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sábado, 2 de julho de 2016

A controvérsia sobre o quinto e sexto volumes de "A Doutrina Secreta" (4ª parte)

Prosseguimos com a tradução do artigo de Daniel H. Caldwell, “O mito do terceiro volume desaparecido de A Doutrina Secreta”. É fundamental ler os posts das semanas anteriores antes de continuar.

Boris de Zirkoff (na SD Introd., p.69) refere que Geoffrey Barborka salienta que o “Prólogo” de HPB não é o “Introdutório” (ou qualquer outra secção) no Volume I de “A Doutrina Secreta” conforme foi publicada em 1888. Isso é verdade. Mas a que está HPB a se referir na sua carta? A texto desaparecido não mais disponível? Não, ela está a falar sobre o manuscrito do Volume I de “A Doutrina Secreta” (em linha com: o descrito nas suas cartas de 1886; o parcialmente encontrado no Manuscrito de Würzburg que sobreviveu; e o que foi lido pelos Keightley em maio de 1887). Boris de Zirkoff prossegue:


Dois dos teosofistas mais conhecidos do século XX
Emmett Small (à esquerda) e Boris de Zirkoff (à direita)
Foto: Point Loma School of Theosophic Perennialism


“Também é importante lembrar que a descrição deste material por parte de  HPB na sua carta para Sinnett não se coaduna com nenhum do material variado reunido e publicado em 1897 sob o título enganador de “A Doutrina Secreta – Volume III”.”

Contudo, tanto quanto posso perceber, a descrição de HPB para Sinnett do seu “enorme Capítulo Introdutório” coaduna-se bastante bem não só com o volume de 1897, mas também com os conteúdos do Volume I do Manuscrito de Würzburg. Por exemplo, “a Crucificação do Candidato no torno” é coberto no Manuscrito de Würzburg [CW 14:261-2, “"The Trial of the Sun Initiate"]. O ”torno” também foi especificamente mencionado no volume III, publicado em 1897, mas essas páginas também contêm uma falha no manuscrito. Diz Annie Besant: “Existe uma falha nos manuscritos de HPB” (Vol. III, edição de 1897, p.272). Mais tarde L.H Leslie-Smith forneceu a parte em falta do Manuscrito de Würzburg [edição da Quest do volume III intitulada Esoteric Writings, p.466-7]. Mas o que aconteceu à página original na caligrafia de HPB que não constava do volume de 1897 e que constituía uma “falha”? A minha sugestão é a de que esta página de alguma maneira soltou-se do manuscrito do terceiro volume mas foi encontrada e publicada como um ”Fragmento” na “Lucifer” de agosto de 1896 [CW 7: 275-6]. Da mesma forma, “a história completa da Crucificação, etc… que se mostra ser baseada num rito tão antigo como o mundo – a crucificação do Candidato em provação no torno, descendo ao Inferno, etc…” sobre o qual HPB escreveu na sua carta para Sinnett, também é abordado na Doutrina Secreta de 1888 (vol. I, p. 543, 559, 558, 560-2.).


Número 1 da revista Lucifer
Foto: BlavatskyTheosophy.com

Portanto, a descrição de HPB de um “enorme volume introdutório” não é indicação de “material perdido” como de Zirkoff e Barborka acreditavam. Ao invés, a descrição de HPB é do manuscrito original do Volume I. O mesmo material pode ser encontrado no Volume I do manuscrito de Würzburg e no Volume III de 1897.

Com base nas próprias palavras de HPB, sabe-se que o primeiro volume original consistia de sete secções e vinte e sete apêndices. Também se estima que o que sobreviveu do volume I do Manuscrito de Würzburg corresponde a aproximadamente um terço do volume I original que os Keightley leram em maio de 1887. Podemos determinar os conteúdos do resto deste Volume I?


Dr. Archibald Keightley (1859-1930)


Abaixo está uma lista parcial de material inexistente no Manuscrito de Würzburg mas que provavelmente seria encontrado no manuscrito do Volume I original na caligrafia da própria HPB:

1. Em CW 14:342, HPB escreveu: “consulte o Apêndice” desta INTRODUÇÃO e leia “Os Jesuítas e a sua política”. Os editores dos Collected Writings adicionaram uma nota de rodapé: “Não identificado sob este título. Possivelmente reintitulado Teosofia ou jesuitismo?; ver BCW IX”.

2. Em CW 7:190, HPB escreveu: “explicado nos nossos Apêndices sobre “Magia Egípcia” e “Espíritos chineses (Doutrina Secreta). “Os Collected Writings têm notas editorais contraditórias sobre estes dois artigos (7: 104 e 190-91).

3. Em CW 7:226, HPB diz: “Tentei explicar e dei as opiniões individuais e coletivas dos grandes filósofos da antiguidade na minha Doutrina Secreta.” Numa nota editorial, de Zirkoff diz: “Ao consultar as páginas 234-240 do Volume [III] publicado em 1897…o estudante encontrará um breve ensaio sobre “Os ídolos e os Terafins.” Esse ensaio é precisamente o material falado por HPB no seu comentário atrás citado.

4. No volume II do Manuscrito de Würzburg, que lida com as Estâncias de Dzyan e com os comentários de HPB sobre as mesmas, a seguinte referência é encontrada: (ver “Um Mistério sobre o Buda, Ap. à Secção VI)”. Interpreto que isto significa que o artigo “Um Mistério sobre o Buda” era um apêndice à secção seis do primeiro volume do manuscrito de A Doutrina Secreta de 1886-1887. O volume II original (que lida com as sete estâncias de Dzyan e os comentários do HPB) tinha numerosos apêndices, pelo menos dezassete, senão mais. Estes apêndices não existem no Manuscrito de Würzburg mas a eles se refere HPB no decurso dos seus comentários. Por exemplo, HPB escreveu “Ver Dinastias Divinas, Ap. XII” ou “Ap. VII, “Substância Primordial” e assim por diante.

