Hoje dou início à minha participação activa neste blog.
Crescer e Ser é uma caminhada permanente. Descobrir-se mais completo, mais vivo, mais consciente é um propósito.
Partilhando, tornamo-nos mais do que somos, integramos e descobrimos o Outro, o Desconhecido, num espaço comum, dentro de nós. Esse diálogo é precioso e transformador.
E deixo aqui um inspirador poema de Juan Ramón Jiménez Mantecón:
EU não sou eu
Eu não sou eu.
Sou este que vai ao meu lado sem eu vê-lo;
que, por vezes, vou ver,
e que, às vezes, esqueço.
O que se cala, sereno, quando falo,
o que perdoa, doce, quando odeio,
o que passeia por onde estou ausente,
o que ficará de pé quando eu morrer.
Apontamentos sobre teosofia, astrologia, reencarnação, karma e outros temas serão trazidos regularmente a este blog. Os autores podem ser contactados através de blog.luaemescorpiao@gmail.com
domingo, 15 de janeiro de 2012
EU não sou eu
sexta-feira, 6 de janeiro de 2012
Alice Bailey e a Teosofia original
O objectivo primeiro do Lua em Escorpião é dar uma
direcção àqueles que se interrogam sobre os mistérios do Homem e do Universo. O
autor que assina este post considera que a Teosofia original é a representação
mais fiel das Verdades Eternas e que a sua promulgação constitui um dever que
tentarei cumprir da melhor maneira durante esta encarnação. É também verdade que
o melhor modo de divulgar a Teosofia é relacionar os seus postulados com a
ciência moderna e com o mundo que nos rodeia. Daí a minha grande admiração
pelo blog Theosophy Watch, de Odin Townley e pelo site Exploring Theosophy,
de David Pratt, que são a melhor continuação do trabalho de Helena Blavatsky,
que sempre fundamentava o que escrevia aproveitando-se das novidades
científicas da sua época. Outros teosofistas dedicam-se à explanação do
ensinamento da Filosofia Perene sem esta vertente, e o seu trabalho é também
meritório. São exemplos Philaletheians, de Chris Bartzokas e FilosofiaEsotérica, coordenado por Carlos Cardoso Aveline.
Estes e outros sites estão listados no blogroll do Lua
em Escorpião. E onde entra Alice Bailey nesta história toda? Para começar e
para aqueles que possam não conhecer esta personagem, podemos começar por dizer
que a Srª Bailey era membro da Sociedade Teosófica (ST), mas que por
dificuldades de afirmação e de compreensão por parte de outros teosofistas
acabou por sair e criar o seu próprio caminho, que se materializou numa extensa
obra e numa escola, a Escola Arcana. Bailey assegurava que estava em contacto
com os Mestres dos Himalaias, principalmente com um deles que se autodenominava
"Tibetano", já conhecido da literatura teosófica original, pelas
iniciais DK. Bailey escreveu os seus muitos livros desde 1922 e até a sua morte
em 1949, sob a suposta inspiração deste Mestre. Obviamente que o facto de dizer
que comunicava com Mestres não lhe granjeou muitas simpatias na ST. Aí tinha a
competição da dupla Besant-Leadbeater, na altura em grande efervescência,
aguardando a vinda do novo "Avatar", para a qual tinham treinado o
jovem Krishnamurti. Esta é outra história muito curiosa que ficará para um
futuro post.
E então qual é o problema com Alice Bailey? Mesmo hoje
em dia, Bailey tem muitos seguidores, inclusive em Portugal conheço grupos que
se reúnem para discutir o conteúdo dos seus livros. Porventura até Bailey é mais conhecida do que Blavatsky. Mas será aquela uma
continuadora do trabalho iniciado em 1875? Aqui é que já não há consenso. No
fim dos anos 20 do século passado, uma discípula de HPB, que pertenceu ao grupo
restrito de alunos que a Velha Senhora constituiu perto do final da sua vida,
escreveu um pequeno livreto contestando a ligação entre os ensinamentos
de HPB e de Bailey, criticando fortemente as obras desta. Essa discípula era
Alice Leighton Cleather e o livreto foi escrito em conjunto com Basil Crump.
