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sábado, 26 de novembro de 2016

Kali-Yuga: uma idade de crescimento ou de decadência espiritual? (4.ª parte)

É hoje publicada a 4.ª parte do artigo de Barend Voorham "Kali-Yuga: uma idade de crescimento ou de decadência espiritual?".

Voorham pertence à Sociedade Teosófica de Point Loma, cujas atividades estão centradas na Holanda e Alemanha.

Esta organização tem-se revelado com uma das mais empenhadas nas Conferências Internacionais de Teosofia (ITC). Vários dos seus membros fazem parte da Direção desta iniciativa, que não é mais do que uma plataforma onde as organizações teosóficas e dedicados estudantes de Teosofia se encontram. As ITC estão comprometidas em ligar todos os teosofistas, apoiando-os na causa comum à luz dos objetivos do ITC que são:



1. Manter os princípios do movimento teosófico moderno delineados por HPB como uma forçça viva nas mente e coração da Humanidade, encorajando a exploração à luz dos seus ensinamentos;

2. Promover a intercomunicação mútua significativa, a compreensão e o respeito entre as correntes teosóficas, estimulando assim a unidade espiritual contínua;

3. Ser uma plataforma, apoiando e patrocinando a conferência internacional anual das organizações teosóficas.

4. Unir as pessoas na partilha da Filosofia da Teosodia, estudando e explorando cada vez mais a Religião, a Filosofia e a Ciência a partir de uma perspetiva teosófica.


Seguimos agora para a tradução da 4.ª parte do artigo de Barend Voorham, não sem antes se recomendar a leitura das partes anteriores.

A Luz Astral

Contudo, a questão levanta-se sobre se estas caraterísticas que na verdade caraterizam a nossa presente era, são causadas pelo Kali-Yuga?

William Quan Judge disse que as pessoas são bastante afetadas pela Luz Astral no Kali-Yuga. (3) Uma das caraterísticas da Luz Astral é a de que todas as ações e pensamentos são aí gravados. É como se fosse uma galeria de imagens.

As pessoas são influenciadas pela Luz Astral. Claro que a influência não ocorre indiscriminadamente, mas apenas se nos identificarmos com uma certa camada desta esfera astral. Portanto, uma pessoa focada no material, que esteja sobrecarregada com fortes desejos egoístas, irá obter imagens e impulsos correspondentes da Luz Astral. Portanto, durante o Kali-Yuga as pessoas recebem impulsos de determinadas camadas da Luz Astral completamente distintas de quando se está nos outros Yugas.

Todos os desejos materiais, toda a adoração do corpo e da matéria, derivam de impressões que os nossos antepassados imprimiram na Luz Astral durante o Kali-Yuga do último Mahâ-Yuga (de que falaremos adiante). Para clarificar: nós próprios somos esses antepassados! No presente Kali-Yuga essas impressões ainda pesarão em nós.

Somos confrontados com todas as nossas inclinações materiais do passado. Portanto, estamos confrontados com causas que nós próprios criámos. Colhemos aquilo que semeámos.

Colhemos agora as causas do último Kali-Yuga. Isto também explica, por exemplo como novos desenvolvimentos, como a tecnologia de informação, são aceites e usados tão rapidamente. Apanhamos o fio do último Kali-Yuga.


Kali-Yuga: a idade intensa

Kali-Yuga é a idade mais rápida. As consequências sucedem-se quase imediatamente às causas, pelo menos em comparação com os outros Yugas. Isto conduz a pressão e tensão. Muitas coisas acontecem ao mesmo tempo. Uma nova moda ou tendência, uma revolução política ou uma invenção tecnológica mal apareceram e já algo novo acaba por surgir.

Não parece isto o nosso mundo de hoje? Os países mudam de governantes como as pessoas mudam de roupa. Em todo o lado acontecem revoluções. Novas modas e invenções sucedem-se numa velocidade incompreensível. Em poucos minutos ouvimos e vemos o que está a acontecer noutra parte do mundo. Os media informam-nos sobre o que está a acontecer noutras partes do mundo durante todo o dia. Os desenvolvimentos vão rebolando tal como fazem os cães sobre si próprios quando são pequeninos.

O Kali-Yuga é uma idade de rapidez. E, embora possa parecer contraditório, é nesta era em que o maior crescimento espiritual pode ser conseguido.

Nos Yugas mais calmos existiam chelas – estudantes dos Mestres de Sabedoria – que ansiavam pelo Kali-Yuga por essa razão. Um mais rápido crescimento é aí possível, pois os resultados das nossas tentativas são obtidos mais rapidamente. Cada ato e pensamento resulta em consequências quatro vezes mais rápidas comparativamente ao Satya-Yuga. Isto aplica-se a ações motivadas por desejos egoístas, mas também atos motivados pela compaixão. Portanto, podemos atingir uma compreensão da elevação espiritual, a maestria, mais rapidamente. Podemos contribuir mais para os nossos semelhantes.

O Kali-Yuga é o grande paradoxo. É a idade mais negra e ao mesmo tempo é a idade na qual podemos atingir a sabedoria e o discernimento espiritual mais rapidamente.


O homem faz os tempos; os tempos não fazem o homem

Portanto, com base nos conhecimentos da Theosophia, não gostaríamos de afirmar que o Kali-Yuga é uma idade maligna. Uma idade é em si própria neutra. Será um dia de inverno pior que um de outono? Será um dia de 2014 pior que um de 1914? As idades são neutras.
As pessoas é que dão o colorido às eras. O homem faz os tempos; os tempos não fazem o homem.

Evidentemente, cada idade oferece as suas próprias possibilidades. Durante o inverno fazemos coisas diferentes de quando é verão. Contudo, o recurso a essas possibilidades está dependente do próprio ser humano. Nós próprios é que fazemos a idade. Não há nenhum fado que nos traga a guerra, a violência ou o crescimento espiritual. É o homem que se encarrega disso. Cada um de nós faz as suas escolhas individualmente e decide se usará as oportunidades de uma idade para maior crescimento espiritual ou para egoísmo e para cultivar um sentimento de separatividade. Deste modo moldamos coletivamente a sociedade. O tempo não o faz, fazemo-lo nós próprios.

