentes países onde havia estado, muitas historietas interessantes e eu estava extremamente agradado com o seu julgamento sobre pessoas e lugares do meu conhecimento. Os seus modos eram extremamente polidos e falava com um homem instruído da classe mais alta.
Eu pressionei-o com questões, a que ele respondeu rápida e claramente”.

Willem Bentinck (foto wikipedia)


Na verdade, muitas pessoas comentavam sobre a loquacidade e competência de Saint-Germain como um contador de histórias.

Sobre a imensa idade de Saint-Germain, o Conde Kauderback, um representante do Rei da Polónia em Haia comentou em 1760:

“A verdade é que um membro do Conselho Geral que tem cerca de 70 anos disse-me que viu este extraordinário homem na casa do seu pai quando ele era apenas uma criança, e no entanto, ele mantém os movimentos soltos e ágeis de um homem trintão. As suas pernas estão sempre prontas a dar uma volta, ele tem o seu próprio cabelo negro e que cresce em toda a sua cabeça e mal tem uma ruga na sua cara. Ele nunca come carne, exceto um pouco de carne branca de galinha e limita a sua nutrição a cereais, vegetais e peixe. Ele toma grandes cuidados com o frio.”

O conde Kauderback acrescenta que Saint-Germain alegava ter aprendido “os mais belos segredos da Natureza”, era extremamente rico e tinha-lhe mostrado pedras de valor inestimável.

Um dos grandes opositores de Saint-Germain foi o duque de Choiseul, que chegou a ser ministro dos Negócios estrangeiros francês.

Também em 1760 Choiseul escrevia ao embaixador francês em Haia, D’ Affry que uma carta que Saint-Germain havia escrito a Mme. De Pompadour “era suficiente por si só para demonstrar quão absurda é esta personagem; um aventureiro de primeira ordem e ainda por cima muito estúpido”.

“Você tem ordens minhas para avisá-lo que se me chegar aos ouvidos que ele se intrometeu em política, muito ou pouco, eu obterei uma ordem do Rei que, caso regresse a França fará com ele passe o resto dos seus dias numa masmorra…”

Mais tarde Saint-Germain comentaria:

“Ele (d’Affry] não percebe que eu tenho passado pelo meio de elogio e culpa, medo e esperança e não tenho outro objetivo que não seja o bem da humanidade, fazer o melhor possível pela humanidade. O Rei sabe bem isso, e eu não tenho medo dos senhores D’Affry ou Choiseul.

Mas Saint-Germain acabaria por ser traído e o seu papel como mediador de paz foi abortado. Luís XV recuou perante Choiseul e Saint-Germain foi sacrificado, fugindo para Inglaterra. É lá que recebe uma carta de um amigo holandês, o Conde de la Watu.

“(…) Eu ponho seja o que for em jogo e farei todos os esforços imaginários para prestar a minha homenagem a você pessoalmente, pois não me passa despercebido o facto, Senhor,  de seres o maior da Terra, e fico mortificado por gente malvada se ter atrevido a vos causar problemas. Ouvi que dinheiro e intrigas foram empregues contras as vossos esforços de paz.”

Mas as autoridades inglesas também não querem Saint-Germain no seu país e ele acaba por voltar a terras holandesas.


Continua na próxima semana…

sábado, 13 de julho de 2013

Mitos e verdades sobre o Conde de Saint-Germain (2ª parte)

Continuamos com a tradução (adaptada) do texto “O Conde de St. Germain” de David Pratt.

2. Em Inglaterra

“O primeiro traço histórico do Conde de Saint-Germain parece ser uma carta escrita a 22 de Novembro de 1735 em Haia por alguém que assina ‘P.M. de Saint-Germain’.(…) Um francês com o nome de Morin, então embaixador em Haia, disse que tinha lá conhecido Saint-Germain em 1735, e que tornou a encontrá-lo em França antes de 1760, tendo ficando surpreso pelo facto de Saint-Germain não parecer ter envelhecido mais do que ano.

Saint-Germain aparece depois em 1745, em Inglaterra, onde foi preso por suspeita de ser um espião. “ Foi neste ano que um jovem político Whig, chamado Horace Walpole escreveu uma carta a um compatriota:
“Há dias prenderam um estranho homem, que dá pelo nome de Conde de St. Germain. Ele está cá há dois anos, e não nos diz quem é nem de onde vem, mas professa duas coisas maravilhosas, que o nome pelo qual é conhecido não é o verdadeiro e que nunca teve um relacionamento com qualquer mulher – e nem com um sucedâneo [substituta]. Ele canta, compõe, toca maravilhosamente violino, é louco e não muito sensato. 
Dizem que é italiano, espanhol, polaco, alguém que casou com uma grande fortuna no México e fugiu com as suas jóias para Constantinopla. Dizem ainda que é um padre, um violinista, um grande nobre. O Príncipe de Gales tem manifestado uma curiosidade insaciável sobre ele, mas em vão.”