Alice publicou várias obras, mas como nunca concordou nem com o que aconteceu à
ST original nem com nenhuma das organizações principais que se formaram a
partir daquela, está hoje um pouco esquecida. Infelizmente só a citam
quando querem atacar alguém, pois realmente os seus argumentos contra são
bastante contundentes. A sua escrita é clara e recomendo os seus livros
vivamente, sendo que a maior parte deles pode ser encontrado gratuitamente na
web, na sua língua original, o inglês.
Mais tarde, Victor Endersby, outro teosofista, pegou
no texto de Cleather e de Crump e expandiu-o, acrescentando comentários
bastante depreciativos e quase jocosos dirigidos a algumas das frases dos
livros de Bailey.
E as críticas mais fortes dirigem-se a quê? Em
primeiro lugar à história do "Reaparecimento do Cristo", um decalque
da fantasia leadbeateriana da descida à Terra de um novo instrutor da
humanidade. Nada disto tem raízes em Helena Blavatsky que nunca afirmou tal
coisa. A única coisa que HPB transmitiu é que o aparecimento do próximo Buda
está ainda muito longe. Outro problema é a reinterpretação de algumas
expressões como "Logos", as referências a "Deus" e ao
"Mestre Jesus". Tudo em contradição com as referências contidas nas
próprias Cartas dos Mahatmas recebidas por A.P. Sinnett. Os ensinamentos sobre
conduta sexual são também muito distintos dos que se encontram nos escritos de
HPB sobre Ocultismo Prático.
Em termos genéricos, estes autores consideram que
Bailey poderá ter agido consciente ou inconscientemente sob a direcção de
forças que queriam minar o trabalho dos primeiros teosofistas, e dada a extensa
ligação com o imaginário próximo do Cristianismo, há a sugestão de que houve
influência dos Irmãos da Sombra neste trabalho, cuja mão chega até ao próprio
Vaticano (nas próprias palavras dos Mestres). Essa é a hipótese mais negativa.
Outros referem que poderá simplesmente se tratar de um caso de projecção de
pensamento criativo, mas a verdade é que certas passagens são tão rebuscadas
que estão para lá das capacidades intelectuais de Bailey, pelo que certamente
ela teria certas capacidades mediúnicas.
Já diz o ditado que nem tudo o que reluz é ouro e no
campo da espiritualidade esta frase é muito importante. Comecei a minha
caminhada com um curso de reiki. Hoje não é área que recomende e o próprio
facilitador do curso é uma pessoa que, com os conhecimentos que hoje tenho,
poderia catalogar como alguém da Senda da Mão Esquerda. Obviamente isto é uma excepção, mas o reiki para a maior parte das pessoas desvia as atenções do foco da ética para o Eu Inferior. Depois estudei
espiritismo, onde tive os primeiros contactos mais abrangentes com conceitos
como o karma e a reencarnação e também do processo pós-morte. Pouco tempo
depois, conheci a Teosofia. Comprei os livros de HPB, mas a verdade é que sendo
de difícil leitura, há sempre aquela tentação de que “existe alguma coisa mais
simples, e que respeita a ideia original”. Foi assim que cheguei aos livros de
Annie Besant, Charles Webster Leadbeater e de Alice Bailey. Desconfiado com algumas
afirmações do antigo clérigo presbiteriano, descobri a biografia escrita por
Gregory Tillett. Juntando alguns textos que estão no site Filosofia Esotérica (como este) e
sabendo um pouco mais sobre a história da Sociedade Teosófica, retornei a um
porto que nunca quis abandonar, a obra de HPB, cujo primeiro encontro deixou em
mim uma sensação avassaladora de reencontro com algo que há muito procurava.
Não se pode pois dizer que na espiritualidade tudo é
igual e universal. Não é. E isso é um risco que muitos correm e um engano em
que muitos caem. É preciso ter poder discriminatório. Não se deixar enganar
pelos sentimentalismos próprios do Eu Inferior. As armadilhas no progresso
espiritual são muitas e estão em todo o lado. Porque é assim que tem de ser, é
o único modo de avançarmos.
Isso não implica nos fecharmos numa sala apenas com os livros "eleitos". Todos os anos saem obras interessantes que permitem desenvolver novos enfoques sobre os
ensinamentos teosóficos. Livros sobre reencarnação, experiência de quase-morte
e outros fenómenos. Ou mesmo obras sobre física, astronomia.