5. Outra referência aos conteúdos do Volume I original é provável que seja encontrado no Volume II do Manuscrito de Würzburg, no qual HPB se refere ao “Ap. na Sec. Prel. Kuan-Shain-Yin.”

6. Todas estas referências dão-nos alguma indicação a que material adicional estava no volume I de A Doutrina Secreta (1886-1887).



 

Continua na próxima semana.

sábado, 18 de junho de 2016

A controvérsia sobre o quinto e sexto volumes de "A Doutrina Secreta" (2ª parte)

Na segunda parte deste artigo é iniciada a tradução do texto de Daniel Caldwell sobre o terceiro volume de "A Doutrina Secreta". Para perceber o contexto é fundamental ler a 1ª parte publicada na passada semana.


Único livro de Daniel H. Caldwell
editado em língua portuguesa.



Parte 1 - Introdução

Em 1897, Annie Besant publicou aquilo a que chamou de terceiro volume de “A Doutrina Secreta”, que tinha sido anunciado por H.P. Blavatsky mas deixado por publicar durante a vida da autora. Presentemente, o ponto de vista dominante é o de que o que Besant publicou não é o terceiro volume de Blavatsky, mas sim algo reunido a partir de vários documentos deixados por HPB.


Annie Besant (1847-1933)


Seguem-se alguns exemplos dessas opiniões:

Um “Terceiro volume” espúrio [foi] lançado em 1897, seis anos após a morte de H.P. Blavatsky. Compilado a partir de uma miscelânea de papéis encontrados nos seus pertences, este volume não faz parte de A DOUTRINA SECRETA original escrita por H.P.B. [prefácio do editor (1947) na reimpressão facsimile da edição de “A Doutrina Secreta” pela Theosophy Company, Los Angeles, Califórnia].

O volume III de “A Doutrina Secreta”…foi publicado em Londres em 1897 com um prefácio escrito por Annie Besant. Deve ficar claro contudo, que este volume não é o terceiro volume idealizado por HPB [Geoffrey A. Barborka, H. P. Blavatsky, Tibet and Tulku, p. 159].




O verdadeiro Volume III…desapareceu sem deixar rastro. [Boris de Zirkoff em H.P.B.'s Collected Writings, vol.7, p.226, nota de rodapé].

O volume III em perspetiva…nunca viu a luz do dia. [de Zirkoff em DS vol. 1, p.679 (Collected Writings edition).

É possível que HPB tivesse em mente um volume adicional [o terceiro] de “A Doutrina Secreta” que efetivamente nunca foi encontrado entre os seus papéis. [de Zirkoff em CW vol. 14, p.1] 

 


No volume I, Blavatsky havia prometido um terceiro volume e projetado um quarto. Essa promessa foi repetida no fim do volume II… Algum material havia sobrado do volume I tal como ela originalmente o concebeu…mas relativamente pouco havia efetivamente sido escrito…Quando Annie Besant tentou encontrar o material não publicado, ela foi capaz de localizar apenas muito pouco daquilo que pertencia ao que HPB pretendia para a continuação do livro. O pouco que Besant encontrou, foi combinado com algumas instruções que Blavatsky tinha escrito para os membros da Secção Esotérica…e esse material, uma evidente mixórdia, foi publicado…como o “terceiro volume” do trabalho de HPB. O “terceiro volume” contém indubitavelmente algum material – sobre as vidas de ocultistas famosos – que havia sido eliminado do primeiro volume do trabalho original, mas também continha bastante material que certamente nunca foi suposto integrar A Doutrina Secreta. [John Algeo, Getting Acquainted with The Secret Doctrine: A Study Course, ed. 1990, p. 23-4]

H.N. Stokes, editor de “The 0. E. Library Critic” defendia que os manuscritos do verdadeiro volume III desapareceram e nunca foram publicados. Ele escreveu cerca de dezassete artigos analisando as provas em relação aos manuscritos do volume III.


H.N. Stokes (1859-1942)

Podemos adicionar muitos outros nomes conhecidos à lista daqueles que têm opiniões semelhantes: Alice Cleather, Basil Crump, Charles J. Ryan, Victor Endersby, Walter A. Carrithers, Jr., Kirby Van Mater, Ted G. Davy, Richard Robb, Dara Eklund e muitos mais.

Este ponto de vista dominante era também a minha opinião inicial, mas depois de um estudo aturado do manuscrito de Würzburg de “A Doutrina Secreta” e de todos os outros documentos de fonte primária relevantes (1886-1897) sobre o assunto, já não estou mais convencido de que os escritores teosóficos acima mencionados estão certos nos seus pontos de vista em relação ao volume III.

De facto, estou inclinado a acreditar que as páginas 1-430 do volume III [NT: que correspondem ao volume V e volume VI até à pág. 75 da edição em língua portuguesa de “A Doutrina Secreta”] publicado em 1897 era o verdadeiro terceiro volume pretendido por HPB (as páginas 433-594 daquele volume [NT: correspondem às páginas seguintes à 79 no volume VI de língua portuguesa] consistem dos ensinamentos esotéricos dados por H.P. Blavatsky aos membros da Escola ou Secção Esotérica durante os anos de 1889-1891 e não estão em debate). As provas e o raciocínio para suportar esta posição serão de seguida apresentados.


H.P. Blavatsky


Continua na próxima semana.