Ora, o Kali-Yuga força-nos a fazer mais escolhas que qualquer outra era. Quando há pressão e tudo é tão intenso, somos forçados a mostrar quem realmente somos.

Compare-se a uma situação de guerra. Nos tempos de paz e de felicidade não há necessidade de mostrar quem somos. Contudo, quando há tensão e perigo, somos forçados a fazer escolhas. Por exemplo, escolhemos nos salvaguardar à custa dos demais, ou sacrificamo-nos e ajudamos os nossos irmãos, ignorando perigos mortais? Este género de situações de pressão forçam-nos a assumir uma posição. Se escolhermos a unidade e o TODO, crescemos.

Durante o Kali-Yuga, o sofrimento pode ser enorme. Há adversidade, há provação. Contudo, a adversidade pode ser um incentivo para o desenvolvimento espiritual. Através da luta, através da dor, somos capazes de praticar a paciência, a perseverança, o nosso sentido de proporcionalidade, de compaixão. Também podemos mostrar que princípios formam a verdadeira base para os nossos atos.

Muitas vezes o homem eleva-se a grandes alturas em circunstâncias estranhas, em tempos de caos, guerra, tirania ou pobreza extrema. Não é verdade que estas desgraças sejam necessárias para o crescimento da consciência, mas parece que exatamente durante estes tempos negros, as pessoas têm uma noção mais profunda do significado da vida e exprimem isto realizando grandes obras.

Tudo se torna mais líquido sob pressão. Portanto, o Kali Yuga pode funcionar como um catalisador, pelo qual os elementos inferiores e superiores quer do homem individual e da humanidade se separam. Em tempos difíceis temos a oportunidade para apelar aos aspetos mais nobres da nossa consciência e mostrar aquilo que somos intrinsecamente: um ser divino.

Continua na próxima semana.


sábado, 12 de novembro de 2016

Kali-Yuga: uma idade de crescimento ou de decadência espiritual? (2.ª parte)

Na semana passada iniciámos a tradução do artigo "Kali-Yuga: uma idade de crescimento ou de decadência espiritual?" retirado desta edição da Lucifer em inglês, que é publicada pela Sociedade Teosófica de Point Loma - Blavatskyhouse, que tem sede em Haia, na Holanda.

Esta organização é uma das mais ativas hoje em dia na promoção da Teosofia, embora só esteja efetivamente presente na Holanda e na Alemanha. A mesma é herdeira da chamada tradição de Point Loma. Em 1895 dá-se a cisão na Sociedade Teosófica. Judge forma a sua própria organização que irá assentar arraiais em Point Loma, na costa ocidental dos EUA. Seria palco de uma grande comunidade de teosofistas, cuja história é contada magistralmente neste artigo do San Diego Reader. Nos anos 50, já instalada noutro espaço (em Pasadena, depois de ter saído de Point Loma em 1942, por questões financeiras, tendo ainda se instalado em Covina até 1945), dá-se um problema na sucessão desta organização teosófica. William Hartley, derrotado nesse processo altamente controverso vai fundar uma nova organização, a ST Point Loma - Blavatskyhouse. Herman Vermeulen, é o seu presidente desde 1985.


Herman Vermeulen
(foto retirada de: blavatskytheosophy.com)



Antes de prosseguir para a 2.ª parte, recomenda-se a leitura da introdução que antecedeu a publicação da 1.ª parte, feita na semana passada.





Yugas

Como já foi explicado, no ilimitado só existem pontos de início e de fim relativos. No Oriente, estes são descritos como a inspiração e expiração da divindade Brahmâ. Quando Brahmâ expira, existe um início relativo: a manifestação começa. Quando Brahmâ inspira há um fim relativo: a manifestação cessa de existir. Contudo, depois de um período de repouso, Brahmâ expira novamente e uma vez mais o Cosmos vem à existência.

Portanto, existe um processo cíclico contínuo de expiração e inspiração. Temos de ver a noção de Yuga dessa perspetiva. Yuga é uma palavra sânscrita, que literalmente significa “ciclo”. Um ciclo não é tanto um círculo, mas uma espiral. Como numa escada em espiral, sobe-se em círculos.

Existe outra palavra sânscrita que expressa a mesma ideia: Kala-Chakra, a roda do tempo. O tempo gira como uma roda. As idades vão e vêm e voltam de novo. E sempre retornam num nível ligeiramente superior.

Ora, esta roda gira numa determinada proporção, que é 4, 3, 2, 1 ou repouso, e depois 4, 3, 2, 1 outra vez e assim por diante. De acordo com a literatura Sânscrita estas proporções numéricas existem em todo o lado na natureza. Aplicam-se da mesma forma à vida num planeta, a um sol, bem como à vida da Terra, ou a uma fase da vida na Terra. Sempre encontramos esta mesma relação do 4, 3, 2 e 1. Portanto, um ciclo consiste de quatro idades.


Os quatro Yugas

O famigerado Kali-Yuga é uma destas quatro idades. É parte de um grande ciclo de mais de 4 milhões de anos, chamado pelos Hindus de Mahâ-Yuga, ou Grande Yuga. Mil Mahâ-Yugas constituem um ciclo de vida de um planeta. Nesse Mahâ-Yuga estas quatro idades são assim designadas:

Satya-Yuga     4
Tretâ-Yuga      3
Dwâpara-Yuga      2
Kali-Yuga       1

Os números que colocámos à frente de cada idade indicam as proporções entre estes quatro Yugas. Portanto, o Satya-Yuga – literalmente a idade da verdade – é quatro vezes mais longa que a idade mais curta, o Kali-Yuga.