Não podemos estar no campo da espiritualidade como
adeptos de um clube, como se de futebol se tratasse. Há que saber analisar,
reflectir e ir fazendo evoluir a nossa construção mental de como funciona o
Universo. Há muita coisa para aprender e há muito conhecimento para transformar
em Sabedoria através da nossa vida do dia-a-dia.
Por isso, apenas peço aos que são admiradores de Alice
Bailey, que vejam este post e as críticas à sua obra como hipótese de trabalho
e que façam a sua própria avaliação. Pelo menos um ponto a favor os seguidores
de Bailey têm. O ideal de fraternidade humana que construíram e que em
grande medida praticam é de relevar e se calhar supera o que a própria
Sociedade Teosófica conseguiu, não obstante ser esse o primeiro objectivo dos
três principais que orientam a ST.
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domingo, 1 de janeiro de 2012
2012, o ano de todos os desastres?
2012 já se iniciou. O que se pode dizer das teorias que apontam para que seja um ano apocalíptico?
Para começar não existem registos na Teosofia original que refiram qualquer evento especial para este ano. Aliás, as profecias que se podem encontrar sobre grandes cataclismos dirigem-se a anos bem mais longínquos e falam da destruição de parte da Europa e da América que começará com o afundamento da Grã-Bretanha. Isso só sucederá daqui a 25 000 anos. Não invalida que pequenos cataclismos aconteçam até lá. Aliás, existem teosofistas que interligam a crise climática a uma mudança de ciclo da humanidade, considerando fortemente a possibilidade de existirem cataclismos no planeta. A maior parte das teorias sobre o fim do mundo em 2012 derivam de canalizações, nalguns casos de alienígenas que estão noutras dimensões (?!). Fala-se de um planeta Nibiru que poderá chocar com a Terra, um assunto que é alvo de chacota por parte da comunidade científica. Especulação sobre o fim do mundo é algo que acompanha a humanidade e provavelmente é uma presença no inconsciente de memórias de grandes destruições que sucederam aquando do final das Raças, particularmente da Raça precedente, a Atlante. A suposta profecia dos Maias é aqui desmistificada pelo téosofo David Pratt, que tem um site interessantíssimo, mesmo para aqueles que não tenham qualquer ligação à Teosofia. Normalmente Pratt faz a ligação entre temas sobre os quais a ciência também se debruça e a Teosofia. Tendo em conta os autores que cita, Pratt deverá estar ligado à Sociedade Teosófica de Pasadena, organização que respeita a teosofia original.
Os astrólogos há muito que se preocupam com algumas posições planetárias no período entre 2010-2015, particularmente com Urano em Carneiro e Plutão em Capricórnio (os dois planetas em signos cardinais), formando uma quadratura. Circunstâncias destas não são muito tranquilizantes como diz aqui e aqui Robert Hand.
Não acreditando em grandes cataclismos, não duvido que 2012 será um ano turbulento e 2013 não será diferente. O grau de turbulência será provavelmente maior que o de 2011, que já não foi um ano particularmente fácil. Seja como for, espera-se que seja um ano de trabalho frutuoso, especialmente para todos aqueles que desejam ajudar no progresso da raça humana, no campo ético e espiritual.
Para começar não existem registos na Teosofia original que refiram qualquer evento especial para este ano. Aliás, as profecias que se podem encontrar sobre grandes cataclismos dirigem-se a anos bem mais longínquos e falam da destruição de parte da Europa e da América que começará com o afundamento da Grã-Bretanha. Isso só sucederá daqui a 25 000 anos. Não invalida que pequenos cataclismos aconteçam até lá. Aliás, existem teosofistas que interligam a crise climática a uma mudança de ciclo da humanidade, considerando fortemente a possibilidade de existirem cataclismos no planeta. A maior parte das teorias sobre o fim do mundo em 2012 derivam de canalizações, nalguns casos de alienígenas que estão noutras dimensões (?!). Fala-se de um planeta Nibiru que poderá chocar com a Terra, um assunto que é alvo de chacota por parte da comunidade científica. Especulação sobre o fim do mundo é algo que acompanha a humanidade e provavelmente é uma presença no inconsciente de memórias de grandes destruições que sucederam aquando do final das Raças, particularmente da Raça precedente, a Atlante. A suposta profecia dos Maias é aqui desmistificada pelo téosofo David Pratt, que tem um site interessantíssimo, mesmo para aqueles que não tenham qualquer ligação à Teosofia. Normalmente Pratt faz a ligação entre temas sobre os quais a ciência também se debruça e a Teosofia. Tendo em conta os autores que cita, Pratt deverá estar ligado à Sociedade Teosófica de Pasadena, organização que respeita a teosofia original.