Num relatório datado de 21 de dezembro de 1745, um diplomata francês em Londres declarava que Saint-Germain “conhece todas as pessoas em altas posições, incluindo o Príncipe de Gales. Fala diversas línguas, francês, inglês, alemão, italiano, etc… é muito bom músico e toca vários instrumentos. Diz-se ser siciliano e de grande riqueza. O que tem levantado suspeitas sobre ele é o facto de deixar boa imagem aqui, recebendo grandes somas de dinheiro e liquidando todas as contas com tal rapidez que nunca precisa de ser recordado do facto. Ninguém imagina que um homem que era simplesmente um senhor, possa dispor de tão vastos recursos, a menos que ele trabalhe como espião. Ele foi deixado no seu apartamento sob guarda de um “State Messenger”, mas não se encontraram documentos na sua residência ou nele próprio que forneçam o mínimo de provas contra. Foi interrogado pelo Secretário de Estado [o duque de Newcastle], a quem ele não fornece uma explicação sobre si próprio que seja satisfatória, persistindo na recusa em declarar o seu verdadeiro nome, título ou ocupação, a não ser ao próprio Rei, pois como ele diz, o seu comportamento não tem sido de nenhum modo contrário às leis deste país, e é contra o direito comum privar a um estrangeiro honesto da sua liberdade sem formular uma acusação.
Pouco tempo depois foi libertado livre de acusações.”
(…)

O Duque de Newcastle (foto wikipedia)


Após 1745, nos doze anos seguintes o paradeiro preciso de Saint-Germain e as suas atividades são de natureza incerta. As suas próprias declarações indicam que ele estava provavelmente a desenvolver técnicas manufatureiras na Alemanha, principalmente na área do tingimento. Em 1755 ele esteve envolvido na promoção de uma máquina inventada por um francês para assoreamento e aumento da profundidade de portos, estuários e canais aquáticos, tendo feito uma viagem a Haia no fim de 1755 ou inícios de 1756.

3. Em França

(Imagem de hyperstory.com)


(…)
Saint-Germain entra em França durante o verão ou nos inícios do outono de 1757. Nessa altura França era governada por Luís XV.(…) Saint-Germain tinha ligações a pessoas próximas da Coroa francesa. Ao irmão da Mme de Pompadour (grande amiga do rei e sua antiga amante) ofereceu as suas técnicas de tinturaria e outras mais que providenciassem emprego, aumentassem a riqueza nacional e aliviassem a cobrança de impostos aos pobres.

Em Maio de 1758 tinha sido concedido a Saint-Germain o uso do Castelo de Chambord , a residência mais magnífica do Rei depois de Versalhes. Também foi-lhe concedido o uso de três cozinhas no rés-do-chão (para o processo de tingimento) e alguns dos seus anexos (para alojar a mão-de-obra). O trabalho não se havia iniciado pois tudo teria de vir da Alemanha. Ele conheceu o Rei e Mme. De Pompadour em Versalhes, tornou-se um convidado frequente nas ceias de Mme. De Pompadour e passou muitas noites com o Rei e a família real.

Luís XV (foto wikipedia)

(…) Naquela altura, Luís XV parecia ser uma das poucas pessoas – a outra pode ter sido o Duque de Newcastle – a quem Saint-Germain tinha revelado o seu segredo. Luís não recebia homens abaixo de uma determinada posição na nobreza, e não se teria permitido a sofrer a imposição de um charlatão. Vale a pena referir que o predecessor de Luís XV e bisavô Luís XIV (o “rei Sol”) tinha sido um bom amigo do pai de Saint-Germain, o príncipe Francisco II Rákóczy.

Mme. de Pompadour cerca de 1750 (foto wikipedia)

A hostilidade do Duque de Choisel para com Saint-Germain foi revelada durante uma refeição na sua casa. O duque perguntou à sua esposa porque ela não estava bebendo, e ela respondeu que estava seguindo o regime recomendado por Saint-Germain, e com grande sucesso. O duque proibiu-a imediatamente de “seguir as loucuras de um homem tão equivocado” e continuou alegando que sabia a verdade sobre Saint-Germain: “Ele é filho de um judeu português, que se impõe pela credulidade da cidade e da Corte.” Choiseul estava simplesmente a repetir boatos, embora seja provavelmente verdade que Saint-Germain  tenha passado algum tempo em Portugal, pois falava  a língua fluentemente.