De facto, não interessa a que ciclos se aplicam estes rácios. Eles são universais, e portanto, aplicáveis à vida de um sistema solar – a vida de Brahmâ – como à de um planeta, de um povo e até de homem. A única coisa que precisamos de fazer é pegar nos números 4, 3, 2, 1 como ponto de partida e por exemplo colocar um, dois, três ou dez zeros à frente. Quando diz respeito a eras de pequena duração devemos colocar um ou mais zeros antes de um ponto. Contudo, estes números também indicam as caraterísticas destes Yugas, ou seja, estão associados com o Dharma. Dharma significa Lei ou Dever no sentido da lei natural divina. Portanto, também podemos entender o Dharma como a religião, filosofia, ciência e ética verdadeiras. É a expressão da perfeita harmonia e unidade. Quando o Dharma é praticado, temos uma sociedade baseada na ética, dignidade humana, compaixão e respeito. As pessoas vivem de acordo com as regras éticas universais.

Nas metáforas típicas dos Hindus diz-se que o boi do Dharma – o símbolo da vivência de acordo com o Dharma – está apoiado nas quatro patas no Satya-Yuga, em três no Tretâ-Yuga, em duas do Dwâpara-Yuga e apenas numa no Kali-Yuga. Desta forma, a decadência, a degeneração da ética é salientada. (1)

Podemos encontrar uma ideia similar na Grécia antiga. Aí, as quatro idades eram chamadas de Idades do Ouro, da Prata, do Bronze e do Ferro. O nível interno da civilização decresce continuamente. Os Babilónios devem ter conhecido também estas idades, avaliando pelo sonho de Nabucodonosor mencionado na Bíblia (Daniel 2:32-33). Ele sonha com uma estátua gigante com uma cabeça dourada, peito de prata, ventre de cobre e pernas de ferro. É uma representação simbólica da evolução da humanidade, que se estende por mais de quatro idades.

Quanto tempo duram estas idades?

Como já foi explicado, em princípio podemos aplicar estes quatro Yugas a cada ciclo de vida, pequeno ou grande. Contudo, na maior parte dos casos, eles são aplicados ao que se designa por Mahâ-Yuga.

A duração destes destas quatro idades é fornecida em antigos textos Hindus como o Vishnu Purâna. Aí, os números elementares 4, 3, 2 e 1 surgem novamente. Contudo, cada uma das quatro idades tem uma fase inicial e outra terminal. Por outras palavras, existe uma alvorada e um crepúsculo. Em Sânscrito, isso é designado, respetivamente, por Sandhyâ e Sandhyânsa. A duração, quer da Sandhyâ quer da Sandhyânsa é de um décimo do respetivo Yuga. Isso é explicitado na imagem abaixo:
Caso queiramos saber quanto isto representa em anos terrestres, há que multiplicar estes números por 360.




Este número está relacionado com a rotação de outros planetas à volta do Sol. Afinal de contas, os ciclos na Terra estão relacionados com os movimentos de outros corpos celestes. Existe uma relação próxima entre o Sol e os planetas. Eles influenciam-se mutuamente.

Conforme mostra a tabela, existe uma regularidade matemática nestes ciclos orbitais. Há uma correspondência entre as suas frequências. Note-se que a tabela tem os números arredondados. Ao longo de muitos séculos de existência, os planetas podem mudar ligeiramente a sua velocidade de rotação. Isto tem a ver com o livre arbítrio, que todo o ser vivo tem.

A rotação de Júpiter e de Saturno tem a duração mais longa. Quando se multiplica os seus períodos orbitais (12x30), obtemos o número 360. Um ciclo completo leva 360 anos terrestres. Assim, para os planetas visíveis a partir da Terra, todas as combinações possíveis estão identificadas.


É por esta razão que o número 360 era muito importante para os Hindus e também para os Babilónios, os Maias e muitos outros povos. Portanto, caso queiramos saber a duração dos Yugas em anos terrestres, temos que multiplicar os anos divinos por 360. (ver quadro).




Continua na próxima semana.

sábado, 5 de novembro de 2016

Kali-Yuga: uma idade de crescimento ou de decadência espiritual? (1.ª parte)

O Lua em Escorpião inicia hoje a publicação de um artigo que fez parte integrante do número 2/2014 da revista Lucifer, da Sociedade Teosófica de Point Loma-Blavatskyhouse. O mesmo trata sobre o Kali Yuga, o período em que nos encontramos atualmente e que se iniciou com a morte de Krishna, a 23 de janeiro de 3102 A.C.

O autor deste texto, é Barend Voorham, um dos mais proeminentes membros daquela organização teosófica. Voorham esteve recentemente no Brasil, mais precisamente na edição de 2016 da Escola Teosófica Internacional, onde fez várias comunicações. Esta colaboração entre tradições teosóficas distintas é o reflexo benéfico de uma das ideias saídas das Conferências Internacionais de Teosofia, mais precisamente a da "polinização cruzada", que pode ser concretizada - como foi aqui o caso - pela presença de oradores de organizações teosóficas distintas nas conferências e palestras.


Barend Voorham


O Lua em Escorpião acabou também por estar ligado indiretamente a este evento. Aproveitando a quantidade de artigos já publicados em língua portuguesa por este blogue, a Blavatskyhouse elaborou uma edição especial em língua portuguesa, que foi distribuída a alguns dos presentes na Escola Teosófica Internacional (e que rapidamente se esgotou, segundo os relatos que nos chegaram). A mesma está disponível aqui. Neste número, está já incluído o texto que hoje, o Lua em Escorpião começa a publicar. Com efeito, o texto foi por nós enviado a Barend Voorham para ser integrado nesta edição especial.

Avancemos para a publicação da primeira de seis partes deste excelente artigo.



Kali-Yuga: uma idade de crescimento ou de decadência espiritual?

por Barend Voorham



Vivemos tempos de inquietude. De acordo com algumas pessoas os tempos são tão negros e sinistros, que estamos caminhando rapidamente para a nossa perdição.

“Vivemos no fim dos tempos”, dizem as pessoas. Diz-se que isto está relacionado com o Kali-Yuga, a Idade do Ferro.

É na verdade o Kali-Yuga uma idade tão negra?

Esta é uma investigação aos antigos textos hindus e à nossa era moderna.



Nandi, o boi do Dharma


IDEIAS-CHAVE

  • As idades têm tudo a ver com os ciclos cósmicos.