Os astrólogos há muito que se preocupam com algumas posições planetárias no período entre 2010-2015, particularmente com Urano em Carneiro e Plutão em Capricórnio (os dois planetas em signos cardinais), formando uma quadratura. Circunstâncias destas não são muito tranquilizantes como diz aqui e aqui Robert Hand.
Não acreditando em grandes cataclismos, não duvido que 2012 será um ano turbulento e 2013 não será diferente. O grau de turbulência será provavelmente maior que o de 2011, que já não foi um ano particularmente fácil. Seja como for, espera-se que seja um ano de trabalho frutuoso, especialmente para todos aqueles que desejam ajudar no progresso da raça humana, no campo ético e espiritual.
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terça-feira, 27 de dezembro de 2011
Himalaias - A viagem dos jesuítas portugueses
Uma série de 4 episódios, emitida na RTP2 e estreada em 20 de Novembro, abordou a viagem de padres jesuítas portugueses pelo Tibete, Nepal e norte da Índia, no 2º quartel do século XVII. Viagens duras por território inóspito e praticamente desconhecido, à procura de um reino cristão (Cataio) que afinal não existia. Os passos daqueles missionários são reproduzidos pelo viajante e investigador da expansão marítima portuguesa, Joaquim Magalhães de Castro. E o que tem de especialmente interessante para a comunidade teosófica este documentário? Ora, alguns dos sítios, cidades e províncias por onde passa Joaquim de Castro são citados nos livros que relatam as viagens dos primeiros teosofistas. Uma obra onde se podem encontrar também referências a Leh, Ladakh, Caxemira, Monte Kailash e outros mais é nas Cartas dos Mahatmas.
Mesmo sem esta curiosidade o documentário é uma peça valiosa, provavelmente umas das melhores produções portuguesas dos últimos tempos nesta área. Pode aceder à página do programa no site da RTP aqui e ver os episódios online.
Mesmo sem esta curiosidade o documentário é uma peça valiosa, provavelmente umas das melhores produções portuguesas dos últimos tempos nesta área. Pode aceder à página do programa no site da RTP aqui e ver os episódios online.
sábado, 17 de dezembro de 2011
Sobre o karma
Karma é
outra palavra que se vulgarizou. O seu significado real e as implicações da lei
que lhe está associada, são muitas vezes alvo de confusão, o que pode conduzir
ao desespero e à descrença, pois não raramente, indivíduos que praticam bons
actos (vamos eliminar aqui o erro de perspectiva) vêem-se no meio de
dificuldades tais, que mais parecem um castigo que uma retribuição.
Mais uma
vez, sem entrar em grandes detalhes, vou deixar aqui algumas pinceladas sobre
este tema.
Segundo o
astrólogo Stephen Arroyo (um dos mais importantes da linha da astrologia
psicológica, a par de Liz Greene e Howard Sasportas), karma refere-se à lei
universal de causa e efeito, sendo que a lei do karma pode ser equiparada à lei
mecânica de Newton, que estabelece que "toda a acção desencadeia uma
reacção igual ou oposta", sendo no fundo "um método para atingir e
manter a justiça e o equilíbrio universais". Aliás a palavra karma significa
acto ou acção. Arroyo acrescenta que "o conceito de karma baseia-se no
fenómeno de polaridade, pelo qual o universo mantém uma situação de
equilíbrio", não um estado de inércia, mas um "equilíbrio dinâmico,
constantemente em alteração". Claro que a doutrina do karma está
intimamente ligada à da reencarnação e Arroyo também refere isso na sua obra
"Astrologia, Karma e Transformação", traduzida para português pela
Editora Europa-América, de onde foram retiradas todas as referências anteriores
e seguintes respeitantes ao mesmo autor. Escreve ele também, que uma antiga
tradição da Índia divide o karma em três grupos: o presente, ou seja, aquele
que deve ser enfrentado na presente vida (pralabd karma); o karma que geramos
nesta vida e cujos efeitos só virão mais tarde (kryaman karma); e aquele que
acumulámos em muitas vidas mas que na presente vida em particular não está em
actividade (sinchit karma).