O Duque de Choiseul (foto wikipedia)

Nas suas memórias, Mme. De Genlis (então conhecida como Stéphanie-Felicité du Crest) relata que durante o verão de 1759, quando tinha 13 anos, ela via Saint-Germain virtualmente todos os dias e às vezes, enquanto cantava, ele acompanhava-a de ouvido com o cravo. Ela descreve Saint-Germain como um bom médico e um grande químico. Ela também diz que ele pintava com óleos, e alegava que pintava quadros em que as pessoas usavam joalharia, que devido a um pigmento especial que ele havia descoberto, brilhava e refletia luz como se fosse feito de pedras verdadeiras. Saint-Germain era certamente um conhecedor de pinturas, mas se ele próprio fosse pintor, teríamos com certeza ouvido isso de outros escritores. Ela também escreve:

“A conversa de Saint-Germain era instrutiva e divertida, ele tinha viajado bastante e conhecia história moderna com extraordinário detalhe, que o fazia falar de povos antigos como se ele tivesse vivido com eles… Os seus princípios eram dos mais elevados, ele cumpria com os deveres externos da religião com precisão, era muito caridoso e toda a gente concordava que a sua moralidade era a mais pura.”
Contudo ela persistia em chamá-lo de charlatão. (…)

Não sabemos se Saint-Germain possuía poderes paranormais ou não, e não parecem haver relatos de testemunhas confiáveis de demonstrações disso, havendo no entanto relatos confiáveis de outros ocultistas importantes (como por exemplo Cagliostro e H.P. Blavatsky).


Continua na próxima semana…

sábado, 6 de julho de 2013

Mitos e verdades sobre o Conde de Saint-Germain (1ª parte)

O Conde de Saint-Germain (por Nicholas
Thomas, 1783)

O post desta semana é o primeiro de uma série de dez que terão como base o trabalho de David Pratt sobre o Conde de St. Germain publicado no “Exploring Theosophy”. Não será feita uma tradução na íntegra, pois o texto é demasiado extenso e contém detalhes que não são relevantes, para o que se quer transmitir - por um lado confirmar que o Conde de St. Germain foi um Adepto que tinha uma missão importante, num período conturbado da história europeia, e por outro lado desmistificar todo o folclore alimentado pelo lado mais deprimente da indústria new-age, que apresenta o Conde de St. Germain como mais um “santinho” para pôr no altar, o clássico mimetismo do catolicismo, onde os santos são substituídos por Mestres Ascensos cada um com o seu pelouro.

Sugere-se a consulta do texto original para as devidas referências bibliográficas (que são inúmeras) e para outros detalhes históricos que foram omitidos como acima se referiu. Depois da publicação da última parte, o texto no seu conjunto será colocado no Scribd.

Segue-se pois a tradução do texto (adaptado).

1. Introdução

O Conde de St.Germain foi uma figura enigmática que atingiu grande proeminência na alta sociedade da Europa durante meados do século XVIII. Era próximo de muitos reis, príncipes e figuras de estado e beneficiava da sua confiança e admiração. Ele era estupendamente rico, possuindo uma coleção de jóias de raro tamanho e beleza, que frequentemente dava como prendas. Os conhecidos louvavam os seus modos charmosos e gentis e enorme erudição. Ele foi músico, compositor e um virtuoso no violino. Também foi um químico brilhante, com um conhecimento ímpar de corantes e diamantes. Frederico, o Grande chamava-o de homem cujo enigma nunca fora desvendado. O seu nascimento e antecedentes são obscuros, mas no fim da sua vida ele revelou que era filho do Príncipe Rákóczy da Transilvânia.

As histórias sobre Saint-Germain embelezam muitas memórias do período, mas a sua fiabilidade varia. Muitas vezes contêm adornos, exageros e evidentes invenções, e várias dessas histórias não foram escritas pelos seus alegados autores. Existiam lendas de que ele poderia fundir diamantes pequenos em maiores, fazer ouro, de que possuía o segredo da eterna juventude e de que teria centenas ou mesmo milhares de anos de idade. Os seus contemporâneos às vezes referiam-se a ele (frequentemente de modo irónico) como o “Homem Maravilha”. Voltaire zombava, chamando-o “um homem que nunca morre e que sabe tudo”. Embora Saint-Germain tenha muitas vezes sido rotulado de charlatão, aventureiro, vigarista e espião, não existe nenhuma evidência convincente que suporte estas alegações.

O nome de Saint-Germain é frequentemente ligado à alquimia, ocultismo e sociedades secretas. Helena P. Blavatsky escreve: “O Conde de Saint Germain foi indubitavelmente o maior Adepto oriental que a Europa já conheceu durante os últimos séculos. Porém, a Europa não o reconheceu.” [Glossário Teosófico, Ed. Ground, p.590]. De acordo com Cooper-Oakley “ele trouxe o seu enorme conhecimento para ajudar o Ocidente, para afastar um pouco as nuvens tormentosas que se adensavam rapidamente à volta de algumas nações. Mas infelizmente as suas palavras de aviso caíram em orelhas moucas e os seus conselhos foram todos ignorados.”


Continua na próxima semana…