  • Um ciclo pode ser dividido em quatro idades, que estão relacionadas entre si através de 4 : 3 : 2 :1.

  • Cada uma destas idades tem uma fase inicial e uma fase final.


  • O Satya-Yuga é a idade espiritual e de paz. É a fase infantil. As pessoas não têm ainda muita responsabilidade.


  • O Kali-Yuga começou em 3102 A.C. durante uma circunstância cósmica especial.


  • No Kali Yuga a ética está sob pressão; tudo é intenso e acontece rapidamente; há uma forte influência da Luz Astral; há grandes oportunidades para crescimento e declínio espiritual.


  • Durante o Kali-Yuga o novo grande ciclo (raça-raiz) desponta.


  • Cada novo ciclo começa com um pequeno número de pessoas com uma mentalidade diferente.


Tal como todos os outros povos da Antiguidade, os Hindus tinham uma visão cíclica do tempo. Não há um início absoluto, o momento em que o tempo começou. Em sentido absoluto, o universo não começou com um big bang, depois do qual a vida e o tempo vieram à existência. Da mesma forma uma vida individual não começa com a conceção.

Os antigos textos hindus retratam o conceito de ilimitado. A bem conhecida afirmação dos Upanixades “TAT twam asi” – tu és AQUILO, ou: tu és o Ilimitado, expressam isto de modo conciso.

Portanto, nada é criado no sentido literal da palavra; nada foi feito a partir do nada. Tudo esteve sempre lá. E tudo – o cosmos, o homem ou o átomo – aparece ciclicamente. Mal a consciência adormecida desperta novamente, o tempo começa. O SER eterno, a nossa essência mais profunda, não conhece o tempo, apenas a Duração ilimitada.


Capa da edição especial da Lúcifer
em língua portuguesa


O que são idades?

No que se refere ao tempo, a primeira coisa que podemos notar é que está relacionado com a perceção de movimentos de objetos ou corpos. Tomamos o ciclo astronómico como a unidade do tempo, por exemplo, a rotação do nosso planeta à volta do seu eixo. Isto dá-nos o ritmo do dia e da noite. Dividimos este período em 24 unidades, a que chamamos horas. Além disso, a Terra orbita à volta do Sol em 365,25 dias, ou seja revolve 365,25 vezes à volta do seu eixo, enquanto completa a sua órbita à volta do Sol.

Portanto, são sempre fenómenos externos, como a rotação da Terra à volta do Sol e da Lua à volta da Terra em órbitas cíclicas, que interpretamos e explicamos através de determinadas unidades de tempo.

Contudo, quando não estamos neste mundo dos fenómenos, por exemplo, quando estamos a dormir, a sonhar, ou mortos, desconhecemos de todo o tempo. Não existem relógios nos nossos sonhos. Quando acordamos depois de um sonho, muitas vezes não sabemos se dormimos por uma ou duas horas ou apenas por alguns minutos. A forma como valorizamos o tempo depende do nosso estado de espírito. Não parece que as duas horas no cinema passaram muito mais rapidamente do que meia hora na cadeira do dentista? Em resumo, o tempo está sempre relacionado com a manifestação - com as coisas, com os fenómenos, com a interpretação, com a apreciação, e portanto é uma ilusão.

Em Sânscrito isto é chamado de Mâyâ, o que significa “medida”. Tudo o que pode ser medido é uma ilusão. Isso significa: é de uma natureza transitória e não tem sustentabilidade por si só. É a consequência de algo que se esconde por trás dessa aparência. Portanto, uma idade é o período em que algo é manifestado.

Por exemplo, um homem nasce. A sua “idade” começa. Depois de cerca de 70 anos ele morre. Então, num certo sentido, também o tempo para, pelo menos para ele, dado que não há manifestação. Só quando este homem nasce outra vez e reaparece neste mundo ilusório, existe de novo uma noção de tempo.

Devemos entender as grandes idades da mesma forma. Elas são os ciclos de vida de um ser ou de um grupo de seres.

Continua na próxima semana.

sábado, 14 de maio de 2016

ITC 2016 – Conferência Internacional de Teosofia deste ano decorrerá nos Estados Unidos

Depois de dois anos na Europa, as Conferências Internacionais de Teosofia (ITC) regressam aos EUA. 



Em 2013, a ITC teve lugar em Nova Iorque, na costa leste do país, mas em 2016 a Conferência irá se realizar no extremo oposto do país, mais exatamente em Santa Barbara, na Califórnia. Terá início a 11 de agosto, uma quinta-feira e terminará no dia 15, um domingo.


Um retiro espiritual que dá pelo nome de “La Casa de  Maria” acolherá o evento e albergará muitos dos participantes. Espera-se que a Conferência seja muito concorrida, pelo que se está interessado em assistir à mesma, convém reservar lugar. As inscrições estão já abertas.


Um mapa de "La casa de Maria"

"Teosofia e a Responsabilidade Social" é o tema da ITC 2016

A ITC de 2014 que se realizou em Naarden e que teve um recorde de participantes permanece como um marco importante destas conferências, que nasceram de modo muito informal nos anos 90 do século passado. Na ITC 2014 foi elaborada uma declaração, conhecida como a declaração de Naarden onde está expresso o compromisso daqueles que suportam e participam nas ITC.


Perto de 140 pessoas estiveram presentes na ITC 2014


A página oficial das Conferências salienta as seguintes passagens como contendo os elementos centrais da declaração:

“Comprometemo-nos através da aprendizagem, formação e da polinização-cruzada a popularizar e a preservar os ensinamentos vivos para as gerações futuras.”

“O nosso objetivo principal e que todos partilhamos, é o de manter vivo o espírito do ITC 2014.”


Eugene Jennings, um associado da LUT (à direita) é o presidente
da ITC. À esquerda está Herman Vermeulen, vice-presidente
e líder da ST Point Loma. Tim Boyd, o segundo a contar da
direita é o presidente da ST Adyar e a seu lado está Linda Oliveira,
presidente da secção australiana.