Poderá
também ser feita outra divisão, pois o indivíduo além do seu próprio karma
estritamente individual, ainda está sujeito ao de grupo (familiar, regional,
nacional). E é o cruzamento de todas estas variáveis que acaba por constituir a
teia das nossas vidas. É fácil assim perceber o quão complicado é tentar entender
a causa de determinada situação. As variáveis são tantas que determinados
acontecimentos parecem inexplicáveis, injustos e revoltantes. Noutros casos não
é assim. Uma mente atenta, com a correcta medida de auto-crítica é capaz de
olhar para a situação presente e avaliar o que fez de bem ou de mal no passado
e perceber o que a conduziu àquele fim. Aliás, este exercício de auto-exame é
extremamente útil para o progresso espiritual do indivíduo, embora não se deva
cair em extremos no que respeita a tentar descobrir o fio do karma, pois muitas
vezes este não é linear.
Prossigamos
agora com Helena Blavatsky, que na sua obra mais simples, mas imprescindível,
"A Chave para a Teosofia" dedica várias páginas à lei do karma
(começando na p. 176, da edição em português), que define como sendo
"aquela lei invisível e desconhecida que ajusta sábia, inteligente e
equitativamente cada efeito à sua causa, remontando esta última ao seu
produtor". Mas, a ideia mais importante que contêm estas páginas do livro
de HPB é a distinção entre o karma estritamente individual e a totalidade do
karma que o indivíduo recebe. Blavatsky diz que não se pode afirmar
categoricamente que “cada meio ambiente pessoal e as condições de vida
específicas, nas quais se encontra cada pessoa, são nada mais que o karma
retributivo que o indivíduo gerou numa vida anterior”. Mais à frente,
acrescenta que “seria impossível ao karma reajustar o equilíbrio de poder na
vida e no progresso mundiais” e que “uma lei oculta, rege que nenhum homem pode
tornar-se superior às suas falhas individuais sem elevar, nem que seja apenas
um pouco, todo o organismo do qual ele é uma parte integral”. O nosso
contributo para o bem geral permite equilibrar o karma que não é estritamente
individual e que nesta obra teosófica é chamado de karma nacional ou distributivo.
HPB usa também uma excelente metáfora para explicar o karma, através da imagem
da queda de uma pedra num lago. Quando isto sucede formam-se ondas que oscilam
para a frente e para trás até que a água retorna à sua condição de
tranquilidade. Assim toda a acção produz uma série de perturbações até que o
equilíbrio seja restaurado, i.e. todas as forças postas em movimento têm de
“reconvergir” ao ponto inicial. Importante também é a noção de que “o karma
devolve a cada homem as reais consequências das suas próprias acções, sem
qualquer consideração para com o seu carácter moral”.
Mabel
Collins, na obra “Luz sobre o Caminho” originalmente publicada em 1885 (da qual
existem duas traduções para português, uma traduzida por Fernando Pessoa e
publicada mais recentemente pela “Assírio & Alvim e outra da Editora
Teosófica) inclui uma comunicação de um Mestre sobre o karma que está em linha
com o que Blavatsky escreveu anos mais tarde. O texto é de uma beleza
extraordinária, mas vou citar apenas breves passagens: “Não desejeis semear
para uma colheita vossa: desejai apenas semear aquela semente cujo fruto
alimentará o mundo”. Mais à frente se alerta para aquelas situações onde
inconscientemente a acção do indivíduo tem um fundo egoísta.
O último
parágrafo é de suma importância e de seguido o transcrevo: “ A operação das
leis reais do karma não é para ser estudada senão quando o discípulo chegou ao
ponto em que elas já não o afectam. O iniciado tem direito a pedir que lhe
sejam ensinados os segredos da Natureza e as leis que regem a vida humana.
Obtém este direito por ter escapado dos limites da Natureza e se ter libertado
das regras que governam a vida humana. Tornou-se uma parte reconhecida do
elemento divino, e já não é afectado por o que é temporário. Então obtém
conhecimento das leis que governam as condições temporárias. Por isso vós que
desejais compreender as leis do karma, tentai primeiro libertar-vos dessas
leis; e só o podereis conseguir fixando a vossa atenção em aquilo que essas
leis não afectam.” (p.72 da edição da Assírio & Alvim).
É preciso
pois muita cautela, em tirar conclusões precipitadas sobre o funcionamento da
lei do karma e alguma literatura new-age não ajuda muito nesse propósito. A ideia
da aplicação da lei de talião (rigorosa reciprocidade do crime e da pena) no âmbito
da doutrina do karma também é outro erro onde às vezes se incorre, pois não significa que a correcção do desequilíbrio resulte de uma troca de lugar entre a vítima e o
agressor num contexto semelhante.
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sexta-feira, 9 de dezembro de 2011
Um breve apontamento sobre reencarnação
Hoje um conceito bastante popularizado, não há grandes certezas onde se terá originado a ideia de reencarnação. Sabe-se que na Grécia Antiga o tema era discutido, e provavelmente em tempos mais remotos, também na Índia se falava de reencarnação. O extraordinário livro de Sylvia Cranston "Reincarnation - The Phoenix Fire Mystery" fala de como aquele conceito está presente nas culturas mais antigas dos diferentes continentes e de como ele foi passando de geração em geração até aos dias de hoje. A reencarnação é um tema muito abrangente e muitas linhas gerará neste blog, mais ainda quando o juntarmos a todo o processo que ocorre entre duas vidas. Não podemos negar o papel da doutrina espírita, no reavivar do conceito na 2ª metade do séc. XIX. Remar contra os ditames do cristianismo foi algo de muito importante, em relação ao qual Kardec e seus seguidores merecem ser reconhecidos. Naquele tempo, a ideia de reencarnação conduziu muita gente, especialmente de parcos recursos, às fileiras do espiritismo. Era-lhes assim mais fácil compreender as agruras da vida e esperar que uma encarnação futura trouxesse uma vida mais feliz. Curiosamente, segundo Brian Weiss, foi o mesmo motivo que levou ao desaparecimento da reeencarnação do cristianismo. A pressão da mulher de um imperador romano, a quem lhe desagradava a ideia de um dia ter que trocar de posição com os seus servos, terá originado a negação da reencarnação dentro do cristianismo. Diz-se que muitos dos primeiros cristãos defenderiam a ideia (é importante ter presente a heterogeneidade dos primeiros grupos de cristãos, resultado da perseguição de que eram alvo, dentro do Imperio Romano). Como se sabe no Budismo e no Hinduísmo a reencarnação é parte integrante da doutrina.
A teosofia também tem a reencarnação como uma lei universal. Ao contrário do que acontece com "Ísis sem Véu", onde Blavatsky é relativamente económica a falar sobe o tema (e onde alguns apontam aparentes contradições, que são explicados por HPB aqui), na terceira proposição fundamental da "Doutrina Secreta" lemos: "A doutrina axial da Filosofia Esotérica não admite a outorga de privilégios nem de dons especiais ao homem, salvo aqueles que forem conquistados pelo próprio Ego com o esforço e mérito pessoal, ao longo de uma série de metempsicoses e reencarnações" (pp.84-85, da edição em português). Mais claro, não poderia estar.
A teosofia tem divergências em relação ao espiritismo em dois pontos fundamentais: no princípio reencarnante e no tempo entre encarnações. Para o espiritismo aquando da reencarnação não há diferença entre a personalidade e individualidade. No espiritismo também não há distinção entre alma e espírito e com a morte o homem perde apenas o corpo físico. A ligação entre o princípio superior e o corpo físico é estabelecido através do períspirito, um "substrato fluídico" que faz a intermediação da energia vital Já para a teosofia, o que reencarna são os princípios superiores, pois além do corpo físico, outros princípios inferiores também estão destinados à decomposição no plano astral. Isto significa que além da morte física, existe uma segunda morte, que determina a separação do eu superior do princípio ligado aos desejos mais terrenos. Obviamente que neste post não se pretende ser muito concreto nem rigoroso sobre este ponto; para explicá-lo com mais detalhe será necessário no mínimo um post. Com certeza, voltaremos a este assunto. Relativamente ao período entre-vidas, no "Livro dos Espíritos" na resposta à questão 224a, fala-se de "poucas horas a intervalos mais ou menos longos". No entanto a noção prevalecente entre os espíritas é de um período entre encarnações não muito longo. Já na teosofia, Blavatsky em "A Chave para a Teosofia", falava de 1000 a 1500 anos (p.122 da edição em português), e William Quan Judge no cap. XIII de "Oceano da Teosofia", refere também 1500 anos. Contudo nas "Cartas dos Mahatmas" fala-se de 1000 a 3000 anos ou mais, o que não entra em contradição com os dois autores anteriores.