A página oficial refere:

O passo seguinte no processo de polinização-cruzada e de preservar os ensinamentos vivos é aprendendo uns com os outros. Como é que as diferentes tradições olham e interpretam os ensinamentos teosóficos? Qual é o posicionamento da Teosofia no mundo de hoje e como é que os teosofistas valorizam o seu compromisso na manutenção dos ensinamentos vivos para as gerações futuras?


No video acima, Tim Boyd mostra algumas fotos e fala sobre o ITC 2012


O tema para 2016 é:

Teosofia e responsabilidade social - Aplicando os ensinamentos de H.P. Blavatsky sobre a mente e o coração  

A próxima Conferência será certamente tão enérgica e inspiradora como as anteriores. Os teosofistas estão cientes do desafio que enfrentam, dando um passo ou mesmo um salto em frente.

No verdadeiro espírito de fraternidade eles podem consegui-lo através da partilha e colaboração, e ao terem mentes abertas.


Busto de Helena Blavatsky, fundadora do movimento
teosófico moderno


Mais detalhes na página oficial do ITC

Na página oficial do ITC são dadas indicações de como chegar a La casa de Maria. Alguns voluntários irão também estar disponíveis para ajudar a transportar os participantes para o local, mas para isso é necessário preencher um formulário e enviar um e-mail para Carolyn Dorrance, uma associada da Loja Unida de Teosofistas, organização que aliás tem um dos seus núcleos mais ativos exatamente em Santa Barbara. Relembre-se que além de teosofistas da Sociedade Teosófica de Adyar , da Loja Unida de Teosofistas e da Sociedade Teosófica de Point Loma – Blavatskyhouse também habitualmente assistem ao evento teosofistas independentes. A Sociedade Teosófica de Pasadena abandonou as ITC há alguns anos.

No que diz respeito ao alojamento cerca de 40 quartos estão disponíveis. Cada quarto tem três camas individuais e uma casa de banho com duche. O preço dependerá se a ocupação é feita por um, duas ou três pessoas.



As refeições são vegetarianas. Para outro tipo de preferências alimentares deverá ser contactada previamente a organização.

A organização também aceita donativos.


Vermeulen, Jennings (centro) e à direita Jan Kind, o outro
vice-presidente das ITC

O Lua em Escorpião já acompanha as ITC desde 2013. Pode rever posts antigos sobre estes eventos clicando nas ligações abaixo

ITC 2013 aqui e aqui (mais informações e videos aqui)

ITC 2014 aqui, aqui, aqui e aqui (mais informações e videos aqui)

ITC 2015 aqui , aqui e aqui (mais informações e videos aqui)




A colaboração entre as diversas tradições do movimento é fundamental para a renovação do movimento teosófico e para que este se torne uma força mais coesa para a transformação espiritual que o nosso mundo necessita.

sábado, 9 de abril de 2016

Como provar a Teosofia? - H.P. Blavatsky e os seus sucessores (4ª parte)

Esta semana continuamos com a publicação da quarta e penúltima parte do artigo de Barend Voorham e Herman Vermeulen saído na edição de março de 2015 da revista Lucifer, da Sociedade Teosófica de Point Loma- Blavatskyhouse. Recomenda-se naturalmente a leitura das anteriores partes (1ª 2ª 3ª).


Confiança nos instrutores

A Teosofia moderna foi dada à humanidade pela Sociedade Teosófica (S.T.), fundada em 1875 em Nova Iorque por H.P. Blavatsky, Henry Steel Olcott, W.Q. Judge e mais outros treze.


Henry Steel Olcott, um dos fundadores
da Sociedade Teosófica (1832-1907)


Contudo, estes pioneiros – pelo menos três deles – alegavam que os verdadeiros fundadores eram os Mestres de Sabedoria e Compaixão. Nos últimos 150 anos, existiram as especulações mais rebuscadas sobre quem eram estes Mestres. Poucos os conheceram. De acordo com Blavatsky, são seres humanos que estão muito acima da média dos humanos em termos de capacidades, sabedoria e especialmente compaixão. Desde 1875, houve um dilúvio de ensinamentos teosóficos, e apesar da maior parte destes ensinamentos poder ser encontrado nos textos religiosos e filosóficos da Antiguidade, não raras vezes em linguagem velada, são tão novos e estranhos para muita da moderna humanidade, que para a parte maior dela será muito difícil compreender alguma coisa.

Viver em 2015, 140 anos depois da fundação da S.T., torna muito mais fácil entender alguns dos ensinamentos teosóficos. O karma e a reencarnação, por exemplo, são hoje em dia, mais ou menos familiares e portanto muito mais fáceis de entender. Mas no fim do século XIX tudo era novo e estranho.

Fazer um estudo dos primeiros anos da Sociedade Teosófica pode ser muito inspirador. As dificuldades que os pioneiros enfrentavam eram enormes. Existiam ataques hostis do mundo externo: cientistas que alegavam que os ensinamentos teosóficos eram superstição ultrapassada; a igreja Cristã, que não suportava o facto de a S.T. ter muita estima pelo Budismo e pelo Hinduísmo; os espiritualistas, a quem Blavatsky não negava os fenómenos, explicando-os contudo de forma muito diferente. Os maiores confrontos e problemas nasceram porém de antigos colaboradores que se opunham à S.T. e especialmente à sua principal fundadora, H.P. Blavatsky. O facto de a S.T. ter sobrevivido a todas estas dificuldades é para muitos estudiosos uma evidência de que a mesma foi de facto preservada pelos Mestres. Durante esses primeiros anos foi também claro que Blavatsky foi o elo entre os Mestres e a S.T.. É evidente que outras pessoas contribuíram significativamente para o trabalho. Henry Steel Olcott, presidente-fundador, desempenhou um papel muito importante na organização. Mas no que respeitava aos ensinamentos, H.P. Blavatsky era a autoridade. Graças a ela, algumas pessoas ligadas à Teosofia podiam se corresponder com os Mestres. Ela era conhecida como a “carteira oculta”. Quando ela deixava de estar num certo local, a influência dos Mestres perdia também vigor. Quando, forçada pelas circunstâncias, deixou a sede na Índia, a influência dos Mestres desapareceu também. (4)

Sede da Sociedade Teosófica matriz - Adyar, Chennai, Índia

Embora, depois da sua morte, o seu trabalho não tenha sido devidamente estudado por todos os teosofistas, ela permanecia como uma referência. Era a portadora da luz. Mas serão os seus escritos a palavra definitiva?