Alguns teosofistas têm como opinião que estes números serão mais adequados quando a população encarnada é muito menor que a presente. Os historiadores estimam que a população se tenha mantido relativamente estabilizada até ao início do séc. XVIIII (embora isso seja quase adivinhação, até se levarmos em conta as considerações feitas pelos Mestres sobre os conhecimentos dos nossos historiadores). A partir daí começou a subir vertiginosamente. De 600 milhões em 1700, somos hoje 7 mil milhões, ou seja, quase 12 vezes mais. Como não conheço dentro da teosofia original referência ao número de egos humanos ligados à esfera terrestre não é possível fazer grandes cálculos (embora há quem tenha tentado). Mas, a primeira ideia que nos ocorre é que se temos 7 mil milhões de encarnados, o tempo de entre vidas médio deverá ser menor. Provavelmente, este período que vivemos será mais a excepção que a regra, e portanto a população tenderá a regressar a números bem inferiores. Mas esta ideia é um pouco especulativa, não aparece na literatura teosófica. Alguns teosofistas, como a própria Sylvia Cranston, dão como referências do tema de reencarnação, pessoas como Brian Weiss, médico norte-americano que usa a terapia de regressão hipnótica como meio de cura e que por esta via obtém informações de vidas passadas dos seus pacientes. Este processo deu origem a uma série de livros que tornaram Weiss famoso. Ele afirma contudo, que não é a veracidade das histórias que interessa, mas a cura do paciente. Nas histórias dos pacientes de Weiss, os tempos entre vidas são curtos, especialmente nos últimos 1000 anos, onde nalguns casos existiram 3 encarnações. Aliás o repouso no Devachan (um estado de bem-aventurança dos Egos na maior parte do período entre-vidas) é até inexistente para os ocultistas que passam a fase de provação. Diz Blavatsky, referindo-se a estes: "...sua personalidade tem de desaparecer, e ele tem que se tornar uma força benéfica da Natureza. Depois disso, só há dois pólos opostos perante ele, duas sendas, e nenhum lugar intermediário para descanso. Ou ele, ascende trabalhando com afinco, degrau por degrau, geralmente através de numerosas encarnações e sem intervalo para repouso no Devachan à condição de Mahatma (a condição de Arhat ou Bodhisattva), - ou ele se permitirá escorregar escada abaixo ao primeiro passo dado em falso, e despencar até à condição de Dugpa..." (pp. 175-6 do artigo Ocultismo versus Artes Ocultas in Ocultismo Prático, Editora Teosófica, versão em inglês aqui).
O livro de Sylvia Cranston, citado no início do post, incompreensivelmente nunca traduzido para português, é uma obra única e que recomendo vivamente, a par de "Reincarnation-A New Horizon in Science, Religion, and Society".
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sexta-feira, 2 de dezembro de 2011
Algumas notas sobre astrologia
Se existe uma arte
mal compreendida pela grande maioria da humanidade essa arte é sem dúvida a
astrologia. Velha companheira da Humanidade (o desde quando não será discutido
neste post), sobre ela HPB disse: "A astronomia e a astrologia são irmãs
gêmeas, igualmente respeitadas e estudadas na antiguidade. Foi recentemente que
a arrogância dogmática dos astrónomos ocidentais reduziram a sua irmão mais
velha à posição de Cinderela no domínio da Ciência" (Collected Writings,vol.VI, pp.346-7).
Efectivamente até ao
sec. XVII a astrologia era vista como uma arte respeitável e muitos dos seus antigos
mestres tinham altos conhecimentos científicos, dominando as restantes das
chamadas artes liberais como a aritmética, a geometria, a astronomia, a música,
a retórica e a gramática. Para os estudiosos da história da ciência mais
puristas deverá ser doloroso ver nomes como Ptolomeu ou Kepler ligados à
astrologia. Este último dá até o nome a uma instituição norte-americana,
localizada em Seattle que ensina astrologia, o Kepler College.
Com a substituição do
modelo ptolemaico, que colocava a Terra numa posição central, pelo modelo heliocêntrico,
a astrologia foi perdendo terreno, sendo progressivamente afastada das
universidades onde era ensinada. Com a quase ausência de grandes praticantes da
arte, arrastou-se penosamente até aos inícios do sec. XX, perdendo-se muito do
conhecimento que vinha já de tempos remotos. Alan Leo, um teosofista inglês,
acaba por ter um papel importante no reaparecimento da astrologia, juntamente
com Walter G. Old (que escrevia sob o pseudónimo Sepharial), este último membro
do grupo mais restrito de estudantes que aprenderam com Helena Blavatsky, nos
últimos anos de vida da Velha Senhora. A partir daí outros nomes importantes
apareceram como o de Charles E. O. Carter e particularmente o de Dane Rudhyar, que
acabaria por influenciar o curso da astrologia no que restou do séc. XX, com o
aparecimento da chamada astrologia psicológica, que muito deve ao cruzamento da
visão de Carl Jung com os escritos de Rudhyar sobre a “Astrologia Humanista”,
destacando-se a importância do seu livro “Astrologia da Personalidade”
publicado em 1936.
No final do século XX
outro movimento começa a surgir, ligado à recuperação da Astrologia dita
tradicional. Obras em latim, árabe e em grego começam a ser traduzidas por
astrólogos com sólida formação académica e os clássicos voltam à ordem do dia.
Embora a astrologia psicológica mantenha o seu predomínio, a astrologia
tradicional vai ganhando cada vez mais adeptos, que fascinados pela sua maior
concisão e suporte metafísico tentam extrair o que há de mais valioso nos
antigos livros e misturar com o que de positivo apareceu nos últimos 100 anos
no domínio da astrologia.
Questões centrais
continuam a intrigar o meio: é possível a astrologia ocidental e a védica serem
ambas válidas, quando existem divergências nos fundamentos? Robert Hand, aborda aqui o aspecto histórico desta questão.
E o sistema de casas?
Várias versões, nenhuma unanimidade.
Até que ponto temos livre
arbítrio? A visão da astrologia moderna contrasta fortemente com a da
astrologia tradicional…
Como se vê, não
faltam temas para reflectir dentro da astrologia.
Para terminar o post,
um excerto de um dos mais conhecidos textos de HPB sobre a astrologia, que pode
ser encontrado nos seus Collected Writings (vol. VI, pp. 227-30): “(…) A ideia
comum parece ser que os planetas e as estrelas exercem uma certa influência
sobre o destino do homem e que a ciência da astrologia pode determinar; e que
existem meios ao alcance dessa ciência que podem ser usados para aplacar as “estrelas
maléficas”. Esta noção rudimentar, não entendida filosoficamente, conduz a duas
falácias não científicas. Por um lado dá origem a uma crença na doutrina do
fatalismo, que diz que o homem não tem livre arbítrio, na medida em que tudo é
predeterminado, e por outro lado leva a que se suponha que as leis da Natureza
não são imutáveis, dado que certos rituais podem mudar o normal curso dos acontecimentos.(…)
Apesar do estudo desta ciência poder permitir a determinação do futuro curso de
acontecimentos, não se pode daí depreender que os planetas exercem algum tipo
de influência sobre esse curso. O relógio indica; não influencia o tempo. E um
viajante de longe muitas vezes tem de acertar o seu relógio de forma a que ele
indique correctamente as horas do local que ele visita. Portanto, apesar dos
planetas poderem não ter um papel na alteração do destino do homem, a sua posição
pode indicar como será o destino…(…) O que é o destino? Tal como entendido pelo
Ocultista, é meramente a cadeia de causação produzindo as seus correspondentes
séries de efeitos.(…) a nossa actual encarnação, com todas a suas condições, é
a árvore que cresceu a partir do que semeamos em encarnações passadas.”
A relação entre
astrologia e teosofia é um assunto que levanta acesas discussões,
principalmente por parte de alguns astrólogos, mas quem quiser saber o que HPB
escreveu sobre astrologia, pode adquirir um pequeno livro que compila o que
Blavatsky escreveu sobre o tema, chamado “Astrology of the Living Universe”, de
Henk J. Spierenburg.
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