Méritos intrínsecos

A própria Blavatsky afirma num artigo que a Teosofia deve-se apoiar nos seus méritos intrínsecos. (5) Fez esta declaração no contexto da realização de fenómenos ocultos, com os quais ela tinha inicialmente tentado suscitar interesse nos ensinamentos teosóficos. A certa altura ela deixou de produzir estes fenómenos, porque não estimulavam o estudo da Teosofia, mas apenas despertavam o sensacionalismo.

Esta afirmação pode ser interpretada no sentido muito mais amplo: todos os ensinamentos, todos os textos, os de H.P. Blavatsky bem como os de outros autores teosóficos, devem provar-se por si mesmos. Não são verdade porque o autor pode produzir fenómenos ocultos ou porque foram inspirados por um Mestre. A prova é a convicção do pensamento. Chegamos a ela por pensar independentemente, não por acreditar nos outros! Quando testamos os ensinamentos com as nossas verdades já experienciadas e o teste confirma a doutrina, então podemos ter confiança na sua verdade.

A Teosofia é por definição não dogmática. Não obstante estimemos e amemos elevadamente H.P. Blavatsky, os seus textos devem ser abordados de modo tão crítico como qualquer outro texto. A Teosofia apenas é benéfica para o ser humano, se ele entender a verdade nela. Por outras palavras, uma atitude crítica perante um ensinamento e o teste permanente, com as suas próprias faculdades internas, é uma responsabilidade que não deve ser subestimada, porque se assim não for, em quê é que estamos a basear a nossa confiança de que Blavatsky era a mensageira dos Mestres?

Helena P. Blavatsky (1831-1891)


Claro que H.P. Blavatsky não forneceu a completa e absoluta verdade. Ela indicou os princípios da Teosofia aos buscadores da verdade, e deu um grande número de formulações dos mesmos com respeito à humanidade e ao planeta, mas nunca pretendeu dar “A Sabedoria dos Deuses” na totalidade, o que para já seria impossível. No final de “A Doutrina Secreta” ela escreve que as suas “exposições estão longe de ser completas” e que apenas quis “preparar o terreno”. (6) Os volumes III e IV de “A Doutrina Secreta” já haviam sido planeados e a sua publicação dependeria da receção dos volumes I e II, embora estivessem quase completos. Nunca foram publicados [NT: Na sua versão original, “A Doutrina Secreta” foi publicada em dois volumes, que correspondem, grosso modo, aos primeiros quatro volumes da edição em língua portuguesa. Esta controvérsia sobre os volumes III e IV será em breve abordada no Lua em Escorpião]. (7)


Portanto Blavatsky nunca deu a última palavra, mas antes a primeira, pelo menos no impulso de 1875 da Loja da Sabedoria e da Compaixão. Os ensinamentos que ela trouxe podem ser mais desenvolvidos e explicados. Ela também disse que no século XX “algum discípulo mais bem informado e com qualidades mui superiores poderá ser enviado pelos Mestres de Sabedoria para fornecer provas definitivas e irrefutáveis de que existe uma Ciência chamada Gupta-Vidyâ; e de que, como as nascentes do Nilo, outrora envoltas em mistério, a fonte de todas as religiões e filosofias atualmente conhecidas permaneceu esquecida e perdida para a Humanidade durante muitos séculos, mas foi finalmente encontrada.” (8)

Notas: 

4. Ver: H.P. Blavatsky, ‘Why I do not return to India’. Collected Writings, The Theosophical Publishing House, Wheaton 1990, Vol. 12, p. 157-158.
5. H.P. Blavatsky, ‘What of Phenomena’. Collected Writings, Theosophical Publishing House, Wheaton 1990, Vol. 9, p. 50.
6. H.P. Blavatsky sempre foi muito clara sobre este assunto. Ver por exemplo: A Doutrina Secreta, Vol I, p. viii [na versão original, p. 12 da edição em português], onde ela escreve que a Doutrina Secreta merece ser considerada, não porque invoque alguma autoridade dogmática, mas por se manter em íntima relação com os factos da Natureza e seguir as leis da uniformidade e da analogia; e:
A Doutrina Secreta, Vol. I, p. 20 [p.86 da edição em português], onde afirma que quando o leitor as tiver compreendido claramente [às três proposições fundamentais], e percebido a luz que espargem sobre todos os problemas da vida, mais nenhuma identificação se tornará necessária; pois a verdade lhe saltará aos olhos, tão evidente como a luz do Sol.
7. H.P. Blavatsky,The Secret Doctrine, Vol. 2, p. 797-798 [vol. IV da edição em português, p.365-366].
8. Ver ref. 7, Vol. 1, p. xxxviii [p.61 da ed. portuguesa].

Continua na próxima semana.

sábado, 2 de abril de 2016

Como provar a Teosofia? - H.P. Blavatsky e os seus sucessores (3ª parte)

Nas duas semanas anteriores, publicamos a 1ª e 2ª partes deste artigo de Barend Voorham e Herman Vermeulen publicado na revista Lucifer, da Sociedade Teosófica de Point Loma- Blavatskyhouse.

Esta semana, prosseguimos com a 3ª parte, recomendando-se naturalmente a leitura das anteriores.


Herman Vermeulen-um dos autores do artigo e líder da ST
Point Loma-Blavatskyhouse

Prova

Podem estas ideias teosóficas centrais ser provadas? Podemos estar convencidos da sua verdade?

Neste ponto temos de ser realistas. A forma mais elevada de prova é perceber, reconhecer, entender e experienciar a verdade por nós próprios. A maior parte das pessoas não é ainda capaz de experienciar muita da Teosofia. O PRINCÍPIO Omnipresente, Eterno, Ilimitado e Imutável, que é o ponto de partida de todo o sistema teosófico, não pode ser experienciado nem mesmo pelos deuses. Se algum ser experienciar o Ilimitado, dá expressão a ISSO e não é mais um ser ou em ego, porque um ser, por maior que possa ser, é sempre limitado. É por essa razão que nenhuma entidade é por definição capaz de entender completamente o Ilimitado.

A maioria das pessoas também não é capaz de experienciar a reencarnação conscientemente. Quando caímos no sono perdemos a nossa autoconsciência. Tal como quando adormecemos, passamos pelo processo de morrer e nascer inconscientemente e não podemos adquirir conhecimento em primeira mão.

Mas no domínio da confiança nós podemos conseguir completamente um certo grau de prova. Podemos considerar os princípios teosóficos como hipóteses e testá-las com as verdades que já experienciámos. Além disso, podemos examinar se eles coincidem com aquilo que percecionamos à volta de nós. Avaliamos de modo crítico se as ideias teosóficas são consistentes e lógicas e respondemos a todo o tipo de questões.

Desta forma, com base na razão e na lógica, podemos formar a ideia do Ilimitado.

É claro que esta ideia não é perfeita. Como seria isso possível? Mas ao menos iremos entender que a finitude é ilógica por natureza e contrária às observações humanas, pois nem no microcosmos, nem no grande universo nos deparamos com limites. Não apontam os factos científicos sobre o átomo e o universo na direção da infinitude? Ficamos portanto confiantes de que o conceito do ilimitado esteja correto?




Com respeito à reincarnação, também podemos dizer que é uma doutrina lógica. Em toda a natureza existem ciclos. Podemos encontrá-los ciclicamente quer na nossa vida quer nas civilizações humanas. 

Além disso, muitos fenómenos psicológicos são elucidados e explicados com o conceito da ciclicidade.

Também podemos acreditar na Teosofia. Não raciocinamos por nós próprios, mas cremos nos outros. 

Talvez tenhamos fé nela porque o nosso companheiro diz-se teosofista, ou porque achamos os teosofistas boas pessoas e de confiança. Esta crença é obviamente a forma mais fraca de convicção, porque se nosso o companheiro nos desiludir ou se perdermos os nossos amigos teosofistas, a base da nossa crença desaparece também.


Pistis: confiança espiritual

As provas efetivas de uma doutrina devem portanto ser encontradas na nossa própria consciência. Não podem ser fornecidas por outrem, por mais sábio que seja. Não obstante, podemos ter uma enorme confiança naquele que proclama uma doutrina.

Talvez pareça que chegámos tortuosamente ao ponto em que devemos aceitar uma doutrina baseada na autoridade de outrem. Estamos aqui a nos contradizer? Antes de mais, temos de entender que todos nós assumimos certas posições porque confiamos noutras pessoas. Poucos leitores já alguma vez pisaram o Pólo Norte. Contudo, a maior parte assume que o mesmo existe. Têm confiança nos relatos sobre esta região inóspita e assumem que as imagens daqueles mantos de gelo não são manipuladas.

Contudo, esta confiança não é uma crença cega. É mais um reconhecimento, baseado na lógica e na nossa própria experiência, da correção da perspetiva de outros, que aplicamos como uma hipótese útil.

A nossa sociedade não pode existir sem esta confiança. Afinal, se não confiássemos no eletricista, no condutor de autocarros, no médico e no padeiro não poderíamos viver juntos harmoniosamente. Pela mesma razão podemos ter fé nos instrutores espirituais.

Quando esta confiança tem mais a ver com temas espirituais, pode ser chamada, tal como na Grécia antiga de Pistis. Esta palavra pode ser traduzida como “fé” ou às vezes como “crença”. Contudo, é baseada na razão e em saber intuitivamente que algo é verdade. Não é crença cega. É um conhecimento interno, livre de preferências pessoais. É-nos familiar, porque corresponde com as nossas próprias experiências e identifica-se com o fundamento do nosso ser.

A Pistis pode certamente ser útil para nós na nossa busca pela verdade. Como dissemos, as provas são a convicção do nosso pensamento. Portanto, a verdade não vem do exterior, mas deve ser desenvolvida a partir do interior. Ou melhor, deve ser reconhecida ou relembrada. A Pistis é a confiança em nós próprios. Somos capazes de encontrar a verdade, porque ela está dentro de nós. 

Platão escreveu sobre isso. Qualquer conhecimento, qualquer verdade, dizia este antigo filósofo grego, está dentro de nós. Para prová-lo, reflete em “Fédon” da seguinte maneira. Vendo um objeto – uma lira, por exemplo - podemos nos recordar de outra coisa. Ver uma rosa, pode evocar a consciência do belo. Portanto, o conceito de “belo” – Platão fala da ideia do belo – já está dentro de nós, mas nós não nos apercebemos. A rosa externa foi o que espoletou a recordação do conhecimento interno da ideia de belo. (3) De facto, este é um despertar; a nossa fé em algo é sublimada até à compreensão da verdade. Vamos desde a “cabeça” ao “coração”.


Platão (427 (?) a.C-347 (?) a.C)

Isto também funciona com certos ensinamentos. O conhecimento já está dentro de nós. Através de um mito, de um símbolo, de um argumento ou de uma dissertação ficamos conscientes da verdade no nosso Eu. Somos parte de um todo infinito e um pouco mais de infinito também é infinito.

Notas:

3. Platão, Fédon, 72e-77a.

Continua na próxima semana.

sábado, 26 de março de 2016

Como provar a Teosofia? - H.P. Blavatsky e os seus sucessores (2ª parte)

Na semana passada, iniciámos a publicação do artigo da revista Lucifer "Como provar a Teosofia? - H.P. Blavatsky e os seus sucessores". Esta revista é publicada pela Sociedade Teosófica de Point Loma-Blavatsky House em holandês (desde 1979) e em inglês (neste caso desde 2013).

A autoria do artigo é de Barend Voorham e de Herman C. Vermeulen. Recomenda-se a leitura da introdução e também da 1ª parte.

Barend Voorham- um dos autores deste artigo

Avancemos então para a 2ª parte do artigo.

Crença – sentimentos interiores

Pode a convicção ser baseada na crença?

Crer é aceitar a verdade sobre algo com base na autoridade de alguém. Assume-se que alguém tem tanto conhecimento, ou é tão sábio, que o que diz é verdade. Isto pode aplicar-se a qualquer coisa. Há a autoridade religiosa. Há a autoridade do Estado. Os pais ou os professores têm uma certa autoridade, e assim sucessivamente.

Ao terem esta crença, algumas pessoas podem ficar muito satisfeitas porque isso priva-as da sua responsabilidade. É delegada a outrem. É verdade, dizem elas, porque fulano tal assim disse. Ele comprovou que era verdade.

Obviamente que esta é a maneira mais passiva de lidar com os assuntos.

Os aspetos inferiores da mente estão agora ativos e encontram-se satisfeitos, o que pode conferir um certo grau de convicção.


As leis de Newton – um exemplo

Vamos ilustrar estes três aspetos de evidência aplicando as leis de Newton.


Sir Isaac Newton (1643-1727)

A descoberta por Newton das três leis fundamentais da natureza foi o início de uma nova fase na ciência. Estas leis são geralmente aceites como verdadeiras. São ensinadas nas escolas e universidades. Mas a questão é: com que base presumimos que essas leis da natureza são verdadeiras? De acordo com estas leis todos os objetos exercem uma atração mútua. Podemos ver claramente que todos os objetos caem na terra. Toda a gente experiencia a gravidade. Todos podem portanto entender que os objetos são atraídos para a Terra. Mas a lei da gravidade também ensina que todos os objetos caem ao mesmo tempo se atirados a uma distância similar.

A “Fallturm Bremen” é uma torre de queda livre no Centro de 
Tecnologia Espacial Aplicada e Microgravidade (ZARM) da 
Universidade de Bremen, na Alemanha. Tem um tubo de 123 metros
 (a verdadeira distância de queda são 110 m), no qual 4.74 segundos
 de ausência de gravidade podem ser conseguidos.

Esta última parte não é confirmada pela nossa observação. Quando se deixa cair uma pena e uma peça de chumbo da mesma altura, elas não atingem simultaneamente o chão. Será que, não obstante, ainda acreditamos em Newton, que alega que todos os objetos caem com a mesma aceleração?

Uma análise mais atenta mostra contudo que as propriedades aerodinâmicas da atmosfera exercem uma influência altamente disruptiva na velocidade dos objetos. Isto foi demonstrado muitos anos depois de Newton no que se designa por torre de queda de vácuo. Provavelmente poucos leitores de Lucifer repetiram os testes com uma torre de queda. Não determinaram pela sua própria observação que as leis de Newton são efetivamente corretas. Apenas aqueles que o fizeram, experienciaram efetivamente a verdade.

Mas, a maior parte das pessoas apenas observou que os objetos caem na terra. Portanto, se querem assumir as leis de Newton como verdadeiras, elas devem ter confiança em Newton e noutros investigadores que recolheram mais informação sobre este tópico. Eles obtêm essa confiança ao ponderar de forma independente os detalhes das várias investigações. Devem ser ativos na procura de compreenderem.

Outros podem nunca ter refletido sobre a gravidade. Acreditam na autoridade dos cientistas ou dos professores de que Newton estava certo. Assumem que ele e os físicos depois dele são pessoas de tal modo inteligentes que o mais provável é que estejam certos. Portanto, existem três géneros de convicção, ou três tipos de humanos. Aqueles que acreditam, aqueles que têm confiança e aqueles que sabem. É claro que existem combinações destes três tipos.


A mensagem de H.P. Blavatsky

Vamos agora olhar para o nosso objeto principal, a Theosophia. Esta “Sabedoria Divina” foi trazida por H.P. Blavatsky no final do século XIX. Mais tarde foi desenvolvida e disseminada por outros.

Blavatsky demonstrou nos livros e nos muitos artigos que escreveu, as implicações da Teosofia. Ela explicou os ensinamentos teosóficos ao usar os exemplos correntes de então. Algumas das teorias científicas do seu tempo estão obsoletas. Mas ela apenas usou esses exemplos para explicar os princípios universais. As descobertas recentes podem muitas vezes ilustrá-los melhor, portanto o que mais interessa são as doutrinas e não os exemplos.





Um outro ponto é o de que a Teosofia contém um vasto campo de ensinamentos. Oferece uma visão nítida em relação a cada tópico. Não existe assunto em relação ao qual a Theosophia não tenha uma visão. Às vezes os ensinamentos são muito detalhados e é difícil encontrar o nosso caminho através de um labirinto de informação. Não conseguimos ver a madeira nas árvores.

Se contudo queremos encontrar a verdade, não devemos começar com os detalhes, mas com uma perspetiva mais ampliada. Por outras palavras: quais são os princípios da Teosofia?

Ora, estes princípios são claros como a água. Não são dogmas, mas devemos tomá-los como hipóteses ou axiomas. (2) Os princípios centrais são: 1) ilimitabilidade 2) ciclicidade 3) evolução progressiva e absoluta igualdade entre todos os seres vivos. Por outras palavras, todos os seres vivos estão no seu núcleo ilimitado. E, ao estarem nas profundezas dos seus corações ilimitados, existe uma absoluta igualdade. Num processo cíclico eles aparecem e desaparecem. Durante o período no qual aparecem nesta etapa na Terra, eles têm a possibilidade de desenvolver mais do seu infinito potencial.

Destas três ideias básicas podemos deduzir que cada fenómeno é a manifestação da consciência, a manifestação de um poder ou de uma substância formativa subjacente mais etérica. Um fenómeno é portanto como uma sombra: vai e vem, enquanto a força que projeta a sombra subsiste.

Todos os ensinamentos teosóficos, até ao mais pequeno pormenor, são baseados nestas ideias centrais. São emanadas logicamente a partir dessas ideias e nunca podem contradizê-las.

Notas:

2. Ver: Herman C. Vermeulen, ‘H.P. Blavatsky’s message to the world’, Lucifer, nº1, março 2015, p. 2-4.